Foi uma derrota humilhante, mas Cameron saiu com uma elegância britânica. Foram 282 votos contra o engajamento militar do Reino Unido na Síria e 272 votos a favor. Uma derrota que fragiliza o Primeiro-Ministro e seu gabinete, pois dentro de um sistema parlamentar não se pode conceber uma derrota desta envergadura, especialmente em um assunto tão importante.
Cameron estava confiante. Já negociava internacionalmente mostrando protagonismo e desenvoltura. Falava com a certeza da vitória sobre a mesa. Veio o revés. Sabemos que a política britânica é cruel. A Câmara dos Comuns já protagonizou cenas parecidas no passado. No interior dos partidos não é diferente. Thatcher enfrentou a traição dentro dos Tories, Blair foi pressionado, pelo trabalhismo que ele recriou, a sair de cena e dar lugar a Gordon Brown. Isto sem falar em Churchill. Enfim, Cameron sabe de todas essas coisas, mas sua confiança era grande.
O governo de Cameron, depois de 6 horas de discussões perdeu dentro de sua própria coalizão. A política britânica aplicou um golpe interno em seu gabinete, sendo contabilizadas 30 traições entre os Tories e 9 entre os Liberais-Democratas - espaço mais que o suficiente para vencer a disputa.
Apesar da política britânica ser especialmente traiçoeira e cruel, os parlamentares mantiveram suas atenções focadas na opinião pública: mais de 66% dos súditos da Rainha não estão de acordo em gastar suas libras com a cabeça de Assad. De olho no desejo do eleitor, a traição correu solta pelo Parlamento.
Mas o pano de fundo da discussão era o Iraque e como a imagem do Reino Unido ficou arranhada diante do engajamento da Coroa no conflito. Os britânicos não desejam outro Iraque e talvez a derrota tenha evitado Cameron ser levado a grelha política assim como aconteceu com Blair. Depois do trauma no Oriente Médio, a população pediu cautela. Os parlamentares atenderam. Cameron ficou sozinho.
Desde 1782 um Primeiro-Ministro não via sua decisão de ir a guerra rejeitada pelo Parlamento. Aconteceu agora. Crueldades políticas que a Câmara dos Comuns sabe operar melhor do que ninguém. Agora é o momento de Cameron se recompor.
sexta-feira, agosto 30, 2013
quinta-feira, agosto 29, 2013
Teatro Político
Obama precisa de um fato novo para dar uma guinada em uma administração cambaleante. A imprensa pressiona por uma resposta. É muito difícil que a Casa Branca não inicie uma ofensiva, mesmo que tímida, contra a Síria. Um erro de cálculo, porém, pode jogar em desgraça o governo democrata.
O esforço de Obama agora é no sentido de justificar a ação. A tal linha intolerável, o uso de armas químicas, foi ultrapassado. Agora resta saber se foi Assad. Dizem que sim. O governo americano diz que sim. Será?
Da mesma forma a comunidade internacional se mobiliza. O Reino Unido discute a ofensiva. A França defende uma intervenção. Os americanos desejam montar uma coalizão para não carregar o ônus de mais uma guerra sozinhos. Mas falta combinar com o russos. Putin defende Assad e bloqueará qualquer tentativa mais séria de resolução no Conselho de Segurança. Obama passará por cima do Conselho?
Sabemos que a intervenção na Síria é outro papo. O regime não está moribundo, como Kadafi estava na Líbia. Uma intervenção séria poderia se tornar longa e perigosa. Não existem alternativas confiáveis para a substituição de Assad. A retirada dele do poder abre um vácuo que pode desestabilizar toda a região, iniciando pelo Líbano e com reflexos no Iraque e Irã. Mexer na Síria é lidar com um vespeiro.
Por tudo isso, aqui em Washington, sabe-se que Obama não gostaria de lidar com esta situação. Para ele seria melhor a manutenção prévia, mas o uso de armas químicas está empurrando os Estados Unidos para dentro do conflito. Se de um lado é ruim, de outro é bom, pois politicamente, se bem orquestrada, uma ação militar aumentaria a aprovação de um Obama que flerta com impopularidade. Entretanto, se ele estiver frente a um atoleiro, uma ação errada pode ser danosa ao seu legado político.
A aposta no momento é uma ação pontual para punir Assad, não derrubá-lo. Sua saída não interessa a ninguém. A punição pode estar sendo discutida com a Rússia. Assim, haveria um movimento político, um bombardeio em áreas determinadas, Assad se mantém no poder e as nações mostram que existe limite. Tudo um teatro político. A conferir.
O esforço de Obama agora é no sentido de justificar a ação. A tal linha intolerável, o uso de armas químicas, foi ultrapassado. Agora resta saber se foi Assad. Dizem que sim. O governo americano diz que sim. Será?
Da mesma forma a comunidade internacional se mobiliza. O Reino Unido discute a ofensiva. A França defende uma intervenção. Os americanos desejam montar uma coalizão para não carregar o ônus de mais uma guerra sozinhos. Mas falta combinar com o russos. Putin defende Assad e bloqueará qualquer tentativa mais séria de resolução no Conselho de Segurança. Obama passará por cima do Conselho?
Sabemos que a intervenção na Síria é outro papo. O regime não está moribundo, como Kadafi estava na Líbia. Uma intervenção séria poderia se tornar longa e perigosa. Não existem alternativas confiáveis para a substituição de Assad. A retirada dele do poder abre um vácuo que pode desestabilizar toda a região, iniciando pelo Líbano e com reflexos no Iraque e Irã. Mexer na Síria é lidar com um vespeiro.
Por tudo isso, aqui em Washington, sabe-se que Obama não gostaria de lidar com esta situação. Para ele seria melhor a manutenção prévia, mas o uso de armas químicas está empurrando os Estados Unidos para dentro do conflito. Se de um lado é ruim, de outro é bom, pois politicamente, se bem orquestrada, uma ação militar aumentaria a aprovação de um Obama que flerta com impopularidade. Entretanto, se ele estiver frente a um atoleiro, uma ação errada pode ser danosa ao seu legado político.
A aposta no momento é uma ação pontual para punir Assad, não derrubá-lo. Sua saída não interessa a ninguém. A punição pode estar sendo discutida com a Rússia. Assim, haveria um movimento político, um bombardeio em áreas determinadas, Assad se mantém no poder e as nações mostram que existe limite. Tudo um teatro político. A conferir.
quinta-feira, agosto 22, 2013
Aécio, Serra e a Terceira-Via
Muitos acreditam que a oposição realmente tem uma chance nas eleições presidenciais do próximo ano. Cada vez que digo que as coisas não bem assim, as pessoas se decepcionam. Falam das manifestações, da queda na popularidade de Dilma e do julgamento do Mensalão. Sempre lembro, contudo, que a ciência de uma eleição vai muito além deste quadrante.
Dilma ou o candidato do PT continua a ser o favorito. A equação é simples. Possuem controle da máquina governamental e da liberação de verbas e emendas parlamentares. O PT continua com seu eleitorado fiel que empurra seu candidato para o segundo turno. Não esqueçamos dos programas de transferência de renda.
A oposição está rachada. Aécio despontava como nome de consenso entre os tucanos. Eis que surge, como sempre, José Serra. O paulista já está em plena ação partidária contra o mineiro. Mas Aécio tem as características dos políticos mineiros e pouco a pouco poderá colocar Serra no bolso. O paulista já flerta com o PPS para sair candidato ao Planalto, ou como sugere-se no ninho tucano, pleitear uma vaga no Senado por São Paulo. Coisa que não lhe agrada.
Marina tem enfrentado problemas para legalizar sua "Rede" em tempo hábil para disputar a eleição. Por isso, o PPS também flerta com ela. Marina tem um grande potencial de votos e pode desequilibrar esta eleição, caso não vença, pois possui chances reais.
O fato é que as manifestações mostraram a necessidade de uma terceira-via dentro do duopólio PT-PSDB. Marina entendeu isso e tenta vender-se como o novo, até agora com bastante êxito, mas o jogo ainda vai começar. Joaquim Barbosa poderia entrar no tabuleiro, mas seu temperamento joga contra si e em uma campanha isto vale muito, como bem lembra Ciro Gomes.
O fato é que o PSDB, para não perder terreno, precisa arrumar a cozinha. Serra, que tenta bagunçá-la, não ajuda o partido. Aécio, o mineiro, já se movimenta com possíveis aliados fora do PSDB e costura alianças em palanques regionais - faz política de articulação nos bastidores.
O PT virá forte. Marina tentará encarnar a terceira-via. Aécio tem ao seu dispor sua habilidade política. A partir daí o cenário de 2014 começa a ser desenhado.
Dilma ou o candidato do PT continua a ser o favorito. A equação é simples. Possuem controle da máquina governamental e da liberação de verbas e emendas parlamentares. O PT continua com seu eleitorado fiel que empurra seu candidato para o segundo turno. Não esqueçamos dos programas de transferência de renda.
A oposição está rachada. Aécio despontava como nome de consenso entre os tucanos. Eis que surge, como sempre, José Serra. O paulista já está em plena ação partidária contra o mineiro. Mas Aécio tem as características dos políticos mineiros e pouco a pouco poderá colocar Serra no bolso. O paulista já flerta com o PPS para sair candidato ao Planalto, ou como sugere-se no ninho tucano, pleitear uma vaga no Senado por São Paulo. Coisa que não lhe agrada.
Marina tem enfrentado problemas para legalizar sua "Rede" em tempo hábil para disputar a eleição. Por isso, o PPS também flerta com ela. Marina tem um grande potencial de votos e pode desequilibrar esta eleição, caso não vença, pois possui chances reais.
