quarta-feira, outubro 30, 2013

Liderança e Poder

A sensação de que Obama cada vez mais segue para um melancólico segundo mandato vem também da revista Forbes. Em seu tradicional ranking dos líderes mais poderosos do mundo, o Presidente aparece em segundo lugar, logo atrás de Putin. Nos seus calcanhares está o chinês Xi Jinping, que acaba de chegar ao poder. No próximo ano, entretanto, a situação pode piorar.

Putin é considerado hoje mais poderoso que Obama, segundo a Forbes, por vários aspectos analisados, como o número de pessoas sobre o qual o poder é exercido, sua influência em diversas esferas, os recursos financeiros sob seu controle, além é claro, da forma como exerce o poder. Obama perdeu certamente neste último quesito.

Já dizia Sir Halford John Mackinder que aquele que controla o porção territorial do Leste da Europa e parte da Ásia, onde está localizada a Rússia, controla também o mundo. Se formos considerar os aspectos geográficos, naturais e geopolíticos, certamente Mackinder também colocaria o Presidente russo na capa da Forbes, mas sabemos que a abrangência do poder de Putin vai muito além disso.

Não há dúvida sobre a potência econômica e militar americana. É surpreendentemente forte e capaz, entretanto, é preciso vislumbrar dois aspectos. O primeiro deles de caráter militar. Os Estados Unidos se orientam por ditames democráticos e sem a característica de dominação militar. São tradicionalmente mais isolacionistas do que conquistadores. Foram levados a condição de superpotência como consequência, sem nunca ter almejado esta posição. Esta confusão entre ter e exercer o poder ainda é algo em amadurecimento na sociedade americana. O segundo ponto é a economia, que sustenta-se em um modelo democrático e funciona. Deve se recuperar dos abalos com relativa tranquilidade.

Os russos, entretanto, possuem uma característica clara de dominação. Exercem o poder forte e sua economia se baseia neste sistema. Os chineses atualmente, da mesma forma, sem a característica da personificação como os russos. Antes de Xi Jinping veio Hu Jintao. Você se lembra dele?

Logo as economias e a formas de exercer o poder são diferentes nestas três nações. Existe hoje no mundo uma prevalência do sistema ocidental democrático, inclusive em países asiáticos, mas isto ainda é resultado do mundo que vivíamos. Talvez no futuro algumas nações tomem ou retomem seus rumos e tradições de poder culturais.

Mas o que tudo isso tem a ver com Putin e Obama? Tudo, neste momento. Dentro da liderança exercida pela porção democrática, existe um vácuo, pois o exercício do poder por Obama tem aberto flancos para os avanços de Putin e da China. Não surpreenderá se no próximo ano o Presidente americano aparecer em terceiro lugar, atrás de Putin e Xi Jinping. No momento, sobra carisma e um Presidente muito bem intencionado, mas falta liderança aos Estados Unidos.

sexta-feira, outubro 25, 2013

A Reação de Palin

As eleições do próximo ano serão fundamentais nos Estados Unidos. Cada voto decidirá o rumo e a forma de um Congresso que será responsável pelos dois últimos anos de Obama na Casa Branca e os líderes que darão as cartas na escolha dos candidatos a Presidente em 2016. Enquanto alguns enxergam a corrida presidencial longe no horizonte, uma dica: tudo já começou.

Os primeiros movimentos dentro do GOP, Grand Old Party, como são chamados os republicanos por aqui, foram dados por Sarah Palin. Sim, ela está de volta ao ringue. Não disputará qualquer cargo novamente, mas estará por trás da estratégia de seu grupo em moldar um partido mais conservador e que oriente a escolha de um candidato alinhado com estas idéias para 2016.

Muitos acreditam que Sarah Palin é uma piada. Não é. Como analiso do ponto de vista estritamente político, deixem as paixões de lado e vamos tentar colocar o assunto em perspectiva. Ela possui realmente um potencial enorme de desequilibrar disputas em redutos mais conservadores. Neste caso, sua estratégia não é vencer democratas, mas reordenar a estrutura dos republicanos, levando o partido como um todo a um viés mais conservador.

Ela tem cruzado o país. Iowa, Tennessee, Carolina do Sul, Kentucky, Mississippi. Onde houver um republicano moderado nas cordas, ela irá ajudar a derrubá-lo elegendo nas prévias pré-candidatos mais conservadores. Sua cruzada é longa, mas não falta energia. O deputado Lamar Alexander está na sua mira, assim como os senadores Mitch McConnell e Lindsay Graham. Estes são os primeiros, mas sua lista é longa. Palin pode desequilibrar o Partido Republicano para a direita.

Sua participação em primárias é comemorada pelos conservadores, inclusive porque além de desequilibrar disputas, sua simples presença leva campanhas a arrecadar muito mais fundos e leva estímulo de voto para eleitores que não participariam da escolha. Ela é uma estrela nestes redutos.

Quem pensa que Palin está na estrada para 2014 se engana. Ela quer organizar o partido cada vez mais perto de suas idéias para que em 2016 o GOP venha com um nome realmente ligado ao lado mais conservador. O trabalho de fundo que Palin está fazendo tem por objetivo reorientar o partido, mas também pode rachá-lo de forma muito preocupante. A polarização é o hoje o principal problema da política americana. Neste caso ela tenta apagar o fogo com gasolina. A conferir.

quinta-feira, outubro 24, 2013

Sharif em Washington

Ontem, Dilma Rousseff poderia estar na Casa Branca. O jantar de sua visita de Estado estava marcado na agenda para ontem. Obama jantou com a família, mas um pouco mais cedo recebeu uma visita importante, o Primeiro-Ministro do Paquistão, Nawaz Sharif.

As relações com o Paquistão são importantes para os americanos. O país islâmico é estratégico para as ações de combate ao terrorismo, já que por ali circulam muitas forças hostis aos Estados Unidos. Não foi por outro motivo que o Islamabad entrou com honras na agenda americana depois das ações de Bin Laden.

Mas as relações entre as duas nações andaram estremecidas depois do caos político pelo qual passou o país asiático e com as constantes entradas das tropas americanas e ataques de drones no país islâmico. Existe uma sintonia muito fina que precisa ser traçada entre a manutenção da aliança com os americanos e o xadrez político interno. O Paquistão possui uma política complexa que pode levar a perigosos períodos de instabilidade. A divisão tribal do país e os grupos extremistas fazem parte deste delicado quebra-cabeça.

Foi em um Paquistão, já aliado dos Estados Unidos, que os terroristas da rede Al Qaeda, inclusive Osama Bin Laden, e os membros do Talibã encontraram abrigo depois que as tropas americanas chegaram no Afeganistão. O país governado por Sharif possui muitas complexidades e dificilmente um governante consegue manter o território inteiramente sob controle. A divisão do poder precisa ser negociada com as lideranças locais e assim abrem-se flancos onde grupos hostis ao Ocidente conseguem se impor.

Assim, a visita de Sharif possui nuances importantes. O Primeiro-Ministro reclamou sobre o uso de drones em suas palestras e comunicados para a imprensa aqui em Washington. Mas sabemos que os paquistaneses são gratos aos americanos pelo uso dos robôs. Logo, suas declarações servem para acalmar os ânimos em casa. Nawaz Sharif também está levando US$ 1,6 bilhão em ajuda militar e econômica de volta para Islamabad. Portanto, sabe que a aliança com os americanos rende também em outras frentes.

Sharif esteve por aqui. Fez o jogo político. Falou para os grupos mais duros em casa, reuniu-se os lideranças empresariais, jantou com John Kerry, tomou café da manhã com Joe Biden e encontrou-se com Obama. Levou um cheque de ajuda militar e econômica. Nada além do que se espera de um Presidente do Paquistão que, como todos os outros, tenta manter-se no poder. Ponto para ele.

quarta-feira, outubro 23, 2013

O Celular de Merkel

Depois da França, foi a vez a da Alemanha. A Chanceler Angela Merkel ligou para Obama quando recebeu a informação de que suas ligações de celular haviam sido monitoradas pelos Estados Unidos. Tudo indica que a informação vazou pela revista Der Spiegel, apesar de ainda não ter sido confirmado. O fato é que em menos de um dia o governo Obama teve sua credibilidade colocada em risco, desta vez com outro aliado importante, a Alemanha.

Já escrevi aqui sobre o vazamento das ações de espionagem norte-americanas. É fato que governos espionam. Não é bonito, mas o serviço existe. O problema, neste caso, foi a falta de cuidado - que respinga diretamente na agenda diplomática. Vazamentos evidenciam um sistema com falhas. Informações que foram coletadas pelo Estado vazaram para as mãos de terceiros.

Além disso, quem detém e vaza estas informações no momento desejado possui uma arma muito poderosa. É um instrumento que, usado de forma eficaz, pode influenciar a agenda externa norte-americana. O vazamento das informações de espionagem no Brasil, por exemplo, foram publicadas no mesmo período em que ambos os países preparavam uma visita de Estado da Presidente brasileira em Washington. Chega a ser ingênuo falar de coincidência. 

Enquanto as denúncias de espionagem respingam na Casa Branca e a imagem do país segue arranhada mundo afora, na imprensa americana o assunto não é tratado com relevância. A questão do momento, depois da batalha entre Obama e o Congresso sobre o orçamento e o aumento dívida, paira sobre a funcionalidade do sistema de saúde. Quando o assunto é espionagem, a preocupação é com o monitoramento interno dos americanos. As denúncias sobre espionagem na França, Alemanha e México, veiculadas nesta semana, estão fora dos temas relevantes da semana. 

É preciso mais atenção com este assunto. A preocupação com a espionagem interna deve ser tão debatida como a espionagem externa. A imagem dos Estados Unidos está sendo afetada de forma muito negativa com esta sucessão de denúncias. É preciso que a imprensa noticie o assunto de forma clara de modo a trazer o assunto ao debate nacional. Enquanto a população não entender o que seu governo vem promovendo, não conseguirá pressioná-lo em sentido contrário. Manter alianças externas e uma boa imagem no mundo faz parte de uma estratégia política e de comunicação que tem se mostrado falha. É preciso tomar providências sérias antes que valiosas alianças sejam ainda mais comprometidas.

segunda-feira, outubro 21, 2013

Espionagem na França

Edward Snowden continua fazendo estragos. Agora o alvo foi a França. O Le Monde publicou, baseado mais uma vez nos documentos vazados pelo americano, que a NSA espionou também a França. Logo depois de enfrentar mais uma crise interna, Obama terá que lidar com sua agenda externa.