O fato é que as manifestações mostraram a necessidade de uma terceira-via dentro do duopólio PT-PSDB. Marina entendeu isso e tenta vender-se como o novo, até agora com bastante êxito, mas o jogo ainda vai começar. Joaquim Barbosa poderia entrar no tabuleiro, mas seu temperamento joga contra si e em uma campanha isto vale muito, como bem lembra Ciro Gomes.
O fato é que o PSDB, para não perder terreno, precisa arrumar a cozinha. Serra, que tenta bagunçá-la, não ajuda o partido. Aécio, o mineiro, já se movimenta com possíveis aliados fora do PSDB e costura alianças em palanques regionais - faz política de articulação nos bastidores.
O PT virá forte. Marina tentará encarnar a terceira-via. Aécio tem ao seu dispor sua habilidade política. A partir daí o cenário de 2014 começa a ser desenhado.
quarta-feira, agosto 21, 2013
Ataques em Damasco
O ataque com armas químicas em Damasco é condenável sob todos os aspectos. Entretanto o pior deles é não ser possível ler de forma claro de onde saiu. Pode ser uma sabotagem ao regime, como também uma ação do próprio Assad.
Politicamente o fato importante é que o caos na Síria novamente tira o foco sobre o Egito. Os dois países dividem o noticiário devido a massiva perda de vidas em seus conflitos internos. Com a retomada do poder pelos militares no Cairo, houve um deslocamento da atenção internacional para o Egito. Ali existe a tensão com a Irmandade Muçulmana e os militares prevaleceram somente depois de uma banho de sangue. Ao final, o país voltou ao mesmo lugar onde estava antes das manifestações na Praça Tahir durante a Primavera Árabe.
Na Síria o conflito tem um outro pano de fundo e o ditador Assad, que seria a próxima vítima natural da Primavera Árabe, conseguiu se manter no poder, ao contrário do que muitos pensavam - com apoio da Rússia, vale lembrar. Virou o jogo, tomou a frente e no momento vai vencendo a guerra civil que dilacera seu país. Assim, nos perguntamos, porque Assad, que está em clara vantagem no conflito recrudesceria de forma tão radical mediante o uso de armas químicas? Estrategicamente não é inteligente.
Tudo leva a crer que houve sabotagem interna de homens que trabalham para Assad e podem manter laços com os rebeldes. Dentre todas as alternativas esta é a mais plausível, já que o ataque foi um massacre e realizado sob as barbas dos inspetores da ONU em Damasco. Sob diversos aspectos não parece ser um movimento que possa trazer benefícios para Assad. União Européia e Estados Unidos irão reagir. Obama já disse que o uso de armamento químico funciona com um divisor de águas quanto a um envolvimento direto dos americanos no conflito.
Mas quem ganha com isso é o Egito, que sai do foco internacional depois de uma matança indiscriminada coordenada pelos militares que retomaram o poder.
Politicamente o fato importante é que o caos na Síria novamente tira o foco sobre o Egito. Os dois países dividem o noticiário devido a massiva perda de vidas em seus conflitos internos. Com a retomada do poder pelos militares no Cairo, houve um deslocamento da atenção internacional para o Egito. Ali existe a tensão com a Irmandade Muçulmana e os militares prevaleceram somente depois de uma banho de sangue. Ao final, o país voltou ao mesmo lugar onde estava antes das manifestações na Praça Tahir durante a Primavera Árabe.
Na Síria o conflito tem um outro pano de fundo e o ditador Assad, que seria a próxima vítima natural da Primavera Árabe, conseguiu se manter no poder, ao contrário do que muitos pensavam - com apoio da Rússia, vale lembrar. Virou o jogo, tomou a frente e no momento vai vencendo a guerra civil que dilacera seu país. Assim, nos perguntamos, porque Assad, que está em clara vantagem no conflito recrudesceria de forma tão radical mediante o uso de armas químicas? Estrategicamente não é inteligente.
Tudo leva a crer que houve sabotagem interna de homens que trabalham para Assad e podem manter laços com os rebeldes. Dentre todas as alternativas esta é a mais plausível, já que o ataque foi um massacre e realizado sob as barbas dos inspetores da ONU em Damasco. Sob diversos aspectos não parece ser um movimento que possa trazer benefícios para Assad. União Européia e Estados Unidos irão reagir. Obama já disse que o uso de armamento químico funciona com um divisor de águas quanto a um envolvimento direto dos americanos no conflito.
Mas quem ganha com isso é o Egito, que sai do foco internacional depois de uma matança indiscriminada coordenada pelos militares que retomaram o poder.
quinta-feira, agosto 01, 2013
Os Erros de Serra
Serra parece obstinado a concorrer ao Planalto. Na falta do PSDB, onde é fundador e já lhe concedeu legenda para disputar o cargo de Presidente da República, procura o PPS. Diz que se Lula precisou de quatro eleições para vencer, porque não poderia acontecer o mesmo com ele, afinal ele teve dezenas de milhões de votos no último pleito presidencial.
Para começo de conversa Serra erra ao achar que foi seu nome que levou as tais de dezenas de milhões de votos. Não foi. Serra era o candidato da oposição e em seu nome foram depositados os votos dos descontentes com o PT e com Lula. Foi o depositário do voto anti-Lula. Não quer dizer que o eleitor desejasse Serra. O eleitor que votou no PDSB era anti-PT.
Tudo indica que se Serra concorrer pelo PPS terá uma votação pífia, concentrada em seus redutos eleitorais e onde mais angariar apoios pontuais. Corre o risco de ver a campanha de longe. Seu atual partido está fechado com Aécio Neves e colocará toda a estrutura nacional em favor do mineiro. A geografia não ajuda Serra, que possui reduto eleitoral no anti-petismo paulista, sem qualquer penetração em Minas Gerais ou Nordeste - o que resultou em sua derrota em 2010. Aécio tende a atrair inclusive serristas por ser uma opção mais viável e aberta de poder.
Os tucanos e Serra terão pela frente outra parada dura. A eleição não tende a se polarizar como no passado. Tucanos e petistas terão a companhia do novo. Pode ser Marina Silva reforçada pelo discurso politicamente correto e o barulho das ruas ou Joaquim Barbosa, o juiz implacável do Mensalão. Podem ser os dois. Mas certamente aí está um fato novo que mexe com toda a estrutura da eleição.
Por fim, Serra não é Lula. Não possui apelo popular, tampouco uma base sólida, como o PT possui no meio sindical, o que impulsiona a campanha e mobiliza as bases. Serra está sozinho. É um homem de idéias e um bom quadro. Mas a arte da política também ensina quando é a melhor hora de recuar.
Serra pode se tornar um estadista, fortalecendo seu partido e lutando pela implantação da agenda do PSDB na campanha de Aécio e sair da campanha como uma liderança paulista de expressão. Pode também se tornar uma figura menor, pensando sempre na próxima eleição. A decisão está em suas mãos.
segunda-feira, julho 15, 2013
Protestos oficiais
Foi um fiasco. Um dia de greve geral pelo Brasil. Esta foi a idéia da última semana. Este foi o artifício para tentar se apropriar das manifestações que tomaram as ruas do Brasil. O governo "protestava" contra o governo, ou os sindicatos pelegos e a parcela organizada e bem nutrida dos tais movimentos sociais mostravam que poderiam tornar-se porta voz dos indignados.
O episódio, gestado no coração do governo e idealizado por Lula, segundo corre nos bastidores, foi mais uma tentativa frustrada em se posicionar diante das manifestações. O primeiro passo foi a Constituinte exclusiva. Depois veio o Plebiscito. Na outra ponta tentou-se fechar via movimentos sociais. Três tentativas. Três fiascos. O governo parece carecer de estratégia e análise política eficiente.
O governo acredita que o fim das manifestações veio em função de sua agenda e do fato de ter movido o foco para ações diretas, como a iniciativa de reforma política. Nada disso. As manifestações cessaram porque o turismo cívico terminou e gigante algum tinha acordo de seu sono no berço esplêndido. Simples assim. Se tivesse, a simples descoberta de uso recreativo dos jatos oficiais pelos políticos já teria irritado o tal gigante de novo. Não fez nem cócegas.
Se as manifestações serviram para algo, certamente foi para abalar os números de Dilma frente ao governo. As pessoas mostraram que entenderam a volta da inflação. Ponto. E a culpada é Dilma. Ponto. Gostariam de ver Lula de volta. Ponto. Marina empolga e Joaquim Barbosa tomou um incentivo para sonhar com a cadeira da "Presidenta". Ponto.
O curioso foi enxergar a falta de liderança dos petistas com os tais movimentos sociais. Isto não é um bom sinal para o partido. Este movimentos sempre foram a ponta de lança de suas ações "populares" e sempre responderam quando chamadas. Vimos na semana passada que não foi bem assim.
2014 está aí. Dilma deve colocar as barbas de molho ou chorar no colo de cantoras evangélicas, como ocorreu hoje. Sinais de desespero rodam o Planalto.
O episódio, gestado no coração do governo e idealizado por Lula, segundo corre nos bastidores, foi mais uma tentativa frustrada em se posicionar diante das manifestações. O primeiro passo foi a Constituinte exclusiva. Depois veio o Plebiscito. Na outra ponta tentou-se fechar via movimentos sociais. Três tentativas. Três fiascos. O governo parece carecer de estratégia e análise política eficiente.
O governo acredita que o fim das manifestações veio em função de sua agenda e do fato de ter movido o foco para ações diretas, como a iniciativa de reforma política. Nada disso. As manifestações cessaram porque o turismo cívico terminou e gigante algum tinha acordo de seu sono no berço esplêndido. Simples assim. Se tivesse, a simples descoberta de uso recreativo dos jatos oficiais pelos políticos já teria irritado o tal gigante de novo. Não fez nem cócegas.
Se as manifestações serviram para algo, certamente foi para abalar os números de Dilma frente ao governo. As pessoas mostraram que entenderam a volta da inflação. Ponto. E a culpada é Dilma. Ponto. Gostariam de ver Lula de volta. Ponto. Marina empolga e Joaquim Barbosa tomou um incentivo para sonhar com a cadeira da "Presidenta". Ponto.
O curioso foi enxergar a falta de liderança dos petistas com os tais movimentos sociais. Isto não é um bom sinal para o partido. Este movimentos sempre foram a ponta de lança de suas ações "populares" e sempre responderam quando chamadas. Vimos na semana passada que não foi bem assim.
2014 está aí. Dilma deve colocar as barbas de molho ou chorar no colo de cantoras evangélicas, como ocorreu hoje. Sinais de desespero rodam o Planalto.
quarta-feira, julho 10, 2013
O Erro de Lula
Dilma Rousseff chegou ao poder pelas mãos de Lula. Formou seu ministério sob a batuta do chefe, que foi responsável pela escolha de praticamente toda equipe. Deixou-a de mãos atadas e com o equilíbrio político montado. A escolhida apenas deveria tocar adiante o projeto petista.
Lula, entretanto, pecou em um ponto. Deixou a montagem da equipe econômica a cargo da novata. Enquanto construiu de forma cuidadosa uma engenharia meticulosa que acomodaria aliados e forneceria uma confortável base de apoio no Congresso, esqueceu-se do principal: os fundamentos econômicos do novo governo. Concordamos, entretanto, que o segundo governo Lula distanciou-se muito dos preceitos econômicos traçados pela equipe de Antônio Palocci, mas nem em sonhos imaginou-se uma guinada desenvolvimentista aliada a tal descontrole das contas públicas, como enxerga-se hoje com Dilma.
Talvez o ex-Presidente tenha imaginado que Antonio Palocci atuaria como fiador da estabilidade na Casa Civil, com poderes para segurar arroubos intervencionistas no modelo econômico. Se pensou assim, errou. O antigo Ministro da Fazenda de Lula foi o primeiro a ser ejetado do governo Dilma, quando a "Presidenta" passou de fato a dar palpites no rumo do seu governo.
Lula deveria ter feito diferente. Assim como em seu primeiro governo, deveria ter começado a montagem da equipe de Dilma pela área econômica por um motivo muito simples: Dilma não é petista. Dilma, oriunda dos quadros históricos do PDT de Brizola, enxerga a economia sob uma outra ótica, a desenvolvimentista mediante forte intervenção do Estado e descontrole das contas públicas, a exemplo do governo Geisel. O petismo é mais pragmático e está disposto a impor uma agenda de equilíbrio fiscal e fundamentos austeros que sustentem a moeda se este for o preço para a manutenção no poder. Dilma não foi informada desta lógica. Como vemos, esse desacerto deu xabu.
Hoje, o motor dos protestos é a inflação alta, que aliada ao descontrole dos gastos públicos tem jogado o dólar nas alturas e colocado o Real em perigo. Sem reformas estruturais, o Brasil ainda é refém da gestão econômica do governo para promover estabilidade.
Logo, se Dilma quer sair da crise, é simples. Basta fazer como Lula. Deixar a economia nas mãos daqueles que garantem os fundamentos austeros e consistentes do Plano Real. É preciso trocar Mantega, Tombini e Belchior por nomes como Henrique Meireles e outros que fizeram parte da equipe de Palocci. Serviria também um corte drástico no número de ministérios mostrando disciplina nos gastos públicos.
O erro de Lula foi não blindar a economia. Mas se ele sabia como era Dilma, foi uma forma de pavimentar sua volta ao poder como salvador da pátria. A conferir.
Lula, entretanto, pecou em um ponto. Deixou a montagem da equipe econômica a cargo da novata. Enquanto construiu de forma cuidadosa uma engenharia meticulosa que acomodaria aliados e forneceria uma confortável base de apoio no Congresso, esqueceu-se do principal: os fundamentos econômicos do novo governo. Concordamos, entretanto, que o segundo governo Lula distanciou-se muito dos preceitos econômicos traçados pela equipe de Antônio Palocci, mas nem em sonhos imaginou-se uma guinada desenvolvimentista aliada a tal descontrole das contas públicas, como enxerga-se hoje com Dilma.
Talvez o ex-Presidente tenha imaginado que Antonio Palocci atuaria como fiador da estabilidade na Casa Civil, com poderes para segurar arroubos intervencionistas no modelo econômico. Se pensou assim, errou. O antigo Ministro da Fazenda de Lula foi o primeiro a ser ejetado do governo Dilma, quando a "Presidenta" passou de fato a dar palpites no rumo do seu governo.
Lula deveria ter feito diferente. Assim como em seu primeiro governo, deveria ter começado a montagem da equipe de Dilma pela área econômica por um motivo muito simples: Dilma não é petista. Dilma, oriunda dos quadros históricos do PDT de Brizola, enxerga a economia sob uma outra ótica, a desenvolvimentista mediante forte intervenção do Estado e descontrole das contas públicas, a exemplo do governo Geisel. O petismo é mais pragmático e está disposto a impor uma agenda de equilíbrio fiscal e fundamentos austeros que sustentem a moeda se este for o preço para a manutenção no poder. Dilma não foi informada desta lógica. Como vemos, esse desacerto deu xabu.
Hoje, o motor dos protestos é a inflação alta, que aliada ao descontrole dos gastos públicos tem jogado o dólar nas alturas e colocado o Real em perigo. Sem reformas estruturais, o Brasil ainda é refém da gestão econômica do governo para promover estabilidade.
Logo, se Dilma quer sair da crise, é simples. Basta fazer como Lula. Deixar a economia nas mãos daqueles que garantem os fundamentos austeros e consistentes do Plano Real. É preciso trocar Mantega, Tombini e Belchior por nomes como Henrique Meireles e outros que fizeram parte da equipe de Palocci. Serviria também um corte drástico no número de ministérios mostrando disciplina nos gastos públicos.
O erro de Lula foi não blindar a economia. Mas se ele sabia como era Dilma, foi uma forma de pavimentar sua volta ao poder como salvador da pátria. A conferir.
sexta-feira, julho 05, 2013
Crise Portuguesa
Portugal mergulhou em uma perigosa crise política. O ponto central do problema está na coalizão conservadora que dirige o País, uma aliança entre PSD e CDS-PP. Diferenças entre ambos podem levar ao fim prematuro do governo, uma vez que a rompimento do acordo político entre os dois partidos faz cessar a maioria parlamentar. Neste caso, o Presidente Cavaco Silva precisa convocar novas eleições.
A preocupação européia com a situação política portuguesa faz todo sentido. O governo do Primeiro-Ministro Passos Coelho tem implementado um doloroso e necessário ajuste nas contas públicas. Foi eleito para isso depois que o governo socialista foi dissolvido em meio a crise econômica. O desequilíbrio criado pelos socialistas nas contas públicas é profundo, portanto, o ajuste, agora realizado pelos conservadores, é necessário, mas também impopular.
Logo percebemos que se houver a queda do gabinete conservador, é bem provável que os socialistas voltem ao poder. Isto preocupa, pois não está certo qual o seu grau de comprometimento com as reformas e ajustes que o país tem realizado. Se está ruim agora, certamente com os socialistas pode ficar muito pior.
A crise veio pelas mãos de Paulo Portas, dirigente da CDS-PP, que ocupava o cargo de ministro de Relações Exteriores. Reclama por mais espaço no governo de Passos Coelho, do PSD. Não gostou da escolha de Maria Luís Albuquerque para substituir o ministro de Finanças, Vítor Gaspar (também seu desafeto). Mostrou sua indignação apresentando sua carta de demissão. Passos Coelho não aceitou, afinal, se o líder da CDS-PP deixa o governo, constitui-se perda da maioria e a convocação de novas eleições.
Não parece ser razoável que Paulo Portas deixe o governo e entregue a vitória nas próximas eleições de bandeja para os socialistas. Tudo indica que Portas deseja alguma coisa e jogou sua carta mais perigosa. Será que pretendia o cargo de ministro de Finanças para pavimentar seu futuro ou apenas mais espaço político para a CDS-PP dentro do governo? Todas estas são questões que serão respondidas nos próximas dias.
O certo é que Paulo Portas jogou a política portuguesa em uma perigosa encruzilhada.
A preocupação européia com a situação política portuguesa faz todo sentido. O governo do Primeiro-Ministro Passos Coelho tem implementado um doloroso e necessário ajuste nas contas públicas. Foi eleito para isso depois que o governo socialista foi dissolvido em meio a crise econômica. O desequilíbrio criado pelos socialistas nas contas públicas é profundo, portanto, o ajuste, agora realizado pelos conservadores, é necessário, mas também impopular.
Logo percebemos que se houver a queda do gabinete conservador, é bem provável que os socialistas voltem ao poder. Isto preocupa, pois não está certo qual o seu grau de comprometimento com as reformas e ajustes que o país tem realizado. Se está ruim agora, certamente com os socialistas pode ficar muito pior.
A crise veio pelas mãos de Paulo Portas, dirigente da CDS-PP, que ocupava o cargo de ministro de Relações Exteriores. Reclama por mais espaço no governo de Passos Coelho, do PSD. Não gostou da escolha de Maria Luís Albuquerque para substituir o ministro de Finanças, Vítor Gaspar (também seu desafeto). Mostrou sua indignação apresentando sua carta de demissão. Passos Coelho não aceitou, afinal, se o líder da CDS-PP deixa o governo, constitui-se perda da maioria e a convocação de novas eleições.