A França, que hoje é uma aliada dos Estados Unidos, reagiu, como era esperado. O Primeiro-Ministro, em visita na Dinamarca, declarou-se perplexo. Obama, por sua vez, ligou para Hollande com o objetivo de contornar a situação. O Embaixador foi convocado, como era de se esperar.

Certamente este embaraço será contornado, entretanto, o problema que Snowden causa aos Estados Unidos é enorme, por um simples, motivo: suas informações são publicadas a conta gotas, trazendo desespero para a chancelaria americana. Não é possível saber o que será publicado amanhã, uma vez que Snowden vazou, ou continua vazando, uma série de documentos.

Como é possível manejar uma política externa desta forma? Esta é uma questão que atormenta o Departamento de Estado, uma vez que as alianças e os acordos são colocados em xeque cada vez que a imprensa divulga mais uma ação de espionagem dos americanos, em especial, contra seus aliados. Na verdade é difícil construir uma agenda externa e mantê-la de pé desta forma.

Um governo, que já possui dificuldades no front interno, agora enfrenta sérios problemas no front externo. Quem detém e vaza sistematicamente estes detalhes em relação a espionagem pode moldar ou direcionar a política externa de Obama. Não é possível saber quando e de onde virá a próxima  denúncia. Mesmo que o governo tivesse um hábil manejo diplomático, o que não é o caso, já seria difícil. Com um governo sem uma agenda externa definida torna-se ainda mais preocupante. Para quem detém as informações, um valioso trunfo.

sexta-feira, outubro 18, 2013

Bipartidarismo Necessário

A vitória foi de Obama, sem dúvida, mas o que resta no espectro político depois disso é preocupante. As análises são todas direcionadas ao péssimo momento vivido pelos republicanos e como o assunto rachou o partido mais uma vez. Entretanto, mais interessante do que isso é entender em um aspecto amplo a situação geral do que se tornou a política do país mais poderoso do mundo.

A Casa Branca obteve uma vitória, entretanto, não nos iludamos. Obama vive um momento difícil e tem pela frente três anos dramáticos. Em Washington somente especula-se sobre a sucessão do Presidente que tomou posse para seu segundo termo apenas 10 meses atrás. O início do segundo mandato é o período natural de avanço e implementação da agenda vitoriosa, uma vez que não há o compromisso de concorrer a uma reeleição. Entretanto, o que vemos é uma Presidência enfraquecida e sem iniciativa. Isto é preocupante.

Barack Obama chegou a Washington com o discurso da união e construção de pontes de entendimento entre republicanos e democratas. Quatro anos depois de assumir a Presidência enxergamos que nunca a distância entre os dois partidos foi tão grande. A responsabilidade não pode ser jogada completamente em Obama, mas seu estilo e inabilidade para lidar com determinadas situações certamente ajudaram a jogar o mundo político em uma situação de preocupante polarização, pois é uma divisão que paralisa o país.

Não há dúvida de que a situação precisa melhorar, mas para isso precisam ser criados canais de comunicação. O país está paralisado. Hoje estas pontes não existem e por conseguinte as negociações estão travadas. Esta iniciativa precisa vir da Casa Branca. Obama precisa colocar em prática uma agenda mínima, chamar os republicanos moderados e construir um entendimento. Não é uma tarefa fácil, mas enquanto nada for feito, a agenda permanecerá retida nas mãos dos grupos mais radicais de ambos os partidos e os episódios como os mais recentes continuarão a se repetir.

Repito, a iniciativa precisa partir de Obama. Caso contrário, a próxima campanha presidencial será uma batalha nada amistosa entre grupos rivais e distantes que não se toleram. A radicalização da política americana não interessa a ninguém. Caso persista no erro, Barack Obama se tornará, como chamamos na política, um pato manco, um homem sem capacidade de liderança. Conduzirá uma Presidência vazia, sem reformas, maior alcance ou impacto, carregando o perigoso legado da radicalização política, o que seria terrível para a sociedade americana.

quinta-feira, outubro 17, 2013

Vitória de Obama

O Presidente americano jogou com o brio dos republicanos e venceu. Alguns adversários classificaram o triunfo de Obama como vitória de pirro. Não foi. Foi mais. A expressão do Presidente, que se dirigiu aos jornalistas antes mesmo do acordo ser aprovado na Câmara, mostrava a confiança que emanava da Casa Branca. O Presidente, em tom vitorioso, anunciou duas conquistas: o aumento do teto da dívida e a reabertura do governo.

Os republicanos mostraram que não sabem ainda usar a sua maioria. Portando, o derrotado maior é o Presidente da Câmara, republicano John Bohener. Sua expressão de contrariedade após o acordo mostrava que realmente algo havia saído errado para seu partido. A oposição não conseguiu impor qualquer limite ou restrição aos gastos do governo. Ficou a promessa de que a Casa Branca revisará os custos com o intuito de baixar impostos no futuro. Nada mais vago.

Obama disse que não negociaria. Não negociou. Jogou duro com os republicanos e saiu vitorioso. O Presidente não recebe a pressão dos distritos como os deputados, que voltam toda semana para casa e são bombardeados pelos eleitores com reclamações e demandas. Os deputados enfrentam eleição no ano que vem. Obama está garantido até 2016 e já venceu sua reeleição. Será um Presidente de dois mandatos. No segundo termo, em tese, ele tem mais liberdade de ação. A reclamação dos eleitores que não recebem seus cheques, benefícios ou são prejudicados pelo governo geralmente batem nas costas dos deputados.

O final de semana aqui em Washington foi intenso. Meus amigos que trabalham no Congresso cancelaram compromissos e ficaram inteiramente dedicados ao processo de costura do acordo. Sabíamos que algo viraria até ontem. A maior preocupação era realmente com o limite de endividamento. Se os americanos não passassem o aumento do endividamento do país até ontem, o país começaria a não honrar seus papéis. Agências de classificação de risco não sediadas nos Estados Unidos já realizaram um pequeno rebaixamento do país, pelo simples fato de ter sido tão penoso chegar a um acordo. É um sinal. Alguns disseram que os chineses estão vibrando com isso. Calma. Nada mais interessante aos chineses que uma América rica e compradora de seus produtos, além do mais, os chineses também carregam estes títulos que os americanos deixariam de honrar.

No final das contas, o governo será reaberto, os republicanos ficaram desmoralizados por ter cedido e o Presidente da Câmara com sua liderança contestada. Obama não ofereceu qualquer coisa em troca e levou tudo que pediu. Em janeiro o drama se repete. Obama vai ceder? Agora você já sabe a resposta.

quarta-feira, outubro 16, 2013

Flanco Aberto

Enquanto Obama segue em Washington para discutir os problemas internos de seu governo, o front externo fica desguarnecido. Apesar de possuir um Secretário de Estado atuante, como John Kerry, muitas vezes a presença do Presidente, ou seja, o exercício do que é chamado de Diplomacia Presidencial, é extremamente importante. O último Presidente que exerceu com força este mecanismo no Brasil, diante das nações ricas, foi Fernando Henrique Cardoso.

Voltando a Obama. Como relatei aqui no post anterior, o Presidente americano tinha duas reuniões muito importantes na Ásia na última semana: os encontros da Asean e da Apec. Depois ele partiria para Indonésia. Ou seja, seria um giro entre Brunei, Malásia e Indonésia que ficou para trás. Como expliquei aqui, os chineses e russos agradeceram a ausência do americano, negociaram, fizeram giros movimentos políticos e posaram de líderes mundiais.

O Presidente americano ficou preso aqui em Washington para discutir dois assuntos: o shutdown, ou seja, o fechamento do governo pela falta de aprovação do seu orçamento e o risco de o país não honrar suas contas, ou seja, atingir seu nível de endividamento máximo, sem aumentá-lo - o que apenas prorroga o problema do déficit. O próprio Obama foi contra medidas assim no passado, quando o Presidente era Bush e ele era senador pelo Illinois. Ele votou contra as medidas que agora precisa tomar como Presidente.

Enfim, o Salão Oval vive dias de tensão e o Presidente está com todas atenções voltadas para a política doméstica, enquanto o flanco internacional fica em aberto. A China ocupa espaços geopolíticos na Ásia Central, a Rússia se posiciona como interlocutora na questão síria e Washington permanece imobilizada  em suas discussões internas.

Os americanos vem perdendo espaço no mundo internacional. Não falo da questão de dominação militar, mas dos meandros diplomáticos e econômicos. A capacidade bélica e humana quanto ao front militar é indiscutível, mas lembremos que este mesmo povo venceu a Guerra Fria por meio da economia sem disparar sequer um tiro. Enquanto isso a China movimenta-se em silêncio - economicamente. Os Estados Unidos precisam colocar a casa em ordem.

segunda-feira, outubro 14, 2013

Diplomacia Chinesa

As mudanças na política externa chinesa são visíveis. Cada vez mais Pequim tem feito uso do soft power. O exercício de poder exterior chinês, no momento, tem se transformado na habilidade em construir pontes políticas, econômicas e de cooperação com diversas nações pelo mundo, mas em especial com os seus vizinhos.

A política de cooperação internacional é intensa. As recentes mudanças políticas na China, com a transição de Hu Jintao para Xi Jinping somente acentuaram um modelo que já vinha sendo implementado por seu antecessor. A ajuda externa chinesa cresceu de US$ 1,7 bilhão em 2001 para US$ 189,3 bilhões em 2011, cerca de 3% do PIB do país.  Os números mostram que existe uma política externa clara em curso.

Os chineses tem interesse em manter fronteiras estáveis. Isto ajuda ao país e alimenta o comércio também com os vizinhos. Para isso, Pequim faz uso da diplomacia de cúpula, em fóruns como a Asean e Apec, além das relações bilaterais e fóruns regionais, ou seja, a diplomacia chinesa tem agido em todas as frentes.

Somente última semana Xi Jinping prometeu triplicar o comércio com a Malásia nos próximos anos, realizar investimentos na Indonésia e ampliar os negócios e cooperação em tecnologia e energia com a Austrália. Enquanto isso, o premiê Li Keqiang compareceu ao fórum de líderes da Asean no Brunei e depois seguiu para a Tailândia.

Nos últimos meses Xi Jinping também esteve em ação durante viagens intensas pela Ásia Central fazendo visitas no Turcomenistão, Cazaquistão, Uzbequistão e Quiguistão, onde os chineses se encontraram com os iranianos. Na reunião da Organização para Cooperação Xangai (SCO), ainda houve um encontro com o líder do Tajiquistão.

Como vemos, os chineses não estão brincando. A balança de poder na Ásia está movendo-se mais rápido que se esperava. Enquanto Pequim se movimenta, Washington parece paralisada. Obama cancelou suas viagens para Brunei, Malásia e Indonésia. Xi Jinping agradece.

sexta-feira, outubro 11, 2013

Bom para Aécio

A entrada de Marina Silva modifica o jogo eleitoral, entretanto, pode ser de forma diferente da qual ouvimos por aí. Uma análise do mapa eleitoral do Brasil, aliado aos resultados da última eleição nos mostra claramente onde são os bolsões de votos do petismo, tucanos e Marina e vemos que Aécio tem mais a comemorar do que a lastimar com entrada da ambientalista no jogo ao lado de Eduardo Campos.

Candidato derrotado em 2010, Serra diz ser detentor de 33 milhões de votos no Brasil, ou seja sua votação no primeiro turno. Aí está o primeiro erro. Serra não é detentor destes votos. Eles são votos da oposição. O que vale dizer que qualquer outro candidato escolhido pelo PSDB chegaria a este patamar de votos, ou seja, cerca de 32%.  No segundo turno pulou para quase 44%. Em 2006, Geraldo Alckmin obteve no primeiro turno cerca de 42%, praticamente 40 milhões de votos. Aécio deve partir deste patamar de 30% pelo geografia do voto no Brasil. A região Sul, somada a parte do Sudeste e Centro-Oeste, especialmente no cinturão do agronegócio, tem uma tendência forte em votar com um nome de centro tucano.

Marina Silva, apesar de tomar alguns votos dos tucanos, não ataca diretamente seu eleitorado. Marina venceu apenas no Distrito Federal e teve boa penetração nos estados do Norte e Rio de Janeiro, onde tomou o segundo lugar de José Serra. Vemos que em nenhum destes lugares o PSDB conta com uma expressiva votação. Marina tirou mais votos de bolsões petistas e empurrou Serra, com uma robusta votação no Centro-Sul para o segundo turno.

Eduardo Campos, ao lado de Marina, terá uma penetração mais difícil no Centro-Sul. Nenhum deles possui estrutura partidária e qualquer identificação cultural nestas regiões. Será um trabalho muito difícil. A chapa Eduardo-Marina, entretanto, tem condições de realizar uma boa votação no Nordeste, bolsão petista, no Rio de Janeiro, onde os tucanos nunca emplacam e na região Norte, reduto de Lula e Marina.

Aécio tem todas as condições de chegar ao segundo turno. Precisa escolher um vice que dê sustentação ao seu projeto e robustez eleitoral onde já é forte. Um vice do Nordeste só faz sentido se for alguém de enorme expressão e que estivesse aliado ao governo, como Eduardo Campos. Juntos, fariam uma coligação imbatível, mas o casamento político do PSB com Marina inviabilizou este projeto. Aécio precisa de um vice do Centro-Oeste, ligado ao agronegócio e que carregue com robustez uma vitória avassaladora pelo interior de São Paulo, Mato Grosso, Goiás e Minas Gerais. Aliás, o estado de origem de Aécio, a jóia da coroa que faltou aos tucanos para vencer os últimos pleitos, agora nas mãos do PSDB. Caberá aos tucanos fazer bom uso dela.

A vitória nunca esteva tão ao alcance dos tucanos. Depende, entretanto, como decidirão se movimentar em um jogo que virou, ao contrário do que muitos acham, favoravelmente para o seu lado.

quinta-feira, outubro 10, 2013

Um Novo Momento

A política do Ocidente para as questões envolvendo o Oriente Médio e o Mundo Árabe tem tomado contornos cada vez mais problemáticos. Os capítulos envolvendo a chamada "Primavera Árabe", com Síria e Líbia, além do Iraque, apenas comprovam a falta de uma política coerente para a região. Apesar de existir a possibilidade de rever ações e reorientar políticas, falta uma diretriz clara para a região.

O Iraque foi o primeiro problema. Não há dúvida que Saddam Hussein representava um perigo em termos de segurança. Entretanto, ao custo de milhares de vidas de soldados norte-americanos e outros aliados, o país hoje está nas mãos de um grupo xiita que possui laços estreitos com o Irã. Certamente existiu um erro de cálculo político. A retirada de Saddam traria outro grupo para o poder. Diante do fato de que o ditador deixaria o comando em razão da guerra, faltou estabelecer o próximo passo, ou a construção de uma situação de estabilidade política no país que se traduzisse em tranquilidade na esfera internacional.

A Síria tinha potencial para tornar-se um Iraque piorado. A saída de Assad traria uma instabilidade enorme para a região. O país é comandado por um ditador, mas diante de seus opositores, talvez ele seja a opção mais segura para o Ocidente, afinal nenhum país deseja que a Síria seja comandada por um grupo rebelde ligada aos terroristas da Al Qaeda com acesso ao armamento químico de Assad. Portanto, pelo menos neste momento, a opção de atacar a Síria é um risco que precisa ser muito bem calculado.

O mesmo problema ocorreu na Líbia. Kadafi foi destituído e o país submergiu em uma situação complicada com tribos na disputa pelo poder, milícias com ligações a grupos terroristas que comandam parte do país e um governante que não consegue controlar a situação. A escalada da violência é cada vez maior, a produção de petróleo despencou e o Embaixador americano foi brutalmente assassinado. É preciso perguntar se para o Ocidente valeu a pena. Kadafi era um ditador, mas mantinha os grupos internos sob controle e a comunidade internacional mais tranquila.

A região é permeada por ditaduras. Algumas delas simpáticas ao Ocidente, como foi Mubarak no Egito, entretanto, as intervenções externas na região acabaram por fortalecer grupos hostis aos Estados Unidos e ao Ocidente de um modo geral. É preciso parar de agir somente na demanda das situações, mapear os grupos e criar uma política consistente em relação a região. É preciso encarar o quebra-cabeças do Mundo Árabe e do Oriente Médio como parte de um todo, onde forças que não representam os preceitos morais do Ocidente estão em constante disputa pelo poder.

A sucessão de intervenções realizadas até aqui somente trouxeram mais instabilidade para a região e para o mundo. Vivemos um novo momento. É preciso parar e repensar a política. Talvez esta seja a medida que crie maiores condições de segurança para todos.

quarta-feira, outubro 09, 2013

O Dilema de Obama

Enquanto o governo permanece em shutdown, Obama tem pela frente uma nova prova de fogo. Em mais alguns dias o Congresso deve autorizar o aumento do teto da dívida americana. Os republicanos mandaram um recado: estão dispostos a usar esta votação como mais uma arma política para que o Presidente negocie. Até o momento a Casa Branca está irredutível.

Enquanto a falta de autorização para o governo gastar acarreta um prejuízo mais de impacto político, a decisão de não elevar o teto da dívida pode levar os americanos a não honrarem seus papéis, considerados os mais seguros do mundo. Tal ato levaria incerteza aos mercados, derrubaria as bolsas e poderia gerar uma situação de tensão econômica séria.

Obama conta com o bom senso dos republicanos, ou seja, acredita que não prejudicariam o país misturando as duas questões. Entretanto, a intransigência da Casa Branca em buscar uma saída ao shutdown pode levar os republicanos a uma decisão mais radical. O Presidente deve se preparar para o pior, até porque a oposição jogará no seu colo o ônus de não honrar com os próprios papéis e jogar os Estados Unidos em uma situação de vexame econômica mundial. Dirão que a intransigência do Presidente está levando o país a uma situação preocupante.

O fato é que estes acontecimentos mostram um governo errático e sem rumo. Obama aposta todas suas fichas no seu projeto de saúde, mas não possui maioria na Câmara para fazer sua iniciativa ser incluída no orçamento. Está esticando a corda e não mostra-se disposto a ceder. Do outro lado, os republicanos negociam somente se o Obamacare foi retirado ou prorrogado. Há um impasse. Se de um lado existe um legado a defender, do outro existe uma agenda muito clara de combate ao projeto de saúde. No meio de toda esta guerra, que já paralisou o governo, pode acabar sobrando para a economia. Quando Obama estava no Senado, votou pela rejeição do aumento do teto, como mostra a foto. Disse que faltava liderança ao Presidente Bush. Talvez a mesma que ande em falta no Salão Oval nos dias de hoje.

segunda-feira, outubro 07, 2013

O Movimento de Marina

O fato político está posto. Marina Silva resolveu embarcar no projeto do PSB. Seu movimento gerou inúmeros desdobramentos. Uma jogada política bem pensada ou um erro estratégico de proporções monumentais. Somente o futuro responderá se ela está certa, mas desde já os cenários desenhados são passíveis de análises.

Assim que Marina sacramentou sua ida para o PSB, Eduardo Campos ligou para Lula. Fazia um movimento político. Enquanto isso, Roberto Freire avisava a nova socialista que se o objetivo era criar uma alternativa ao petismo, o caminho estava errado. Ela deveria entrar para o PPS, sedimentar seu nome, e somente depois tratar de uma aliança em nível nacional. Freire alertou para o fato de que Campos, no caso de Lula sair candidato, pode ceder.

As duas questões levantadas pelo presidente do PPS são pertinentes. A primeira estratégia faz mais sentido eleitoral. Antecipar uma decisão desta importância reduz o arco de possibilidades de alianças e pode trazer Lula de volta para a disputa, o que sepultaria as intenções de Campos de candidatar-se ao Planalto e as de Marina criar uma terceira-via. Faria realmente mais sentido Marina trilhar um caminho dentro do PPS e somente depois aliar-se ao PSB, inclusive porque os dois partidos poderiam somar tempo de propaganda eleitoral na televisão.

Os parlamentares da Rede de Marina não desembarcarão na sua totalidade no PSB. Houve uma pulverização de seus aliados para diversos outros partidos, o que pode dificultar a solidez dos apoios que ela poderá contar nos estados e deixa Marina nas mãos de Campos, que controla o PSB como um czar. Com este movimento sua Rede perde consistência e ela embarca definitivamente dentro do projeto de Eduardo Campos.

Ficou ruim para o PSDB. Se os tucanos sonhavam com a dobradinha Aécio/Eduardo, agora ela foi definitivamente sepultada e a candidatura Eduardo/Marina ganhará musculatura. Os tucanos irão amargar o terceiro lugar nas pesquisas e deverão lutar por uma vaga no segundo turno contra a chapa sensação do momento.