Não parece ser razoável que Paulo Portas deixe o governo e entregue a vitória nas próximas eleições de bandeja para os socialistas. Tudo indica que Portas deseja alguma coisa e jogou sua carta mais perigosa. Será que pretendia o cargo de ministro de Finanças para pavimentar seu futuro ou apenas mais espaço político para a CDS-PP dentro do governo? Todas estas são questões que serão respondidas nos próximas dias.
O certo é que Paulo Portas jogou a política portuguesa em uma perigosa encruzilhada.
quinta-feira, julho 04, 2013
A Queda de Morsi
Introduzir traços democráticos no mundo islâmico não é uma tarefa fácil. O Egito acaba de mais uma vez dar uma prova cabal disto. A queda de Mohammad Morsi evidencia as fraquezas do sistema político e democrático no mundo árabe, mostra o poder forte dos militares e abre uma gama de questões interessantes que devem ser debatidas, como o destino das revoltas que se espalharam pela região, bem como a viabilidade de governos democráticos nestes países.
A Primavera Árabe, que derrubou governos na Tunísia, Egito, Líbia, Yemen e ainda gera agitação na Síria, não foi um movimento que tinha por objetivo os valores democráticos. Todas foram revoltas internas com o intuito de substituir o grupo que governava o país. Líbia e Tunísia seguiram este roteiro. No Egito, entretanto, tudo mudou, sem mudar. Houve eleições, Morsi foi eleito, mas dependeu da aprovação dos militares para ser chancelado como Presidente. Assumiu, mas sem total controle da administração. De um lado, os militares estavam preocupados com o que poderia se tornar um governo da Irmandade Muçulmana. Do outro, a Irmandade, guiada por Morsi, não tinha liberdade para implementar sua agenda. Sem tradição política, o paradoxo tornou-se um impasse institucional.
A situação egípcia encontra um similar mais concreto com a Turquia em diversas vertentes, do que com a Tunísia ou Líbia, afetadas pela revoada de manifestações de 2011. Tanto no Egito quanto na Turquia existe uma força militar forte e de vertente secular, o que impede mandatários de construírem governos de cunho muçulmano. Enquanto Nasser criou esta realidade no Egito, Atatürk fez o mesmo na Turquia. Entretanto, a tradição constitucional-democrática da Turquia tem dado mais espaço para Erdogan introduzir o islamismo nas instituições aos poucos, de forma mais calculada. Como o Egito praticamente carece de instituições constitucionais democráticas, o espaço de manobra é menor.
Com a queda de Morsi, percebemos que os militares, de alguma forma, retornam para um lugar de onde nunca saíram, pois mesmo com a chegada da Irmandade Muçulmana, ainda permeavam as instituições egípcias. A substituição de Mubarak se deu da mesma forma. Não há dúvida que continuará assim. Aquele que governar o Egito, o fará sob os olhos atentos dos militares, de preferência em conjunto com eles.
Não é democracia, mas impede que o islamismo de alastre de forma perigosa nas entranhas do Estado.
A Primavera Árabe, que derrubou governos na Tunísia, Egito, Líbia, Yemen e ainda gera agitação na Síria, não foi um movimento que tinha por objetivo os valores democráticos. Todas foram revoltas internas com o intuito de substituir o grupo que governava o país. Líbia e Tunísia seguiram este roteiro. No Egito, entretanto, tudo mudou, sem mudar. Houve eleições, Morsi foi eleito, mas dependeu da aprovação dos militares para ser chancelado como Presidente. Assumiu, mas sem total controle da administração. De um lado, os militares estavam preocupados com o que poderia se tornar um governo da Irmandade Muçulmana. Do outro, a Irmandade, guiada por Morsi, não tinha liberdade para implementar sua agenda. Sem tradição política, o paradoxo tornou-se um impasse institucional.
A situação egípcia encontra um similar mais concreto com a Turquia em diversas vertentes, do que com a Tunísia ou Líbia, afetadas pela revoada de manifestações de 2011. Tanto no Egito quanto na Turquia existe uma força militar forte e de vertente secular, o que impede mandatários de construírem governos de cunho muçulmano. Enquanto Nasser criou esta realidade no Egito, Atatürk fez o mesmo na Turquia. Entretanto, a tradição constitucional-democrática da Turquia tem dado mais espaço para Erdogan introduzir o islamismo nas instituições aos poucos, de forma mais calculada. Como o Egito praticamente carece de instituições constitucionais democráticas, o espaço de manobra é menor.
Com a queda de Morsi, percebemos que os militares, de alguma forma, retornam para um lugar de onde nunca saíram, pois mesmo com a chegada da Irmandade Muçulmana, ainda permeavam as instituições egípcias. A substituição de Mubarak se deu da mesma forma. Não há dúvida que continuará assim. Aquele que governar o Egito, o fará sob os olhos atentos dos militares, de preferência em conjunto com eles.
Não é democracia, mas impede que o islamismo de alastre de forma perigosa nas entranhas do Estado.
quarta-feira, julho 03, 2013
Risco Dilma
Lula está no páreo. Para os investidores isto não é uma má notícia, tampouco para o Brasil. Isto porque a má notícia se chama Dilma Rousseff. Dos males, o menor. A "Presidenta" e sua política econômica tem gerado danos para o Brasil a cada dia que passa. A escalada da inflação, do dólar alto, da queda nas bolsas e sua política nacionalista e desenvolvimentista, com as contas públicas em desequilíbrio, estão tornando o país um lugar muito pouco atrativo. Na medida que Dilma aprofunda seu modelo econômico e os juros sobem no exterior, o Brasil se torna um investimento cada vez menos interessante.
O horizonte não traz boas notícias. Na corrida presidencial desenhada até aqui, vemos Dilma e Marina Silva dividindo a liderança. Aécio e Eduardo Campos ficaram, neste momento, para trás. Se a política de Dilma é conhecida, a de Marina tende a ser de arrepiar a espinha. Marina, uma mistura de "ex-petista", ambientalista, interventora e com forte viés religioso, é a personificação do medo para os mercados e para a estabilidade do País. Com Marina ou Dilma, o Brasil sai perdendo.
Diante deste fato é que a candidatura Lula sopra como um fio de esperança para os mercados. Existe a esperança que Lula descole a política econômica das mazelas e maracutais do mundo político real, como fez quando trouxe técnicos para a equipe de Palocci na Fazenda e Henrique Meirelles para o Banco Central. Se Lula fizer novamente um pacto de estabilidade econômica e monetária, como em 2002, o empenho de empresários e investidores em sua vitória pode ser maior do que imaginamos - especialmente se a briga for diretamente com Marina. Afinal, entre Marina e Lula, o ex-Presidente já se mostrou ser um político mais confiável na condução da economia.
Se Lula se descolar de Dilma sua chances de sucesso são grandes. A "Presidenta" já descolada dele tomou as piores decisões que se espera de um chefe de governo diante das manifestações. Os protestos são oriundos da má situação econômica e fiscal do País. Nada pior para afugentar investidores, aumentar o risco Brasil e fazer o dólar disparar do que tomar medidas de cunho político que flertam com o populismo, como reformas políticas, plebiscitos e reformas de ordem constitucional. Dilma está armando uma bomba de insegurança que talvez somente possa ser desarmada por outro Presidente.
Imaginem só. Seremos talvez um país que tenha que optar pelo mal menor. Lula, na impossibilidade de Aécio decolar, talvez seja a solução para colocar a casa em ordem. Caso contrário, depois do Risco Dilma, poderá vir o Risco Marina. O Risco Lula, entre eles, é menos danoso. Triste, mas verdade.
O horizonte não traz boas notícias. Na corrida presidencial desenhada até aqui, vemos Dilma e Marina Silva dividindo a liderança. Aécio e Eduardo Campos ficaram, neste momento, para trás. Se a política de Dilma é conhecida, a de Marina tende a ser de arrepiar a espinha. Marina, uma mistura de "ex-petista", ambientalista, interventora e com forte viés religioso, é a personificação do medo para os mercados e para a estabilidade do País. Com Marina ou Dilma, o Brasil sai perdendo.
Diante deste fato é que a candidatura Lula sopra como um fio de esperança para os mercados. Existe a esperança que Lula descole a política econômica das mazelas e maracutais do mundo político real, como fez quando trouxe técnicos para a equipe de Palocci na Fazenda e Henrique Meirelles para o Banco Central. Se Lula fizer novamente um pacto de estabilidade econômica e monetária, como em 2002, o empenho de empresários e investidores em sua vitória pode ser maior do que imaginamos - especialmente se a briga for diretamente com Marina. Afinal, entre Marina e Lula, o ex-Presidente já se mostrou ser um político mais confiável na condução da economia.
Se Lula se descolar de Dilma sua chances de sucesso são grandes. A "Presidenta" já descolada dele tomou as piores decisões que se espera de um chefe de governo diante das manifestações. Os protestos são oriundos da má situação econômica e fiscal do País. Nada pior para afugentar investidores, aumentar o risco Brasil e fazer o dólar disparar do que tomar medidas de cunho político que flertam com o populismo, como reformas políticas, plebiscitos e reformas de ordem constitucional. Dilma está armando uma bomba de insegurança que talvez somente possa ser desarmada por outro Presidente.
Imaginem só. Seremos talvez um país que tenha que optar pelo mal menor. Lula, na impossibilidade de Aécio decolar, talvez seja a solução para colocar a casa em ordem. Caso contrário, depois do Risco Dilma, poderá vir o Risco Marina. O Risco Lula, entre eles, é menos danoso. Triste, mas verdade.
segunda-feira, julho 01, 2013
O Fim da Copa
E o Brasil venceu a Copa das Confederações. Apesar dos resultados do futebol pouco influenciarem a política na história recente, esta Copa possui uma conotação especial. Os gastos com o torneio foram talvez um dos grandes impulsionadores dos protestos que tomaram as ruas do Brasil. Por várias capitais enxergou-se cartazes que pediam hospitais e escolas padrão FIFA. Mas enquanto alguns protestavam, outros lotaram os estádios e com uma média de público de 50.000 pessoas, o Brasil sagrou-se campeão da competição.