O que ficou claro com este movimento é que a opção viável ao petismo virá de dentro de sua base de apoio e fileiras, com a fadiga natural do material político depois de mais de uma década de poder. A oposição verdadeira e real está enfraquecida e sem capacidade de reação. O derretimento do PFL/DEM e o surgimento de partidos como o PSD e o crescimento do PSB são a maior prova disso. O nome de Marina, ministra de Lula, como nome viável contra o petismo é a prova contundente de que o PT conseguiu movimentar o equilíbrio da balança política brasileira de forma definitiva.

sexta-feira, outubro 04, 2013

O Fator Marina

A política brasileira vai encontrando seus caminhos e fazendo seus arranjos na medida que se aproximam as eleições. Marina Silva perdeu a primeira batalha. Não conseguiu emplacar seu feudo particular, a Rede Sustentabilidade. Poderá conseguir o registro, mas não em tempo hábil de concorrer no próximo ano. O que fará Marina, dona de fatia importante do eleitorado, é discutido no momento nas bolsas de apostas da política nacional.

Marina chegou a 23% de intenções de voto durante as manifestações. Recuou agora para cerca de 16%. Não é uma fatia desprezível. Aliás são os votos que podem definir se haverá ou não segundo turno nas eleições presidenciais que se avizinham. Sem Marina, Dilma pode faturar a reeleição no primeiro combate. Aécio Neves e Eduardo Campos ainda precisam mostrar musculatura para desalojar o petismo do Planalto.

Marina é teimosa. Todos sabem disso. Em 2010 preferiu não se comprometer e assumir a neutralidade no segundo turno. Mirava lá na frente. O futuro chegou e ela não se preparou. A sua idéia da Rede demorou demais e extrapolou os prazos da legislação eleitoral. Marina está fora do jogo. Somente volta se topar entrar em uma legenda de aluguel para disputar o poder, o que, em tese, vai contra seus princípios.

Ela encontra-se em uma situação delicada. A dúvida é se ela ficará ao lado dos seus princípios ou os largará para disputar o poder. Política é timing. Se ela perder a onda que criou-se a seu favor, talvez perca sua única chance de chegar ao Planalto. Marina preferiu arriscar a anti-política, subvertendo as regras do jogo. Os jogadores profissionais mostraram que se ela quiser chegar lá, é preciso submeter-se ao mesmo processo e regras que todos.

Minha aposta é que Marina ficará com seus princípios e teimosia. Posso estar enganado, mas ela acredita que ainda pode acontecer algo que faça com que sua Rede ganhe vida, talvez no Supremo. Marina tentou subverter o sistema, que devolveu-he a audácia na mesma moeda. Para tentar o poder, terá que se submeter ao jogo, caso contrário está fora.

quinta-feira, outubro 03, 2013

Os Acenos de Teerã

A política externa dos Estados Unidos em relação ao Oriente Médio sempre pairou nos desdobramentos da questão entre israelenses e palestinos. Qualquer um dos novos secretários nomeados para chefiar o departamento de Estado procura sempre um caminho que pavimente um acordo. Mas talvez a estabilização da região passe por outros locais. Se esta nova estratégia está correta, a capital mais importante que deve ser considerada no jogo é Teerã.

No xadrez das peças do Oriente Médio, a eleição de Rouhani abre uma oportunidade. Por certo o caminho do Irã não muda com a eleição do novo Presidente, pois ele responde ao líder supremo, Aiatolá Ali Khamenei, mas sem dúvida a saída de cena de Ahmadinejad facilita muito as coisas.

Khamenei enxerga os valores ocidentais com sérias restrições, mas é um político e acima de tudo procura sedimentar o modelo de democracia iraniana que vem sendo implementado em seu país. Ao contrário do que muitos acreditam, talvez não enxergue os Estados Unidos apenas como um inimigo, mas como mais uma potência no mundo, com a qual não divide valores, mas com quem é preciso lidar. Os americanos são a peça mais importante no tabuleiro internacional dos iranianos, uma espécie de passaporte que mudaria seu status diplomático no mundo. Há espaço para muitas negociações.

O líder do Irã, em seu jogo tenso de relacionamento com o ocidente, conseguiu manter seu país firme em seus propósitos e implementou uma agenda que mistura teocracia com democracia e flexibilizações quando necessário. O Irã tornou-se um jogador de peso na política internacional.

Assim como Nixon e Mao se aproximaram e os americanos passaram a conviver com o regime chinês, reconhecendo seu potencial e força na balança internacional, o Irã talvez busque o mesmo caminho. Assim, esta possível aproximação de Teerã com Washington pode ser um movimento muito lento neste sentido. Um movimento, vale lembrar, que deve ser muito bem calculado, pois um pequeno erro de cálculo pode comprometer os resultados para ambos.

Assim, quando a Assembléia Geral da ONU iniciou e a Síria era a peça mais importante do jogo internacional, quando terminou vimos o Irã sair como um dos protagonistas. A ligação telefônica entre Obama e Rouhani possui significados e desdobramentos que ainda renderão muitas análises.

Não sejamos ingênuos. É preciso parcimônia para lidar com os aiatolás. Existe muita cautela de ambas partes, em especial, com razão, do lado americano, especialmente no que tange ao programa nuclear, ponto central de possíveis negociações. Mas pela primeira vez existe um caminho que pode pavimentar conversas e quem sabe acordos que podem gerar muitos reflexos positivos no Oriente Médio.

quarta-feira, outubro 02, 2013

Shutdown e Obamacare

Obama tem pela frente um desafio enorme. Certamente a iniciativa na área da saúde, o Obamacare, foco de todos os problemas que levaram ao Shutdown do governo, será a marca de sua administração. Se o Presidente não conseguir implementar esta agenda, passará para a história um legado de presidência fraca e vacilante. Será alguém que prometeu mudanças e não conseguiu realizar.

Vamos aos fatos. A Casa Branca levou o Obamacare para votação no Congresso e venceu. Os republicanos questionaram na Suprema Corte. Obama venceu de novo. Houve eleições. O Presidente manteve a Casa Branca e o Senado, mas perdeu o controle da Câmara. Talvez em função da polêmica quanto ao seu projeto na saúde. Não há como ter certeza. Virou o ano e o orçamento. O novo Congresso, de maioria republicana, tenta a última manobra: não aprovar o orçamento com a implementação do projeto aprovado e considerado legal pelo judiciário. Criou-se o impasse.

Acabar com o shutdown é fácil. Basta que Obama retire a previsão de financiamento do Obamacare do orçamento. Seria a vitória suprema dos republicanos. Mas o Presidente diz que retirar seu projeto de saúde está fora de questão, ou seja, não negocia nestas bases. É difícil precisar quem ganha politicamente com este ato. De um lado, os republicanos estão mostrando força para seu eleitorado, do outro podem passar a idéia de políticos intransigentes que decidiram parar o governo dos Estados Unidos. Dependerá muito da qualidade da comunicação de cada um dos lados com o eleitorado.

O impasse é maior e mais grave do que se imagina e o shutdown pode se arrastar por muito mais tempo do que o esperado, pois não há uma solução bipartidária no horizonte. Isto também é resultado da política americana atual, onde os dois lados se afastaram do centro e tem dificuldade de se acertar dentro de uma agenda mínima. O espaço para negociação, neste caso, diminui e o estabelecimento de impasses desta envergadura se estabelece.

Obama não possui uma política externa de alta envergadura. Precisa de resultados na política doméstica, mas governa um país extremamente dividido e um Congresso que é um reflexo disso. A eleição de Obama é também uma tradução desta realidade. Ele lida com um Congresso difícil, mas sempre faltou a este Presidente uma maior habilidade de lidar com o Parlamento. Muitos alertaram para os riscos de sua empreitada na área de saúde, mas ele resolveu comprar a briga. Venceu todas as batalhas políticas e jurídicas até aqui para implementar o Obamacare. Falta a última. Depois de aprovar e legalizar, agora precisa financiar. Sem maioria parlamentar, precisará negociar.

segunda-feira, setembro 30, 2013

Shutdown

Os americanos estão a prestes a ver o governo fechar muitos de seus serviços a partir desta terça-feira. Se o Congresso não aumentar o teto da dúvida, o Executivo terá que começar a parar de funcionar. Isto terá reflexos negativos na vida da população, mas também terá desdobramentos políticos e chegou no ponto que está, sem dúvida, pela falta de habilidade política de Barack Obama.

Os republicanos usam seus votos, neste momento, como arma política contra o Obamacare. Na verdade dizem que votam o aumento do teto, se for excluído da pauta o financiamento do projeto. Obama disse que não negociará qualquer alteração. O impasse está formado. Se não acharem um meio-termo ou qualquer um dos lados ceder, o governo começa a parar de funcionar amanhã, pois não haverá recursos para pagamento de serviços. Em 1996, durante o governo Clinton, o administração federal teve um shutdown de 23 dias.

Por certo o caminho do radicalismo de ambos os partidos, que tomaram suas agendas nos últimos tempos, não é o caminho a seguir. O atalho do bipartidarismo para a solução de problemas graves está sumindo na medida que o fosso entre republicanos e democratas aumenta aqui em Washington e Obama não contribui de forma alguma para a melhora desta situação. Ao invés de procurar uma solução negociada, parte para o enfrentamento.

Mas o problema é mais sério. O aumento do gasto público nos Estados Unidos está alcançando um ponto perigoso. Vejam o crescimento nesta tabela. A introdução do Obamacare, aumentando a despesa, realmente é motivo de preocupação entre os americanos. Cresce o poder e os gastos do Estado em um país onde seis em cada dez americanos acreditam que já passou do limite do razoável.

Obama não possui maioria na Câmara, mas no Senado tem tranquilidade para passar suas iniciativas. Por certo muitos republicanos querem dificultar a vida do Presidente, mas sempre existem grupos menos ponderados nos dois espectros políticos. Falta ao Presidente americano criar uma ponte com os moderados para temas importantes. Falta a habilidade política que sobra na campanha na relação com o parlamento.

No passado, quando senador, Obama disse que a necessidade de aumentar o teto da dívida, mostrava um país com falta de liderança. Disse que era um sinal que o governo dos Estados Unidos não consegue pagar suas próprias contas e tinha, portanto, a intenção de votar contra o aumento do teto da dívida. Pois bem, hoje ele está no Salão Oval e tem nas mãos a grande chance de fazer algo diferente. Não fez. A partir de amanhã, o governo começa a parar.

sexta-feira, setembro 27, 2013

O Incrível Vôo de Galinha Tupiniquim

O assunto não poderia ser outro. A capa da revista inglesa The Economist. Em 2009 a mesma publicação celebrava o potencial do Brasil. Enquanto o mundo vivia uma crise econômica, o nosso país crescia e tinha eventos grandiosos pela frente, as Olimpíadas e a Copa do Mundo, além do Pré-Sal. Poderia ser a década do Brasil. O governo brasileiro celebrou a matéria com entusiasmo, enquanto outros mais céticos com o rumos dos acontecimentos, onde me incluo, levantavam incertezas quanto a concretização deste potencial.

O Brasil decola, dizia a capa. Quatro anos depois, a pergunta é: "O Brasil estragou tudo"? A resposta é simples: sim, estragou. Mas qual é a novidade? Na verdade fica difícil entender a perplexidade de alguns com o rumo tomado pelo País, afinal os dados estão aí, os analistas continuam a publicar suas avaliações e há tempos alertamos para o que se desenha. Mas como dizem por aí somos da turma do contra, pessimistas, daqueles que torcem para tudo dar errado e não vemos os progressos do governo, especialmente na área social.

Na verdade há muito pouco progresso para ser comemorado. Melhorar os indicadores sociais não significa tornar parte da população dependente de mesada do governo. As mudanças precisam ser mais profundas e conjunturais. O Brasil nunca se atreveu a fazer isso. Na colheita dos frutos da estabilidade do Real, o governo Lula, e depois Dilma com mais intensidade, começaram a desarrumar aquilo que estava começando a tomar uma forma de país. Não havia dúvida que a falta de regras, desorganização da economia, conivência com a corrupção e o papel do Estado como indutor do desenvolvimento levariam a uma situação de desequilíbrio.

Vivemos uma realidade mascarada pela maquiagem de um governo que se sustenta em três pilares: mesada estatal para o pobres, concurso para a classe média e subsídio para os ricos. Mas a economia é uma ciência com suas próprias regras e a farra com dinheiro público terá um custo que começará a ser cobrado já em nosso tempo. Nossa complacência com este modelo é um ato perigoso para as futuras gerações. Se você optou por criar seu filho no Brasil, boa sorte. Você está deixando um conta que ele irá pagar também.

O Brasil perdeu mais uma oportunidade, como sempre. Não será a primeira, nem a última. Faltou competência para organizar uma simples Copa do Mundo e uma Olimpíada. O marco regulatório do Pré-Sal afastou os investidores sérios. A inflação está de volta. Isso só para ficar no básico. O vôo que alçamos é um vôo de galinha, como já lembrava o conceituado cientista político Paulo Kramer. Antes do entusiasmo se instalar, ele já previa que aquilo que viria seria um exercício pífio de crescimento. Mas  somos minoria. Não nos contaminamos pela euforia do inconsciente coletivo. Os problemas do Brasil continuam os mesmos. Enquanto você lê este texto, Dilma se recuperou do desgaste nas manifestações e as pesquisas mostram que ameaça vencer no primeiro turno. Tudo como dantes no quartel de Abrantes.

quinta-feira, setembro 26, 2013

União Republicana

Esta semana pode ter se tornado um marco para o partido republicano. O senador do Texas, Ted Cruz, discursou em pé durante 21 horas contra o sistema de saúde que será introduzido pelo governo Obama, o chamado Obamacare. Cruz não reverterá a decisão, tampouco sua atitude teve qualquer efeito prático, mas quando o senador do Kentuky, Rand Paul, chegou para apoiá-lo, percebemos que uma mudança, mesmo que tímida, no GOP está em curso.

Os republicanos vem perdendo eleições e controle do Congresso. A falta de união evidenciou aos poucos as várias vertentes do partido. De um lado, existem os mais conservadores, com forte influência no Sul, mas votos por todo país. Do outro lado uma nova geração de libertários. Ambos, entretanto, concordam com uma coisa: o governo é grande e influente demais. Vale lembrar que 6 em cada 10 americanos pensam a mesma coisa.

Esta divisão dentro do Grand Old Party (GOP), como são chamados os republicanos por aqui, enfraqueceu o partido. Se alguma atitude não for tomada, os democratas levarão a Casa Branca mais uma vez, devido a fragmentação dos republicanos. Ted Cruz é a atração da ala mais conservadora, chamado de Golden Boy do partido. Rand Paul é o incontestável líder dos libertários. O encontro destas duas novas lideranças pode levar o partido a um reencontro interno.

Ted Cruz, por mais que seja um novato no Congresso, já é considerado um líder no partido. Anunciou que nesta semana faria um discurso contra a iniciativa de Obama na saúde até não poder ficar mais de pé. Permaneceu ali durante 21 horas. Quem apareceu mais de uma vez foi Rand Paul. Apoiou o colega e iniciou a construção de uma ponte que pode levar a união dos republicanos.

Claro que a inveja tomou conta de alguns antigos falcões do partido, ainda em atividade, que protestaram contra a atitude de Cruz. Entretanto, o efeito midiático de sua atitude, aliado ao seu estilo de liderança, pode gerar mudanças internas nos republicanos. Certamente o ato de Cruz não inviabilizará o Obamacare. Os reflexos serão muito mais internos do que externos. Talvez o nome dos republicanos não seja Cruz, nem Paul, mas a ponte criada entre os dois pode servir para o próximo candidato unir o GOP.

quarta-feira, setembro 25, 2013

Gerenta na ONU

Dilma perdeu mais uma enorme oportunidade de fazer diplomacia em favor do Brasil. Preferiu fazer política doméstica no fórum político internacional mais importante do mundo. Sua mensagem não foi ouvida, tampouco repercutiu. O impacto da sua fala na imprensa americana pode ser considerada nula. O Brasil perdeu mais uma grande oportunidade de ser ouvido no mundo.

O objetivo foi jogar para a torcida e fazer coro contra os Estados Unidos. Acusou os americanos de espionagem e cancelou sua viagem para encontrar Obama na Casa Branca, em visita oficial de Estado, regabofe para qual o Brasil não é convidado desde a Presidência de Fernando Henrique, em 1995. O que Dilma esqueceu de contar na ONU foi que, desde novembro de 2010, o governo engavetou o projeto de política nacional de inteligência, que cria as bases para que o Brasil se previna contra ações de espionagem. Coisa simples para quem esperneia que foi espionada por países que possuem tais diretrizes. Dilma foi espionada, entre os coisas, porque faltou competência para seu governo levar adiante o marco regulatório que poderia evitar tais bisbilhotices. Culpa que faltou assumir.

Dilma deve ter tido tempo de refletir sobre o assunto quando voltou para o hotel St. Regis, onde ela se hospedou (infelizmente a suíte presidencial solicitada pelo governo brasileiro estava já ocupada) na suíte assinada pela joalheria Tiffany & Co, de três quartos com uma equipe de mordomos que fala português, claro. O contribuinte brasileiro pagou a diária de US$ 10 mil, o que não dá para precisar em reais, em função da flutuação do dólar, mas algo em tono de R$23 mil a R$ 26 mil reais, mais IOF de 6,38%, se pagou com cartão de crédito brasileiro, corporativo da Presidência, claro.

Enfim, Dilma poderia ter sido mais chefe de Estado e menos chefe de governo, mas é pedir muito para a Presidenta. Poderia ter falado de relações exteriores, das leis de acesso a informação pública em vigor no Brasil, engajar o país diplomaticamente em questões relevantes, falar sobre os atrativos do Pré-Sal e dos preparativos para os eventos mundiais que hospedará nos próximos anos. Mas para isso precisaria fazer um curso rápido, pelo menos, com o ex-presidente FHC. Coisa fora de questão. Mas ficou difícil para Dilma, pois o Brasil começou a fazer água. O marco regulatório do Pré-Sal acaba de mostrar sua ineficiência. Faltam regras claras em um país onde os corruptos não vão presos e a infra-estrutura, mesmo recebendo eventos do porte que vamos receber, ainda é precária.

Realmente Dilma não tinha o que vender. O Brasil coleta fracassos. Perde uma década de ouro que poderia ajudar o país a se levantar aos poucos. Realmente é mais fácil jogar para a torcida, que se ilude com palavras de uma gerenta que ecoam somente nesta nação, que cada vez mais faz questão de ser esquecida, na longínqua América do Sul. Bom mesmo é bradar contra Obama e ficar no St. Regis, afinal, o tal gigante dorme em berço esplêndido.

segunda-feira, setembro 23, 2013

Mutti Über alles?

Foi uma vitória maiúscula para Merkel. A CDU/CSU avançou e massacrou o SPD. O democratas-critãos beiraram os 42%. Os social-democratas chegaram em 25%. A diferença foi grande. Chegou a ser cogitada uma histórica maioria absoluta (mais de 50% do Parlamento), o que seria até possível dentro do intricado sistema político alemão. A CDU/CSU poderia chegar quase lá, com cerca de 301 dos 606 parlamentares do Budestag. Se não for este número, será perto.

Mas é uma vitória amarga para a Mutti. Ela perde o controle do Bundestag. Nas últimas eleições ela angariou 33,8% e os parceiros liberais do FDP 14,6%. Foi um número suficiente para que Merkel governasse em coalizão com seus parceiros preferidos, de ideologia política similar. O problema desta vez foi a falta de votos para o FDP que chegou apenas a 4,8% e sequer fará parte do Bundestag. A perda de força dos liberais nas urnas já era esperada, mas apesar de a CDU ter fortalecido sua musculatura, não foi o suficiente para compensar a perda de votos dos liberais.

No jogo político isto conta muito. Na verdade, apesar da vitória maiúscula de Merkel, com mais votos diretos do que na eleição anterior, ela perdeu o controle pleno do Parlamento. No Bundestag haverá mais oposição do que havia até ontem. Em número de deputados a coalizão governista sai enfraquecida.

Se sozinhos, o democrata-cristãos tivessem alcançado a maioria absoluta, seria um feito que não se repete desde a eleição de Konrad Adenauer em 1957. Faltou pouco. Mas um pouco que teria feito toda a diferença. De qualquer forma, ela entra para a história como sendo a terceira Chanceler no pós-guerra a vencer três eleições em sequência.

Voltando ao Busdestag, que elege a Chanceler. A CDU/CSU deve chegar a 41,5% dos votos. Dentro do sistema alemão, uma votação um pouco superior poderia fazer, mediante os cálculos eleitorais, a CDU chegar a ter maioria absoluta. Não aconteceu. O FDP, como não chegou aos 5%, ficará de fora do Parlamento. Merkel não pode contar com os 4,8% recebidos por eles. Do lado oposicionista, a soma dos três partidos que entram no Parlamento são: SPD (25,7%), Verdes (8,03%) e Esquerda (8,6%) somam 42,6%. Como disse, o consórcio governista, com 41,5%, perdeu a maioria no Parlamento.