Dilma preferiu não correr riscos e não compareceu a final. Fugiu da vaia enquanto em Brasília se reunia com ministros buscando alternativas para o fim da crise. Houve protestos pelo Rio de Janeiro devidamente contidos pelo enorme contingente de segurança ao redor do estádio.
Mas não podemos negar que os protestos diminuíram de intensidade. Se o Brasil perdesse a final, isto de alguma forma poderia incentivar uma sensação de indignação com o que foi gasto nos estádios. Digo isso porque com a vitória, muitas críticas parecem adormecidas e o tal gigante, além de falta de memória, parece meio sonolento novamente. Existe a sensação que o título anestesiou as insatisfações. Se isto permanecerá, veremos, mas por enquanto, tudo parece ter voltado ao habitual.
Havia o planejamento de uma grande greve na segunda-feira, que misteriosamente arrefeceu. Os grandes protestos também. Ainda vimos algumas manifestações isolados por temas específicos, mas nada que movesse um grande contingente de pessoas como foi visto na Presidente Vargas no Rio de Janeiro ou na Avenida Paulista, em São Paulo.
Mas a inflação está aí. O dólar continua subindo e a bolsa caindo. O governo parece anestesiado esperando chegar o sono profundo do gigante deitado eternamente em berço esplêndido.
Se tudo voltar ao seu curso, teremos a certeza que estávamos diante de um contingente de jovens em dia de turismo cívico, como disse Guilherme Fiúza, ou pior, saberemos que era tudo mesmo por causa de 0,20 centavos.
Dilma preferiu não correr riscos e não compareceu a final. Fugiu da vaia enquanto em Brasília se reunia com ministros buscando alternativas para o fim da crise. Houve protestos pelo Rio de Janeiro devidamente contidos pelo enorme contingente de segurança ao redor do estádio.
Mas não podemos negar que os protestos diminuíram de intensidade. Se o Brasil perdesse a final, isto de alguma forma poderia incentivar uma sensação de indignação com o que foi gasto nos estádios. Digo isso porque com a vitória, muitas críticas parecem adormecidas e o tal gigante, além de falta de memória, parece meio sonolento novamente. Existe a sensação que o título anestesiou as insatisfações. Se isto permanecerá, veremos, mas por enquanto, tudo parece ter voltado ao habitual.
Havia o planejamento de uma grande greve na segunda-feira, que misteriosamente arrefeceu. Os grandes protestos também. Ainda vimos algumas manifestações isolados por temas específicos, mas nada que movesse um grande contingente de pessoas como foi visto na Presidente Vargas no Rio de Janeiro ou na Avenida Paulista, em São Paulo.
Mas a inflação está aí. O dólar continua subindo e a bolsa caindo. O governo parece anestesiado esperando chegar o sono profundo do gigante deitado eternamente em berço esplêndido.
Se tudo voltar ao seu curso, teremos a certeza que estávamos diante de um contingente de jovens em dia de turismo cívico, como disse Guilherme Fiúza, ou pior, saberemos que era tudo mesmo por causa de 0,20 centavos.
quarta-feira, junho 26, 2013
Governo Errático
As medidas anunciadas por Dilma de surpresa antes da reunião com os governadores e prefeitos tinha dois objetivos. O primeiro era criar um fato novo que capturasse a agenda nacional. Conseguiu. No Twitter vemos que já existem mais menções sobre reforma política ou constituinte do que protestos. Os jornais engoliram a isca e a nova pauta, ao mesmo tempo que a intensidade dos protestos diminuiu. O segundo era dar uma resposta real aos protestos. Neste quesito falhou.
O barulho das ruas ecoou em Brasília e todos tentaram faturar mostrando-se sensíveis ao pleitos dos protestos. A Câmara rejeitou a PEC 37 e aprovou proposta que ajuda reduzir tarifa do transporte coletivo. A CCJ aprovou o fim do voto secreto para cassação de mandato. No Senado, Renan Calheiros tornou-se um portal de canalização dos pedidos das ruas. Criou uma pauta para os próximos 15 dias inteiramente dedicada aos pleitos dos protestos. Crime de corrupção tornou-se hediondo e projeto para passe livre aos estudantes com a utilização dos royalties do petróleo está na pauta. Renan ainda sugeriu diminuir o número de ministérios. O Presidente do Senado sabia que sua cabeça pode virar bandeira nas manifestações. Decidiu se proteger. No Judiciário veio a decisão de prisão de um deputado federal. Algo pleiteado há tempos. Pode não ter relação com os protestos, mas a sintonia foi perfeita.
O único poder que pareceu errático até o momento foi o Executivo. Consegui seu fato novo, mas não sabe-se até onde dura e mostrou-se despreparado para levar seu projeto adiante. Propôs constituinte. Depois desistiu. Agora é só plebiscito. Não haverá espanto se desistir do plebiscito também, até porque é uma medida intempestiva, considerando-se eleições presidenciais no próximo ano.
O problema de Dilma é que os efeitos nocivos de suas medidas que já afetavam a economia se tornaram ainda mais danosos com as manifestações. O dólar disparou e o Banco Central não dá sinais de controle da cotação. As bolsas despencam capitaneadas pelo desmonte do império de Eike Batista, que flerta com a lona. A inflação não dá trégua. Por tudo isso, Lula deu uma dica valiosa para Dilma: demitir Guido Mantega e indicar Henrique Meireles para o comando da Fazenda com carta branca. Ela resiste. Enquanto isso, a economia derrete.
Lula tem um bom faro político. Sabe que ainda é possível vencer as eleições do próximo ano, entretanto, isso só é viável com a economia nos eixos. A política desenvolvimentista inflacionária de Dilma pode custar o governo. Dilma pode aprontar as estripulias que desejar com medidas de contenção erráticas nesta crise, entretanto, Lula mira mais longe, na sua própria volta em 2014. Para isso precisa de inflação baixa. Para isso precisa trocar o comando da economia. Para ontem.
O barulho das ruas ecoou em Brasília e todos tentaram faturar mostrando-se sensíveis ao pleitos dos protestos. A Câmara rejeitou a PEC 37 e aprovou proposta que ajuda reduzir tarifa do transporte coletivo. A CCJ aprovou o fim do voto secreto para cassação de mandato. No Senado, Renan Calheiros tornou-se um portal de canalização dos pedidos das ruas. Criou uma pauta para os próximos 15 dias inteiramente dedicada aos pleitos dos protestos. Crime de corrupção tornou-se hediondo e projeto para passe livre aos estudantes com a utilização dos royalties do petróleo está na pauta. Renan ainda sugeriu diminuir o número de ministérios. O Presidente do Senado sabia que sua cabeça pode virar bandeira nas manifestações. Decidiu se proteger. No Judiciário veio a decisão de prisão de um deputado federal. Algo pleiteado há tempos. Pode não ter relação com os protestos, mas a sintonia foi perfeita.
O único poder que pareceu errático até o momento foi o Executivo. Consegui seu fato novo, mas não sabe-se até onde dura e mostrou-se despreparado para levar seu projeto adiante. Propôs constituinte. Depois desistiu. Agora é só plebiscito. Não haverá espanto se desistir do plebiscito também, até porque é uma medida intempestiva, considerando-se eleições presidenciais no próximo ano.
O problema de Dilma é que os efeitos nocivos de suas medidas que já afetavam a economia se tornaram ainda mais danosos com as manifestações. O dólar disparou e o Banco Central não dá sinais de controle da cotação. As bolsas despencam capitaneadas pelo desmonte do império de Eike Batista, que flerta com a lona. A inflação não dá trégua. Por tudo isso, Lula deu uma dica valiosa para Dilma: demitir Guido Mantega e indicar Henrique Meireles para o comando da Fazenda com carta branca. Ela resiste. Enquanto isso, a economia derrete.
Lula tem um bom faro político. Sabe que ainda é possível vencer as eleições do próximo ano, entretanto, isso só é viável com a economia nos eixos. A política desenvolvimentista inflacionária de Dilma pode custar o governo. Dilma pode aprontar as estripulias que desejar com medidas de contenção erráticas nesta crise, entretanto, Lula mira mais longe, na sua própria volta em 2014. Para isso precisa de inflação baixa. Para isso precisa trocar o comando da economia. Para ontem.
terça-feira, junho 25, 2013
Cegueira Republicana
Sob todos os aspectos a proposta de reforma política mediante uma constituinte exclusiva e plebiscito proposta por Dilma é um equívoco. Primeiramente é um equívoco jurídico, o que impede a proposta de ir adiante. Foi um equívoco político, pois não foi articulado com a base no Congresso Nacional. Foi um equívoco institucional, pois a proposta soa como um golpe branco.
Dilma tentou, na verdade, com um movimento resolver vários problemas. A proposta tenta jogar a crise nas mãos do Congresso, responsável pelos próximos passos. Além disso, levanta uma cortina de fumaça política, pois agora a pauta política e jurídica tornou-se a reforma política e por fim, usando a insatisfação das ruas com outros assuntos, tenta seqüestrar a agenda dos manifestantes mediante a convocação de uma constituinte exclusiva com nuances populistas de uma estratégia que soa chavista.
Nos meios jurídicos houve um misto de cautela e rejeição e o único ministro do Supremo que achou a idéia interessante foi Ricardo Lewandowski, o que já diz muito. Os outros descartam a possibilidade institucional de uma constituinte parcial. As críticas mais contundentes vieram de Marco Aurélio Mello e Luís Roberto Barroso.