A saída é formar uma coalizão com um dos partidos de oposição e formar maioria. Entretanto, neste caso, a agenda política de Merkel vai sofrer alterações. Ela precisará abrir espaço no governo para seus adversários, provavelmente do SPD. Da possibilidade de uma maioria absoluta, Merkel terá que na realidade governar em coalizão.

A vitória foi bonita, mas na prática uma vitória com resultados práticos muitos ruins. A maioria se foi, assim como uma agenda livre de imposições da oposição.

quinta-feira, setembro 19, 2013

Sumiu o Decano

A decisão de Celso de Mello no caso do Mensalão vai além dos aspectos jurídicos. Sua decisão, na qualidade de ministro do Supremo Tribunal Federal, será sempre permeada por aspectos políticos. Talvez esta nuance não tenha ficado clara. Celso dizia que era mais um a votar. Errou. Não era. Na qualidade de decano, seu voto possui um viés qualificado. Vota por último exatamente em função disso. Sua posição hierárquica na corte é tão grande que sua decisão pode vir a mudar votos de juízes novatos. Assim, Celso de Mello não considerou dois aspectos em seu voto: o viés político e sua posição como decano.

O ministro não diverge sobre o mérito. Foi um dos mais contundentes votos pela condenação. Durante o julgamento usou sua condição de decano, o que faltou na admissibilidade dos embargos. Ontem deixou o mérito de lado, pois sabe que sua decisão formal enterrou o seu próprio julgamento sobre os fatos. No aspecto político, deixou claro que não seria influenciado pelas ruas. Mas na verdade as ruas não falaram. O tal gigante se revirou na cama durante um sono profundo mas não se acordou. Caso tivesse acordado e tomado a Praça dos Três Poderes na tarde de ontem, se no final de semana as manifestações tivessem tomado o Brasil pedindo a condenação dos réus, aí sim poderíamos falar em pressão da opinião pública. Na verdade, não houve pressão. As manifestações do meio do ano não tinham foco, tampouco objetivo ou liderança. Irão se perder no tempo antes da próxima eleição.

Celso de Mello enterrou a possibilidade dos condenados enfrentarem o cárcere. Este foi seu movimento político. Talvez tenha sido menos legalista e mais político do que ele próprio imagina. Sua decisão possui reflexos políticos da mais alta importância para o Brasil, seja de um lado do espectro ou de outro. Par uns, o Brasil acabou. Para outros, embalou na direção para onde sempre rumou.

Os reflexos políticos do voto do decano estão ligados ao futuro eleitoral. Uma condenação e prisão dos petistas envolvidos nas falcatruas do Mensalão teriam reflexo nas eleições do próximo ano. Repetiriam-se as cenas dos condenados sendo presos e a proximidade de todos com o poder. O desgaste do petismo seria inevitável. Com a decisão de ontem, nada muda. Os reflexos não serão sentidos e pavimenta-se cada vez  mais a reeleição de Dilma ou a volta de Lula, como o petismo preferir.

O fato novo seria uma indignação da classe média que aos poucos se espalhasse pela população. O sentimento e vontade do novo. Este é um problema, pois cria a chance de aventureiros chegarem ao Planalto. De qualquer forma, hoje, se um movimento desta envergadura se consolidar, o que acho difícil, teriam em Marina Silva e Joaquim Barbosa seus baluartes políticos. O Ministro do Supremo parece não pensar na possibilidade. Mas Marina Silva pensa dia e noite.

Celso de Mello manteve o Brasil no seu rumo. No caminho de sempre. Acomodados como mostra a história recente, afinal ele é produto deste meio. Faltou entender que ele não era apenas um juiz em Tatuí, mas o decano com o voto mais político da história do Supremo nas mãos.

Viagem Cancelada. Oportunidade Perdida

Dilma deveria aprender com Putin. Mas sejamos sinceros, a Presidente nunca foi uma política, portanto, não podemos esperar movimentos deste tipo vindos do Palácio do Planalto. Ela é uma ideóloga, como sempre disse, que ainda carrega no coração traços forte do pedetismo desenvolvimentisa de Brizola e na cabeça é embalada pelos novos companheiros petistas que a conduziram ao Planalto. Dilma é um produto desta realidade e seu governo é a maior tradução deste estado de coisas.

Na própria política doméstica Dilma sofre dificuldades. Falta entrosamento com os parlamentares, assessores e ministros. Dez entre dez pessoas que lidam com o governo em Brasília sentem falta pessoas como Lula e Fernando Henrique, cada um em seu patamar, mas ambos hábeis no jogo político e nas negociações com parlamentares.

Assim, o cancelamento da viagem da Presidente aos Estados Unidos traz um pouco de todos estes traços. Joga para a torcida, apontando um inimigo comum, movimento político já traduzido por Hayek em sua obra "O Caminho da Servidão" há tempos atrás. Acalma o petismo mais ideológico, que enxerga uma espécie de troco contra um suposto imperialismo que permeia o pensamento esquerdista e conforta o pedestimo ardente no coração de Dilma.

Contabilizado tudo isso, nos perguntamos sobre os desdobramentos práticos. Perdem os negócios, que necessitam do acerto de regras e negociações entre os dois mandatários. Perde também a diplomacia, que deixou escapar, mais uma vez por um ranço ideológico, a oportunidade de traduzir em ganhos políticos uma situação desfavorável.

Todos os países realizam espionagem. Rússia, China, Estados Unidos, Reino Unido, inclusive o Brasil. Assim como os chineses, os americanos foram pegos. Existe aí uma possibilidade de fazer render esta situação em favor do Brasil. Nosso país poderia contar com a simpatia e movimentos da diplomacia americana em um sem número de casos. Colocados na mesa, servem como instrumentos de negociação política na esfera internacional. Foi perdida a oportunidade de traduzir em ganhos políticos internacionais um vacilo dos americanos.

Enquanto governos forem refém de situações ideológicas, não existirá margem de negociação diplomática. Putin entende bem disso. É antes de tudo um pragmático. Coloca a Rússia em primeiro lugar e dentro da arena internacional consegue articular com habilidade incomum a posição de seu país, traduzindo em ganhos situações desfavoráveis. Perspicácia que falta a nossa Presidenta e o grupo de ideólogos em torno dela.

sexta-feira, setembro 13, 2013

Ficou Feio para Obama

Ficou feio para Obama. Depois de Putin ser responsável por uma virada política espetacular no caso sírio, o russo apareceu no New York Times com um artigo contundente ensinando os americanos a fazer política externa.

A reação aqui em Washington foi de todos os setores políticos, afinal não é todo dia que um dirigente russo empareda o Presidente norte-americano desta forma. Os setores mais moderados taxaram a situação de humilhante. Os conservadores acusam Obama, depois de perder o controle político interno, agora ser incapaz de ditar a política externa.

O timing da aparição do artigo no New York Times foi perfeito para Moscou, afinal, na noite anterior Obama tinha vindo a público explicar o caso sírio para os americanos e apresentar as razões de uma possível retaliação a Damasco. O artigo de Putin, na manhã seguinte, fez todos esquecerem que Obama sequer havia estado na televisão.

Putin, em seu artigo, fala da Guerra Fria, da importância do Conselho de Segurança, de ações multilaterais e do caso sírio, alertando para o fato de que as armas químicas podem ter sido usadas pelos rebeldes e entre eles existem dois grupos considerados terroristas pelo Departamento de Estado americano. Depois disso, toca nas feridas do Iraque, Afeganistão e Líbia. Agradece ao Presidente Obama por aceitar a mediação russa e por fim deixa um recado para os americanos, que se acham excepcionais: Deus criou todos iguais.

O artigo mostra que o líder russo está totalmente no controle da situação, como foi confirmado por um conselheiro da Casa Branca. Putin tomou a frente diante da indecisão e lentidão de Obama. Politicamente o Presidente abriu o flanco para que o russo se colocasse como o fiel da balança. Washington começou a semana empenhada em passar uma resolução no Congresso autorizando a guerra e chega na sexta-feira com John Kerry negociando um acordo em Genebra com o chanceler russo Sergei Lavrov. Levada pelos acontecimentos, a administração democrata mostrou falta de rumo e convicção, vacilante com uma biruta que muda ao sabor do vento.

Em suma Putin precisou de três dias para mostrar aos americanos a falta de convicção de seu líder. Como bom político, encontrou um vácuo e soube se posicionar. Depois de forçar os americanos a sentar na mesa e negociar, o antigo agente da KGB, acusado de fraudar eleições, caçar jornalistas e perpetuar-se no poder, subitamente passa a dar lições de democracia e multilateralismo ao Presidente dos Estados Unidos por intermédio do New York Times. A América sentiu-se humilhada, com razão.

quinta-feira, setembro 12, 2013

Saída Honrosa

"Obama busca sair desta situação que se meteu", me disse ontem um antigo conselheiro do governo Bush. Sem dúvida, é isso que o Presidente busca. A falta de apoio de uma coalizão consistente, dos britânicos, de uma resolução do Conselho de Segurança ou autorização do Congresso fizeram do Presidente um refém de suas promessas de limites e um líder vacilante perante os últimos acontecimentos. O imponderável, contudo, fez sua aparição e a ajuda veio de onde ele menos esperava: Moscou.

A proposta de Putin, por mais seja uma jogada política do líder russo, livrou Obama de uma triste derrota no Capitólio. No Senado poderia até conseguir a maioria, mas na Câmara sofreria uma derrota histórica. Agora, com a proposta russa na mesa, Obama preferiu segurar a votação. Foi prudente.

Putin deseja que Assad permaneça no comando da Síria. Muitos falam dos motivos econômicos russos para que isso permaneça como está, mas Moscou pensa mais adiante. Os motivos são outros. Putin sabe que lida na Chechênia com extremistas muçulmanos, de vertente sunita, os mesmos que podem chegar ao poder em Damasco caso Assad seja enxotado por forças americanas. A Síria se tornaria um campo de treinamento de terroristas chechenos que visam causar pânico na Rússia com vistas a independência de seu território. Este é um problema que Putin não deseja comprar. Esta posição russa agrada Irã e Iraque, governados por xiitas, e mantém o equilíbrio de forças na região.

Agora, do lado americano, por mais que Assad seja um ditador que possua atrocidades na biografia, é preciso se perguntar se realmente vale a pena a mudança de regime para os interesses americanos. Sete dos nove grupos que se opõe a Assad na Síria tem fortes ligações com a Al Quaeda. Caso Assad seja removido do poder uma ação militar, todo o arsenal químico do ditador sírio poderia cair nas mãos da Al Quaeda, o que não interesse Putin e tampouco os americanos.

Obama criou um problema para si e para o Ocidente quando determinou um limite para Assad. Enfraquecer o ditador sírio, muçulmano alauíta, apoiados pelos cristãos que vivem na Síria, e fortalecer grupos muçulmanos extremistas sunitas que visam tomar o poder, pode não ser a melhor alternativa. No Iraque, vale lembrar, ao custo de milhares de vidas de soldados americanos, subiu ao poder um governo muçulmano xiita aliado aos aiatolás iranianos. É preciso se perguntar se valeu a pena.

É hora de ponderação. Talvez manter o equilíbrio de forças existente na região seja o que mais interessa. Por mais que Obama diga que um consenso somente pode estar sendo desenhado em função da ameaça de guerra, sabemos que pode ser o contrário. Compelido a agir diante do movimento russo, Putin pode ter salvado Obama do pior: de se meter no atoleiro da guerra e ter inimigos dos Estados Unidos controlando as armas químicas de Assad.

quarta-feira, setembro 11, 2013

Eleições na Alemanha

A Alemanha enfrenta eleições muito importantes no dia 22. Sem dúvida o resultado mais importante e aguardado do ano, pois das urnas podem emergir os caminhos que a Europa tomará para sair da crise e também o futuro do Euro.

Angela Merkel tem aprovação na casa dos 60%, mas isto não quer dizer que ela terá uma eleição tranquila. O sistema eleitoral alemão pode pregar peças nos mais preparados analistas. O fato é que parece consenso que Merkel seja reconduzida, mas sem maioria absoluta. Ou seja, mesmo com aprovação de 60%, seu partido, CDU, não chegará a eleger 50% do Bundestag. Para formar um governo, precisará chegar aos 50% do parlamento aliada a outro partido - neste momento, a questão mais importante.

Merkel disputa seu terceiro mandato. Vem de quatro anos muito tranquilos, pois governa em coalizão com um parceiro em sintonia, os libertários da FDP. Entretanto, nos primeiros quatro anos teve que governar em coalizão com os social-democratas, do adversário SPD -  o que levou a implementação de uma agenda mais restrita. O receio é que a situação de oito anos atrás se repita e que Merkel tenha que montar um gabinete dividido com os social-democratas mais uma vez. Limitará muito sua linha de ação.

Este receio é real por dois motivos. O libertários tem perdido muito terreno. O FDP encontra-se muito fraco e talvez não alcance o número de votos suficientes para ajudar a CDU a chegar aos 50% do Bundestag ou mesmo entrar no parlamento. A outra é que a CDU sofreu derrotas importantes para o SPD em pelo menos cinco eleições estaduais, como na Baixa-Saxônia. No total foram 12 estados onde Merkel não alcançou maioria. O SPD passou a chamá-la de "rainha sem país", já que apesar das derrotas, ainda contava com alta popularidade. A dúvida é se as derrotas estaduais serão suficientes para abalar os votos da coalizão de Merkel nas eleições federais.

Existe também um outro cenário. Se o SPD reverter o favoritismo de Merkel (40%) usando como estratégia as eleições estaduais, é possível que os social-democratas (28%), aliados ao partido de esquerda, Die Linke (8%), e aos Verdes (entre 11% e 15%), alcancem os 50%. Este seria o cenário mais preocupante para a Europa.

Apesar do favoritismo de Merkel, todos os movimentos desta eleição devem ser observados com muito cuidado.

terça-feira, setembro 10, 2013

Saída Russa

Tudo estava pronto. Os americanos preparados, Israel avisado. Mesmo sem a autorização do Congresso, os Estados Unidos partiriam para cima de Assad. Ataques pontuais para punir o regime sírio. Eis que aparece o secretário de Estado John Kerry em coletiva em Londres.

O que ele ele disse mudou inteiramente a dinâmica desenhada até aqui. Em resposta a uma jornalista, disse que se Assad colocasse seu arsenal químico sob controle e supervisão internacionais, os americanos repensariam o ataque.

Foi então que a diplomacia russa entrou em ação de forma rápida. Seguei Lavrov disse que colocará em pauta um plano para que os inspetores da ONU tenham liberdade plena para realizar suas inspeções. Em ato contínuo o governo sírio disse que via com bons olhos a proposta russa e está disposto a negociar uma saída dentre os parâmetros esboçados por Moscou. 

Isso tudo depois de Assad dar entrevista para a rede americana CBS, como sempre muito diplomático e cortês. Mesmo assim deixou claro que os americanos podem esperar tudo, se colocarem os pés na Síria. Ou seja, ameaçou que Irã e Hezbollah estão dispostos a retaliar interesses americanos caso seu país seja atacado. 

Enquanto isso um vacilante e perdido Presidente busca se localizar entre a mudança das peças no tabuleiro de xadrez. Obama, que buscava autorização do Congresso para atacar Assad, talvez tenha que deixar seu plano de lado, especialmente agora que Assad diz concordar com inspeções e que a Rússia tomou o controle da situação, como apoio de China e Irã. O Presidente americano está dizendo que a solução proposta por Moscou foi causada em razão da ameaça americana, ou seja, está tentando sair-se bem da situação.

Como Putin sabe muito bem controlar as peças no jogo, tudo indica que provocou um xeque em Obama. Os americanos não tem como seguir com um ataque havendo um plano de saída diplomática sendo negociado. Ao mesmo tempo, se funcionar, os russos sairão deste imbróglio como aqueles que evitaram o conflito e encontraram uma saída diplomática, levando a ONU de volta a Damasco. Se vai funcionar, bem, isso é outra história. O fato é que John Kerry, de forma desastrada, conseguiu tirar o regime de Assad da grelha.

Não devemos subestimar Putin. Tampouco superestimar Kerry, afinal, ele não é um Kissinger.

segunda-feira, setembro 09, 2013

Austrália Conservadora?

Tony Abbott é o novo chefe de governo da Austrália. Ele levou os conservadores a uma vitória histórica, devolvendo seu partido ao governo depois seis anos de gabinete trabalhista. Abbott é discípulo político de John Howard, que comandou com facilidade a política australiana por 11 anos.

A eleição de Abbott tem relação direta com os trabalhistas ou com as divisões internas do Labour Party. A desordem no partido que comandava o governo levou a uma divisão de poderes que desaguou na derrota deste final de semana. Eleito em 2007, o competente Kevin Rudd chegou a Camberra depois de mais de uma década de governo conservador. Mas apenas três anos depois veio o golpe de dento do partido, em 2010. Sua colega de Melbourne (onde se joga a política mais pesada da Austrália), Julia Gillard, colocou sua liderança em cheque. O partido ficou com Gillard e afastou Rudd do comando. Ela assumiu o governo. Neste ano, o caso se inverteu e Rudd retomou o governo nos últimos meses, mas apenas como uma alternativa viável para enfrentar as eleições. Não foi suficiente e os trabalhistas perderam o controle do parlamento.

Tudo isso, além de uma campanha competente do lado conservador, levou Abbott a uma vitória maiúscula. Terá maioria absoluta na Câmara e com isso irá empurrar a agenda de seu partido adiante. Seu estilo é muito parecido com o de Howard, apesar de ser menos carismático, o que certamente dará uma pegada mais populista, mas mantendo uma posição mais liberal em termos econômicos e uma posição conservadora em relação aos temas das liberdades individuais - como casamento gay, que estava na agenda dos trabalhistas.

O Labour, por sinal, enquanto governo, passou muito bem pelas crises internacionais e entrega um governo com desemprego na casa dos 5%. A Austrália cresce ininterruptamente há 22 anos.

Mesmo assim, não há dúvida que houve uma guinada conservadora, sob todos os aspectos. Agora é preciso entender o quadro com parcimônia. O gabinete trabalhista vinha de anos de lutas internas pelo poder, o que desgastou de sobremaneira seus líderes e limitou a linha de ação de Rudd na campanha - com perdas em New South Wales e Queensland. É possível que se reorganizem e voltem fortes na próxima eleição. Do outro lado, sabemos que os conservadores são muito competentes na manutenção do poder. O futuro reserva momentos políticos interessantes na Austrália.

sexta-feira, setembro 06, 2013

Jeitinho Americano

Como a situação de Obama anda cada vez pior no Congresso, já se fala aqui em Washington de alternativas para o ataque caso fique claro que haverá veto quanto a decisão de intervir na Síria.

A estratégia mais clara no momento está em aproveitar o relativo bom momento que a proposição encontra no Senado. Por lá, tudo indica que Obama pode conseguir passar sua iniciativa. Ali existe uma maioria democrata que pode ser pressionada a apoiar o Presidente. Na mesma Casa também existem falcões do partido republicano que estão lado da Casa Branca nesta questão, como o senador John McCain.

O problema de Obama está na Câmara onde a possibilidade de derrota não é só real, mas se ocorresse seria um vexame. A oposição por lá é enorme, tanto entre democratas, quanto republicanos. O Presidente, John Boehner, apóia a intervenção, mas não se moverá para articular votos para aprová-la. A tendência hoje é de uma derrota humilhante. A conta é de 115 a 130 democratas a favor e 24 republicanos. A Casa Branca espera levar 60 votos do oposicionista GOP. É muito otimismo.

A opinião pública tem feito a diferença. Ontem mesmo o senador John McCain teve que enfrentar a fúria dos seus eleitores em Phoenix, no Arizona. O senadores são mais blindados, pois buscam votos por todo o estado que representam, já os deputados, eleitos por distritos, sofrem uma pressão mais direta e muitos estão acuados diante da pressão de seus eleitores contrários a uma intervenção na Síria.

A saída de Obama, no momento, é atacar logo depois da aprovação no Senado, como fez Bill Clinton em relação ao Kosovo, na década de 90. Isto liberaria os deputados do embaraço de votar a favor do conflito, mas também mandaria uma mensagem negativa para a opinião pública e para os deputados contrários a ofensiva, que ocupariam a imprensa para atacar o Presidente. Obama estaria pisoteando a Câmara. Pegaria mal. Mas é uma saída, um jeitinho americano que Obama busca, pois se precisar dos deputados, a tarefa será muito dura.

quinta-feira, setembro 05, 2013

Cálculo Político

Hoje cresce a percepção de que Obama segue enfraquecido entre os parlamentares. Ontem foi a primeira vitória, mas diante de um cenário preocupante. Mesmo na Comissão de Relações Exteriores do Senado, onde os democratas tem maioria, com apoio dos falcões republicanos, o placar foi apertado, com 10 votas a favor e 7 contrários.