Enquanto o ex-Presidente Fernando Henrique classificou a proposta como autoritária, no meio político ela foi defendida por Renan Calheiros. No Congresso Nacional já existe uma proposta de reforma política, vale lembrar. O governo tem maioria folgada para passar uma reforma deste naipe no Congresso sem precisar convocar constituinte ou plebiscito. Aliás, o projeto que está em tramitação, corre sob a relatoria do deputado Henrique Fontana, do próprio PT. Convocar uma constituinte exclusiva, portanto, não deixa de ser uma cortina de fumaça, além de ser juridicamente impossível.
A proposta de Dilma surgiu apenas para dissuadir e mostrar que o governo está agindo. O que Dilma ainda não entendeu é que manifestantes querem mudanças reais, não movimentos políticos em Brasília que apenas embalam discussões de especialistas e fazem manchetes de jornais. As medidas para evitar a escalada das manifestações são mais simples e fáceis. Dilma, que nunca levou jeito para política, mostrou que não entendeu realmente a mensagem das ruas, o que não deixa de ser muito perigoso.
Dilma tentou, na verdade, com um movimento resolver vários problemas. A proposta tenta jogar a crise nas mãos do Congresso, responsável pelos próximos passos. Além disso, levanta uma cortina de fumaça política, pois agora a pauta política e jurídica tornou-se a reforma política e por fim, usando a insatisfação das ruas com outros assuntos, tenta seqüestrar a agenda dos manifestantes mediante a convocação de uma constituinte exclusiva com nuances populistas de uma estratégia que soa chavista.
Nos meios jurídicos houve um misto de cautela e rejeição e o único ministro do Supremo que achou a idéia interessante foi Ricardo Lewandowski, o que já diz muito. Os outros descartam a possibilidade institucional de uma constituinte parcial. As críticas mais contundentes vieram de Marco Aurélio Mello e Luís Roberto Barroso.
Enquanto o ex-Presidente Fernando Henrique classificou a proposta como autoritária, no meio político ela foi defendida por Renan Calheiros. No Congresso Nacional já existe uma proposta de reforma política, vale lembrar. O governo tem maioria folgada para passar uma reforma deste naipe no Congresso sem precisar convocar constituinte ou plebiscito. Aliás, o projeto que está em tramitação, corre sob a relatoria do deputado Henrique Fontana, do próprio PT. Convocar uma constituinte exclusiva, portanto, não deixa de ser uma cortina de fumaça, além de ser juridicamente impossível.
A proposta de Dilma surgiu apenas para dissuadir e mostrar que o governo está agindo. O que Dilma ainda não entendeu é que manifestantes querem mudanças reais, não movimentos políticos em Brasília que apenas embalam discussões de especialistas e fazem manchetes de jornais. As medidas para evitar a escalada das manifestações são mais simples e fáceis. Dilma, que nunca levou jeito para política, mostrou que não entendeu realmente a mensagem das ruas, o que não deixa de ser muito perigoso.
segunda-feira, junho 24, 2013
Pior para Dirceu
Se existe alguém que deverá ser atingido indiretamente pelas manifestações é José Dirceu e os demais condenados do Mensalão. Existia até a semana passada a esperança de que os novos ministros do Supremo, Teori Zavascki e Luís Roberto Barroso pudessem reverter ou abrandar condenações, o que livraria Dirceu e alguns mensaleiros do cárcere. Depois das manifestações da última semana, dificilmente a história tomará este curso.
O julgamento do Mensalão constitui-se em uma das mais importantes ações contra a corrupção na história do Brasil. Reverter as condenações em grau de recurso, alterando os votos de ministros já aposentados, poderia ferir a integridade do STF e macular sua imagem perante a opinião pública. Mais do que que isso, uma decisão neste sentido reacenderia a dinâmica dos protestos e colocaria um tema na mira dos manifestantes: a absolvição dos mensaleiros pelo Supremo. Caso o STF reverta o resultado do julgamento, entregará de bandeja aos manifestantes uma bandeira clara para lutar.
Existe esperança no horizonte dos mensaleiros porque ninguém sabe o que se passa na cabeça de Teori Zavascki e seu histórico leva a acreditar que poderia haver tendência em abrandar as penas ou condenações. Já Barroso, apesar de ser um respeitado nome do meio jurídico, atuou em defesa de Cesare Battisti, o terrorista italiano abrigado pelo PT, asilado por Lula. Na bolsa de apostas da política, muitos tendem a acreditar que Barroso poderia aliviar a situação dos petistas.
Se este era o plano, é bom colocar as barbas de molho. Os novos ministros do Supremo não devem arriscar sua reputação e virar alvo dos protestos das ruas. Uma decisão neste sentido, na história (por enquanto) de ficção imaginada por Elio Gaspari, poderia gerar a fúria de Joaquim Barbosa, que tiraria a toga, renunciaria ao cargo (na mesma sessão do STF que absolveria os mensaleiros), faria um discurso e pegaria um táxi para casa. Ali nasceria um candidato imbatível nas eleições presidenciais.
Para o PT seria inteligente não lutar pela absolvição de Dirceu, João Paulo Cunha e José Genoínio. Politicamente seria mais interessante entregar os anéis e manter os dedos. Assim o PT mostraria que depurou internamente seus fantasmas e viraria a página. É algo a se pensar.
Mas se isso realmente acontecer, podem esperar, como disse meu amigo, o cientista político Paulo Kramer, por prisões espetaculares dos mensaleiros, com transmissão pela TV e dirigida de modo cinematográfico pela Polícia Federal, que faturaria muitos pontos com a opinião pública durante o show.
O fato é: o movimento das ruas dificultou a vida dos mensaleiros. Pior para Dirceu, mas também para João Paulo, Marcos Valério, José Genoíno e todos os demais condenados.
sábado, junho 22, 2013
Joaquim e Marina
Começaram a surgir as primeiras pesquisas que indicam alguns pontos importantes sobre os manifestantes que tomaram as cidades brasileiras nas últimas semanas. Os resultados são uma espécie de quebra-cabeça que nós, cientistas políticos, montamos com o máximo cuidado no intuito de desenhar os cenários futuros.
O ponto principal é o indício de declínio da popularidade de Dilma. Ainda é cedo para dizer que sua reeleição está comprometida, entretanto, podemos dizer com certeza que está seriamente ameaçada. O PT já considera alternativas, como o retorno de Lula - que se ocorrer, será apresentado com muito cuidado.
Mas o que as pesquisas sugerem, na esteira da indignação geral é o nome de Joaquim Barbosa, o Ministro do Supremo, relator do caso do Mensalão e que defendeu penas duríssimas para os acusados. Joaquim, que surge com a preferência de 30% dos manifestantes, personifica os ideais de probidade e justiça defendidos nos protestos. Ninguém conhece suas posições políticas com clareza ou sua idéia de País, mas todos conhecem sua probidade, origem humilde e ascensão meritocrática. Eis o mais importante para o povo neste momento. Joaquim é o nome que canaliza a solução para a indignação geral que tomou conta do povo brasileiro. Seus eventuais projetos de país neste momento pouco importam. Ele buscou fazer justiça encarcerando políticos que desviaram recursos públicos. É isto que importa para o povo.
Outro nome que surge com muita força entre os manifestantes é o de Marina Silva. Aparece com 22%. Por ser política de carreira e já ter disputado uma eleição presidencial, merece ser encarada com seriedade. Monta, no momento, um partido sem o nome "partido", mas "rede" e mira claramente nas eleições presidenciais de 2014. Sua imagem também carrega um ideal de probidade e seriedade, aliada as causas ambientais e sociais. Sua fragilidade é o conservadorismo exacerbado, travestido de modernidade. Mas dentro do quadro político, é quem mais se beneficia do quadro como se mostra hoje.
Dilma aparece com 10%, Aécio com 5% e Eduardo Campos com 1%. É um claro recado de repulsa aos políticos e estruturas partidárias conhecidas. Os manifestantes preferem algo afastado da política tradicional. A pesquisa não levou em conta o nome de Lula.
O mais perigoso é o vetor de rejeição a política tradicional. Situações como essa, se consolidadas, tendem a gerar aventureiros sem compromisso com programas sérios para o País e com tendências autoritárias. As pesquisas mostram que o eleitor manifestante está disposto a tentar o novo e o desconhecido. No balanço geral, por circular entre as duas esferas, Marina se fortalece, mas um nome novo, como Joaquim Barbosa, se decidir entrar no páreo, dentro do quadro atual, pode fazer toda a diferença.
O ponto principal é o indício de declínio da popularidade de Dilma. Ainda é cedo para dizer que sua reeleição está comprometida, entretanto, podemos dizer com certeza que está seriamente ameaçada. O PT já considera alternativas, como o retorno de Lula - que se ocorrer, será apresentado com muito cuidado.
Mas o que as pesquisas sugerem, na esteira da indignação geral é o nome de Joaquim Barbosa, o Ministro do Supremo, relator do caso do Mensalão e que defendeu penas duríssimas para os acusados. Joaquim, que surge com a preferência de 30% dos manifestantes, personifica os ideais de probidade e justiça defendidos nos protestos. Ninguém conhece suas posições políticas com clareza ou sua idéia de País, mas todos conhecem sua probidade, origem humilde e ascensão meritocrática. Eis o mais importante para o povo neste momento. Joaquim é o nome que canaliza a solução para a indignação geral que tomou conta do povo brasileiro. Seus eventuais projetos de país neste momento pouco importam. Ele buscou fazer justiça encarcerando políticos que desviaram recursos públicos. É isto que importa para o povo.
Outro nome que surge com muita força entre os manifestantes é o de Marina Silva. Aparece com 22%. Por ser política de carreira e já ter disputado uma eleição presidencial, merece ser encarada com seriedade. Monta, no momento, um partido sem o nome "partido", mas "rede" e mira claramente nas eleições presidenciais de 2014. Sua imagem também carrega um ideal de probidade e seriedade, aliada as causas ambientais e sociais. Sua fragilidade é o conservadorismo exacerbado, travestido de modernidade. Mas dentro do quadro político, é quem mais se beneficia do quadro como se mostra hoje.
Dilma aparece com 10%, Aécio com 5% e Eduardo Campos com 1%. É um claro recado de repulsa aos políticos e estruturas partidárias conhecidas. Os manifestantes preferem algo afastado da política tradicional. A pesquisa não levou em conta o nome de Lula.
O mais perigoso é o vetor de rejeição a política tradicional. Situações como essa, se consolidadas, tendem a gerar aventureiros sem compromisso com programas sérios para o País e com tendências autoritárias. As pesquisas mostram que o eleitor manifestante está disposto a tentar o novo e o desconhecido. No balanço geral, por circular entre as duas esferas, Marina se fortalece, mas um nome novo, como Joaquim Barbosa, se decidir entrar no páreo, dentro do quadro atual, pode fazer toda a diferença.
quinta-feira, junho 20, 2013
Protestos e Inflação
O ponto inicial, que foi o motor das insatisfações que motivaram os protestos pelo Brasil afora, tem nome e responde por inflação. O reajuste das passagens, a falta de poder de compra, o custo de vida que sobe e o dólar que dispara. Todos esses fatores são desdobramentos de uma política econômica que teve aprofundamento no governo Dilma.
É a economia, estúpido, dizia James Carville em 1992, quando levou Clinton à Casa Branca. No Brasil o caso é a economia. Depois de viver 16 anos dentro de uma certa estabilidade que, vale lembrar, era apenas o primeiro passo de um grande leque de reformas que ainda faltam ao País, o brasileiro passou a viver novamente com o reajuste de preços e a falta de poder de consumo.
O monstro é maior, porque aliado a inflação, que corrói o poder de compra, vivemos em um país onde muitos brasileiros vivem em prestações, endividados além de sua capacidade, o que pode tornar o que está por vir ainda mais perigoso.
O desajuste na economia veio pelas mãos de Dilma, isto é inegável. Mas ao contrário do que muitos pensam, não vem do PT. Dilma, como sempre lembro, é uma cristã-nova no PT. Ela é oriunda do PDT e das políticas nacionalistas e intervencionistas de Leonel Brizola. O pedetismo de Dilma não se descolou de seu DNA. O resultado tem sido este brutal desajuste na economia brasileira que lembra o período desenvolvimentista dos anos de Geisel frente à Presidência.
O PT em sua essência é menos danoso para a economia, pois busca tão somente acúmulo de poder. Por mais que em suas veias corram idéias sindicalistas e socialistas, o comando central do partido está disposto a abrir mão disto se houver sua manutenção no poder. Lula, em seus primeiros anos, aplicou uma política econômica mais austera que a de Fernando Henrique. No segundo mandato relaxou um pouco, mas o barco começou a fazer água quando Dilma assumiu os manetes da economia e aplicou as idéias trabalhistas.
Quem já sentiu a escalada de preços foi a classe média, que orienta os protestos Brasil afora. Em breve a inadimplência da classe C começará a aparecer e logo depois vem o poder de compra da classes D e E.
Existe conserto nesta altura? Sim, existe. Mas Dilma precisaria trair suas convicções, algo que certamente ela não está disposta a fazer.
quarta-feira, junho 19, 2013
O Salvador da Pátria
Dilma foi ao encontro de Lula e Haddad para resolver o problema. O Prefeito de São Paulo, que não entendeu a magnitude dos protestos, resistiu a idéia de revogar o aumento da tarifa de transporte público. Foi convencido por Lula de que era necessário. Dilma assistiu.
Um dia depois Lula já estava reunido com as centrais sindicais organizando sua estratégia. Todas estavam lá escutando o que ele tinha a dizer.
Tudo indica que as manifestações criaram o ambiente político tão esperado por Lula para que ele assuma cada vez mais o papel de candidato. Não é novidade que o ex-Presidente deseja voltar ao Planalto. Percorre o país já em campanha, apesar de dizer que apóia a reeleição de Dilma. Em Brasília, a volta de Lula é vista com bons olhos. Os políticos gostam mais do estilo dele na condução da acomodação de espaços. Com Lula a base aliada libera verbas e recebe afagos. Dilma é dura e raivosa.
O principal desdobramento, na esfera política, das manifestações, por enquanto, foi enfraquecer Dilma, que já enxerga sua popularidade derreter. Um ambiente que chancela a entrada de Lula em cena para garantir a manutenção do partido e seus aliados no poder. Se com uma Dilma forte Lula já se articulava nos bastidores para voltar, com uma Dilma fraca, o PT pedirá para o ex-Presidente concorrer. Dilma deve estar com as barbas de molho.
Neste cenário, Lula garante a manutenção do atual grupo no poder, afasta a crise com a certeza de que Dilma sai de cena aos poucos, acalma as forças políticas com seu retorno, restabelece confiança para investidores com a volta da política econômica de seu governo e sabe que o resultado das urnas estará ao seu lado, afinal, a indignação não chegou no grosso de seu eleitorado. O movimento ainda está restrito, em seu bojo, na classe média das grandes cidades - um eleitorado que já não vota em Lula há tempos.
Haddad e Dilma não são políticos. Foram forjados por Lula. Ambos vacilam exatamente na condução política de suas funções e ela ainda apostou em um modelo desenvolvimentista inflacionário para a economia. Exatamente por essas questões, especialmente Dilma, abre um vácuo de poder por onde Lula pode passar. E voltar como salvador da pátria. A conferir.
Um dia depois Lula já estava reunido com as centrais sindicais organizando sua estratégia. Todas estavam lá escutando o que ele tinha a dizer.
Tudo indica que as manifestações criaram o ambiente político tão esperado por Lula para que ele assuma cada vez mais o papel de candidato. Não é novidade que o ex-Presidente deseja voltar ao Planalto. Percorre o país já em campanha, apesar de dizer que apóia a reeleição de Dilma. Em Brasília, a volta de Lula é vista com bons olhos. Os políticos gostam mais do estilo dele na condução da acomodação de espaços. Com Lula a base aliada libera verbas e recebe afagos. Dilma é dura e raivosa.
O principal desdobramento, na esfera política, das manifestações, por enquanto, foi enfraquecer Dilma, que já enxerga sua popularidade derreter. Um ambiente que chancela a entrada de Lula em cena para garantir a manutenção do partido e seus aliados no poder. Se com uma Dilma forte Lula já se articulava nos bastidores para voltar, com uma Dilma fraca, o PT pedirá para o ex-Presidente concorrer. Dilma deve estar com as barbas de molho.
Neste cenário, Lula garante a manutenção do atual grupo no poder, afasta a crise com a certeza de que Dilma sai de cena aos poucos, acalma as forças políticas com seu retorno, restabelece confiança para investidores com a volta da política econômica de seu governo e sabe que o resultado das urnas estará ao seu lado, afinal, a indignação não chegou no grosso de seu eleitorado. O movimento ainda está restrito, em seu bojo, na classe média das grandes cidades - um eleitorado que já não vota em Lula há tempos.
Haddad e Dilma não são políticos. Foram forjados por Lula. Ambos vacilam exatamente na condução política de suas funções e ela ainda apostou em um modelo desenvolvimentista inflacionário para a economia. Exatamente por essas questões, especialmente Dilma, abre um vácuo de poder por onde Lula pode passar. E voltar como salvador da pátria. A conferir.
terça-feira, junho 18, 2013
A Vitória de Rohani no Irã
A vitória de Hassan Rohani no Irã é exatamente isso que parece. Um movimento claro de afastamento da população de uma visão mais radical de governo. Apesar de ser um centrista, sabemos que o vencedor, aos olhos de qualquer governo ocidental, é o conservador, mas na dinâmica política iraniana, é um centrista.
A estratégia política por trás de Rohani funcionou. O ponto central foi a desistência de Reza Aref, o candidato moderado que dividiria os votos centristas e poderia deixar ambos fora de um segundo turno. Com o acordo entre Aref e Rohani, abriu-se a possibilidade de os moderados e centristas despejarem seus votos em somente um candidato. A vitória foi avassaladora.
Do outro lado, o voto conservador se dividiu e não foi possível concentrar os esforços somente em um candidato. Ao contrário dos moderados, viu-se uma desorganização e uma certeza de vitória que iludiu aqueles que pensavam as eleições do lado mais conservador.
Foi uma vitória de Kathami, o antigo Presidente, anterior a Ahmadinejad. Kathami foi o principal articulador nesta reta final e se tornou a ponte para que Reza Aref abrisse mão de sua candidatura em prol de um bem maior, que seria a vitória de um centrista. Não deixa de ser uma vitória também do ex-Presidente Rafsanjani, alijado do processo pelo Conselho de Guadiões, que depositou todas suas fichas na eleição de Rohani. Funcionou.
A população, que compareceu em massa para votar, também mostrou que, depois dos tristes episódios de 2009, estava preparada e decidida a mudar. Mostrou seu posicionamento com contundência a levar Rohani para vitória já no primeiro turno, uma agradável surpresa.
Agora o mundo quer saber quem é Rohani. Bem, é preciso entender que apesar de moderado para termos iranianos, é um conservador e possui o apoio necessário do Aiatolá Khamenei para assumir o cargo. Mas as notícias são boas. Querem saber quem é Rohani? Vamos olhar para Rafsanjani e Khatami e entender que ele deve governar na mesma linha. Internamente recuperando a economia e trazendo menos beligerância no font externo. Ao fim e ao cabo, foi bom para o Irã e foi ótimo para o mundo.