O apoio da ofensiva entre a população continua em declínio e de olho neste dado, Marc Rubio, um dos mais fortes candidatos republicanos a cadeira de Obama nas próximas eleições, mudou seu voto. Agora é contrário ao conflito. Deve ter se lembrado como o voto a favor da guerra fez estragos na campanha de Hillary Clinton em 2008.

Mas haverá intervenção na Síria, seja com ou sem autorização do Congresso americano. Obama está decidido e Rubio sabe disso e sua mudança de voto tem relação direta com este cálculo político. A demora de Obama na espera de uma autorização do Congresso, revestindo seu ato de um suposto amparo democrático, abriu a possibilidade de Assad reposicionar seu arsenal e reorientar seus comandos. Acertar com clareza todos os depósitos de armas químicas não será tarefa fácil. A inteligência terá trabalho redobrado com esta demora.

Os parlamentares também pensam nas conseqüências. A intervenção no Iraque, do ponto de visto político, foi um desastre. Tirou um governo laico, identificado com os sunitas, e levou ao poder um grupo xiita que está aliado com o Irã. Na Síria, a eventual deposição de Assad poderá levar ao poder grupos ligados a Al Qaeda. Os cristãos sírios estão com Assad. Como se não fosse o bastante, o New York Times colocou hoje na capa uma foto, esta que ilustra este post, com a oposição síria executando aliados de Assad.

O Congresso precisa pensar muito se quer realmente dividir esta responsabilidade com Obama, mesmo com todo a força do lobby empresarial pró-guerra nos corredores. Se ele vai intervir com ou sem autorização do Capitólio, porque os parlamentares precisam colocar sua credibilidade em risco? Este foi o cálculo de Rubio. A maldição de Cameron ronda a Casa Branca.

quarta-feira, setembro 04, 2013

Vox Populi

Obama partiu para Suécia, onde está agora, e depois para Rússia, onde haverá uma reunião do G20. Em Washington ficaram os assessores e líderes do seu partido envolvidos nas conversas que visam aprovar a intervenção na Síria. O timing da viagem foi péssimo para o Presidente, que precisaria estar por aqui para conduzir as negociações.

Mas como escrevi ontem, o segredo do jogo está nos deputados que flertam com a reeleição no próximo ano e para isso, a tendência da opinião pública pode balizar mais seu voto do que a lealdade ao Presidente. Fazendo um paralelo, a derrota de Cameron na Câmara dos Comuns na última semana teve muito mais conexão com a tendência do eleitor britânico do que com as verdadeiras convicções dos conservadores que traíram o gabinete.

E nos Estados Unidos as notícias não são boas para Obama. Pouco a pouco as pesquisas mostram uma clara inclinação contrária ao pedido de intervenção. A NBC trouxe números que mostravam a situação empatada, com 50% para cada lado. Hoje, a pesquisa Washington Post/ABC trouxe números que começam a preocupar Obama. 59% dos americanos se opõe ao envolvimento de seu país neste conflito.  Entre os independentes, aqueles que verdadeiramente desequilibram uma eleição, a situação é ainda mais aguda: 66% são contra e apenas 30% aprovam.

A intervenção proposta por Obama perde também entre democaratas e republicanos. No partido do Presidente, 54% desaprovam. Entre os republicanos este número sobre para 55%. Logo, entre os democratas, a aprovação de uma ação militar tem o suporte de 42% e entre os partidários do GOP (Grand Old Party, como são chamados os republicanos por aqui), 43%. No cômputo geral, apenas 36% dos americanos aprovam a idéia de meter os pés nas Síria.

Estes são números que devem preocupar Obama, pois podem balizar de forma definitiva o posicionamento de muitos parlamentares que hoje se mostram indecisos. Joe Biden, o vice-presidente, que tem décadas de experiência no Congresso, ficou em Washington para tentar uma sintonia fina entre os indecisos. Tarefa árdua e difícil. Depois do Afeganistão e Iraque, o que os americanos mais querem é recuperar a economia. Uma outra guerra está fora de questão.

terça-feira, setembro 03, 2013

Política Interna

A política interna afeta a política externa. Obama jogou suas fichas nesta máxima quando decidiu buscar autorização do Congresso para intervir na Síria. É uma estratégia arriscada, como lembrei no post de ontem, especialmente para um Presidente que anda cambaleante em sua relação com o parlamento. Mesmo assim, foi a aposta do Presidente.

A conta que deve ser acompanhada é esta: os Democratas estão de olho em 17 assentos na Câmara e os Republicanos em 6 assentos no Senado. Isto é o que falta para cada partido virar a maioria de cada Casa nas eleições do ano que vem. Hoje, certamente a conta é mais fácil para os republicanos, não por precisarem de menos parlamentares para virar a maioria no Senado, mas porque, sendo oposição e com o governo paralisado, a tendência é de vitória. O trabalho dos democratas em virar 17 distritos é mais preocupante. Caso não consigam, o governo Obama permanecerá paralisado até o fim do seu mandato presidencial.

Mas o que tudo isso tem a ver com a Síria? Explico. Muitos dos distritos que se alternam entre vitórias democratas e republicanas podem virar dependendo do voto em relação a Síria. Em San Diego, na Califórnia, por exemplo, onde existem muitos veteranos das guerras do Iraque e Afeganistão, um voto em favor da intervenção na Síria pode acabar com as chances de reeleição do deputado democrata Scott Peters. Aqui nos Estados Unidos os distritos, que elegem os deputados, são duros na cobrança de posições coerentes e em defesa de sua comunidade. Assim como Peters, um número enorme de deputados, antes de qualquer coisa, está pensando em sua reeleição no próximo ano.

Assim, a estratégia de Obama tem sido atacar por cima o Partido Republicano. Angariou os apoios dos senadores John McCain e Lindsey Graham, do Presidente da Câmara, John Boehner e do senador Marc Rubio, que sonha com a candidatura presidencial em 2016. Alcança assim os falcões, mas o nicho libertário liderado por Rand Paul certamente votará contra a intervenção. Isto levará Obama a buscar fechar o próprio partido em torno de sua agenda, algo difícil, pois a lealdade ao Presidente hoje pode ser tornar a principal causa de derrota na tentativa de reeleição de 2014.

Em resumo, Obama, precisa garantir algo de muito valioso a esses deputados, algo que compense o voto pró-intervenção e tire o peso de seus ombros em 2014. Vejam que curioso, talvez o destino de Assad esteja nas mãos de um deputado do interior de Oklahoma.

segunda-feira, setembro 02, 2013

Nas Mãos do Congresso

Neste feriado por aqui, Washington parece vazia, mas os bastidores estão agitados. O Congresso permanece em recesso, mas as articulações são intensas. Ontem, em pleno domingo, 70 parlamentares estavam no Capitólio. Hoje, o senador John McCain se encontra com Obama na Casa Branca. O motivo é o pedido de autorização do Presidente ao legislativo para avançar sobre Assad. Um risco político que, mal calculado, pode trazer muita dor de cabeça para o Salão Oval.

Obama enfrenta resistências entre Republicanos e Democratas. Até seus pares dizem que buscar aval no Congresso é tentar empurrar o ônus da intervenção para o país inteiro, tirando a responsabilidade somente de seus ombros. Será uma votação dura, tanto na Câmara, quanto no Senado, com a tendência de ser mais apertada na Câmara, onde o republicano John Boehner, que comanda a casa, também comanda o show. No Senado, se o Presidente conseguir um acordo mais amplo com John McCain, que pode carregar votos importantes, a situação pode ser menos dramática.

Existe também o problema da retaliação, que pode vir tanto de Assad, como do Irã e possivelmente do Hezbollah. Ampliar o conflito seria preocupante e a imagem do Estados Unidos pode sair muito arranhada desta ação. Os parlamentares mais libertários, por exemplo, se questionam sobre a necessidade de os americanos se envolverem neste conflito, já que o Conselho de Segurança não passou resolução neste sentido, não será possível uma ação via Otan e também os principais aliados estão fora, como o Reino Unido. Uma ação solo, mesmo que acompanhada dos franceses, pode ser danosa para a imagem dos EUA e de Obama.

Mas a Casa Branca está em ação permanente no Congresso. Buscará esta maioria de qualquer forma. Uma derrota seria um desastre para Obama, que precisará agir sem autorização do Congresso. Isto mostrará que ele está passando por cima do legislativo e calibrará as candidaturas republicanas ao Capitólio em 2014. Foi uma jogada política muito arriscada. Se a votação fosse hoje, a tendência seria de derrota.

domingo, setembro 01, 2013

As Opções de Barack

Enfim, o homem que chegou ao poder com um discurso conciliatório, com a promessa de terminar guerras, subitamente encontra-se em uma encruzilhada entre história e realidade. Obama irá intervir na Síria.

Na sexta-feira passei pela frente da Casa Branca onde um número tímido de manifestantes mostrava-se indignado frente a decisão praticamente já tomada de intervenção. O número de turistas, entretanto, superava o de manifestantes em larga margem. Lá dentro, Barack Obama via-se em uma situação complicada. Sem apoio dos britânicos, sem aval do Conselho de Segurança, o Presidente percebeu que talvez tivesse que enfrentar o conflito no Oriente Médio somente acompanhado dos franceses.

A vida dá muitas voltas. Hoje, o Secretário de Estado, John Kerry, que fez campanha pelo fim da guerra no Iraque quando buscava o lugar de Bush no Salão Oval, é um brutal defensor da intervenção. O motivo? Armas de destruição em massa. A fonte? Informações coletadas pela inteligência. O mesmo roteiro que no passado levou os americanos para Bagdá. Na Casa Branca um Barack Obama que atacava George Bush por meter os americanos no Iraque, hoje advoga a necessidade de intervenção na Síria. Por fim, para fechar o jogo de ironias, o único aliado importante ao lado dos americanos é a França - principal opositora da intervenção no Iraque.

Enfim, Obama tentou uma coalizão. Não deu certo. Tentou o Conselho de Segurança. Não funcionou - lá estão China e Rússia, prontos para barrar qualquer iniciativa deste tipo. Sobrou o Congresso. O Presidente buscará o aval dos parlamentares para intervir. Conseguirá? Provavelmente sim, mas tudo indica que está disposto a chegar a Damasco mesmo sem o sinal verde do legislativo americano. John Kerry passará por todos os prestigiados programas políticos de televisão deste domingo para explicar este caminho.

Ao fim e ao cabo, Obama tenta fazer diferente, mas é provável que tome o mesmo caminho de George Bush. Nada como o tempo para repetir a história e mudar seus protagonistas. Nada como a realidade e a solidão do Salão Oval.