A estratégia política por trás de Rohani funcionou. O ponto central foi a desistência de Reza Aref, o candidato moderado que dividiria os votos centristas e poderia deixar ambos fora de um segundo turno. Com o acordo entre Aref e Rohani, abriu-se a possibilidade de os moderados e centristas despejarem seus votos em somente um candidato. A vitória foi avassaladora.
Do outro lado, o voto conservador se dividiu e não foi possível concentrar os esforços somente em um candidato. Ao contrário dos moderados, viu-se uma desorganização e uma certeza de vitória que iludiu aqueles que pensavam as eleições do lado mais conservador.
Foi uma vitória de Kathami, o antigo Presidente, anterior a Ahmadinejad. Kathami foi o principal articulador nesta reta final e se tornou a ponte para que Reza Aref abrisse mão de sua candidatura em prol de um bem maior, que seria a vitória de um centrista. Não deixa de ser uma vitória também do ex-Presidente Rafsanjani, alijado do processo pelo Conselho de Guadiões, que depositou todas suas fichas na eleição de Rohani. Funcionou.
A população, que compareceu em massa para votar, também mostrou que, depois dos tristes episódios de 2009, estava preparada e decidida a mudar. Mostrou seu posicionamento com contundência a levar Rohani para vitória já no primeiro turno, uma agradável surpresa.
Agora o mundo quer saber quem é Rohani. Bem, é preciso entender que apesar de moderado para termos iranianos, é um conservador e possui o apoio necessário do Aiatolá Khamenei para assumir o cargo. Mas as notícias são boas. Querem saber quem é Rohani? Vamos olhar para Rafsanjani e Khatami e entender que ele deve governar na mesma linha. Internamente recuperando a economia e trazendo menos beligerância no font externo. Ao fim e ao cabo, foi bom para o Irã e foi ótimo para o mundo.
segunda-feira, junho 17, 2013
Os Protestos
Tudo começou em São Paulo. Um protesto contra o aumento das passagens no transporte público. Onde vai parar, se é que vai parar, ninguém sabe, mas ninguém nega que as manifestações que se espalharam desde a capital paulista pegaram o país de surpresa.
O Brasil não vive um bom momento. O aumento da inflação coloca em risco o Plano Real e a estabilização da economia. O aumento de preços e a perda do poder de compra da moeda brasileira é sentida em especial pela classe média e não tardará a se espalhar para as camadas mais pobres da população.
Muitos dizem que o somatório de insatisfações, com a corrupção, gastos com as obras para a Copa, inflação, impunidade, entre tantas outras coisas motivaram a escalada das manifestações. Mas ainda não está claro a que vieram tais protestos e com quais objetivos. A falta de liderança mostra que o movimento é legítimo quanto ao somatório de insatisfações, mas ainda falta um mote, um objetivo, uma meta para toda esta agitação. Querem protestar contra o transporte público? Organizem um dia de boicote. Querem protestar contra os gastos da Copa? Esvaziem os estádios de forma constrangedora.
O grande risco é este movimento se tornar um grito cívico que ecoe em um vazio. Esta chance é grande enquanto o movimento não mostrar a cara e onde quer chegar. É preciso propor mudanças pontuais para que as manifestações estejam calcadas em pleitos claros que possam mudar o estado de coisas que incomoda os brasileiros que tomaram as ruas.
O mais curioso é perceber que as pesquisas não apontavam esta indignação. O governo tem números de aprovação altíssimos. Dilma flerta com uma reeleição tranquila e o assunto mais importante do momento é a transferência de Neymar para o Barcelona. A inflação mostra suas garras, mas ainda não mostrou sua face mais perigosa e o estrago que pode causar.
Se o Brasil acordou de sua eterna letargia é preciso tomar um rumo. O grupo de indignados que tomou as ruas é grande. Mas o que significa mudança para toda essa gente? Já é hora de responder. Caso contrário, o grito cívico será lembrando apenas como uma agitação juvenil.
O Brasil não vive um bom momento. O aumento da inflação coloca em risco o Plano Real e a estabilização da economia. O aumento de preços e a perda do poder de compra da moeda brasileira é sentida em especial pela classe média e não tardará a se espalhar para as camadas mais pobres da população.
Muitos dizem que o somatório de insatisfações, com a corrupção, gastos com as obras para a Copa, inflação, impunidade, entre tantas outras coisas motivaram a escalada das manifestações. Mas ainda não está claro a que vieram tais protestos e com quais objetivos. A falta de liderança mostra que o movimento é legítimo quanto ao somatório de insatisfações, mas ainda falta um mote, um objetivo, uma meta para toda esta agitação. Querem protestar contra o transporte público? Organizem um dia de boicote. Querem protestar contra os gastos da Copa? Esvaziem os estádios de forma constrangedora.
O grande risco é este movimento se tornar um grito cívico que ecoe em um vazio. Esta chance é grande enquanto o movimento não mostrar a cara e onde quer chegar. É preciso propor mudanças pontuais para que as manifestações estejam calcadas em pleitos claros que possam mudar o estado de coisas que incomoda os brasileiros que tomaram as ruas.
O mais curioso é perceber que as pesquisas não apontavam esta indignação. O governo tem números de aprovação altíssimos. Dilma flerta com uma reeleição tranquila e o assunto mais importante do momento é a transferência de Neymar para o Barcelona. A inflação mostra suas garras, mas ainda não mostrou sua face mais perigosa e o estrago que pode causar.
Se o Brasil acordou de sua eterna letargia é preciso tomar um rumo. O grupo de indignados que tomou as ruas é grande. Mas o que significa mudança para toda essa gente? Já é hora de responder. Caso contrário, o grito cívico será lembrando apenas como uma agitação juvenil.
sexta-feira, junho 14, 2013
O Risco Turco
Enquanto no Brasil vive-se um período de protestos, na Turquia a coisa já é um pouco mais séria há tempos. Lá, o Estado democrático e secular fundado por Mustafa Kemal Atatürk começa a fazer água. Não começou agora, mas com a chegada pelo voto dos islâmicos ao poder. Hoje controlam a chefia de Estado e de governo.
Estive a trabalho na Turquia em 2007, quando morava em Viena. Naqueles dias havia também esta tensão entre estado laico e a pressão dos partidos islâmicos que vencem eleições. Nada contra partidos islâmicos, o problema existe quando estes tentam interferir nas estruturas do país para torná-lo mais moldável aos seus preceitos.
O Primeiro-Ministro Recep Tayyip Erdogan está no poder desde 2003. Seu partido, aos poucos tem mudado a face da Turquia, inclinando o país em direção aos preceitos islâmicos. Há resistência. A Turquia moderna, fundada pelo amado Atatürk, um admirador do iluminismo, é laica e sempre se mostrou bindada a qualquer tentativa de intervenção aos preceitos defendidos por seu fundador: "nosso George Washington" me disse um turco, quando estive por lá. O elemento de equilíbrio por ali sempre foram as forças armadas, dispostos a depor e restabelecer os princípios norteadores do país.
Erdogan é um político hábil. Vejam esta capa da Time. Transita no Ocidente e conversa com o Irã. Mas internamente trabalha minando as instituições aos poucos. Há oposição, mas fraca. A imprensa sofre com prisão de jornalistas e os militares também foram atingidos, por serem, evidentemente, a força que poderia depor o governo.
Muito turcos enxergam as novas medidas como a gota d'água contra o estado laico. Tem razão. Os preceitos onde a Turquia moderna foi balizada correm riscos. Por isso os protestos. Por isso a repressão forte aos manifestantes e as teorias de conspiração que levam jornalistas, professores e militares para a prisão. Mas o governo turco joga na esfera internacional de modo inteligente. Não se compromete, mostra-se como o fiel da balança e transita livremente nos salões internacionais. Até que o mundo se dê conta que a Turquia não é mais Turquia que conhecemos.
Estive a trabalho na Turquia em 2007, quando morava em Viena. Naqueles dias havia também esta tensão entre estado laico e a pressão dos partidos islâmicos que vencem eleições. Nada contra partidos islâmicos, o problema existe quando estes tentam interferir nas estruturas do país para torná-lo mais moldável aos seus preceitos.
O Primeiro-Ministro Recep Tayyip Erdogan está no poder desde 2003. Seu partido, aos poucos tem mudado a face da Turquia, inclinando o país em direção aos preceitos islâmicos. Há resistência. A Turquia moderna, fundada pelo amado Atatürk, um admirador do iluminismo, é laica e sempre se mostrou bindada a qualquer tentativa de intervenção aos preceitos defendidos por seu fundador: "nosso George Washington" me disse um turco, quando estive por lá. O elemento de equilíbrio por ali sempre foram as forças armadas, dispostos a depor e restabelecer os princípios norteadores do país.
Erdogan é um político hábil. Vejam esta capa da Time. Transita no Ocidente e conversa com o Irã. Mas internamente trabalha minando as instituições aos poucos. Há oposição, mas fraca. A imprensa sofre com prisão de jornalistas e os militares também foram atingidos, por serem, evidentemente, a força que poderia depor o governo.
Muito turcos enxergam as novas medidas como a gota d'água contra o estado laico. Tem razão. Os preceitos onde a Turquia moderna foi balizada correm riscos. Por isso os protestos. Por isso a repressão forte aos manifestantes e as teorias de conspiração que levam jornalistas, professores e militares para a prisão. Mas o governo turco joga na esfera internacional de modo inteligente. Não se compromete, mostra-se como o fiel da balança e transita livremente nos salões internacionais. Até que o mundo se dê conta que a Turquia não é mais Turquia que conhecemos.
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