sexta-feira, agosto 03, 2018

Escolha Prudente

A escolha de Ana Amélia Lemos como candidata a vice de Geraldo Alckmin gera desdobramentos na política nacional e regional, especialmente no Rio Grande do Sul, terra da Senadora. Os ganhos para a chapa do tucano são inegáveis, pois ela é vista como um dos melhores quadros do Congresso Nacional e pode ajudar a finalmente alavancar os números do peessedebista na disputa.

O primeiro desdobramento ocorre dentro da sucessão gaúcha, aquele que irá escolher o novo inquilino do Piratini, e o nome que deve ocupar a cadeira de Ana Amélia pelo Rio Grande do Sul no Senado. O provável deslocamento de Luiz Carlos Heinze da disputa do Governo para o Senado tem várias consequências. A principal delas é o fortalecimento do nome do ex-prefeito de Pelotas, o tucano Eduardo Leite, que assume maior protagonismo na disputa e passa a contar com chances reais de vitória.

Com Heinze chegando para disputar a vaga de Ana Amélia no Senado, o jogo presidencial no Rio Grande do Sul também fica embaralhado, uma vez que o deputado do PP era o principal palanque de Bolsonaro no estado. A ideia era impulsionar a votação do capitão usando a enorme penetração do Progressistas nas cidades do interior. Nesta nova configuração, Heinze tem grandes chances de conquistar o Senado, herdando os votos de Ana Amélia, e Alckmin desmonta a principal base de apoio de Bolsonaro no Rio Grande. Uma manobra inteligente.

A eleição para o Senado, entretanto, não está decidida. Heinze precisará trabalhar para não correr o risco de ser surpreendido. Além do mais, os bastidores informam que os números de Ana Amélia não eram tão robustos como pareciam. Havia desconforto com alguns prefeitos e um racha na sua base de apoio no interior. Sua reeleição não era considerada garantida. Assim, explica-se em certa medida o aceite para ocupar a vice de Alckmin.

O impacto para o eleitorado da Senadora também não foi dos melhores. Como defensora da Lava Jato, muitos estranharam o acordo com Alckmin, que hoje carrega o centrão e possui ligações fortes com Michel Temer. A escolha de Ana Amélia distancia um pouco mais a chapa do governo, mas gera, especialmente para os apoiadores da Senadora gaúcha, uma sensação grande de desconforto.  Em caso de derrota, ela precisará reconstruir sua imagem.

O movimento de Alckmin é correto se considerarmos a velha política – sua aliança com o centrão. Desde o princípio vem trilhando este caminho. A aposta pode alçar seu nome ao segundo turno, entretanto, diante dos novos ventos na política e do ímpeto de renovação, surge na contramão da tendência do eleitorado. No papel, Alckmin está fazendo tudo certo, mas falta acertar com o eleitor, que vem rejeitando esta postura. Ana Amélia talvez seja a opção que mais aproxima Alckmin deste movimento, uma opção prudente. Se irá funcionar, somente as urnas irão responder.

quinta-feira, agosto 02, 2018

Coligação Promissora

Em mais um dia agitado desta corrida eleitoral destaca-se o movimento do Senador Álvaro Dias. Ele coligou o Podemos com o PSC, sacramentando a escolha de Paulo Rabello de Castro como vice da chapa. Álvaro faz um movimento certeiro na direção que sempre trilhou. Falta agora, sua campanha ganhar tração.

O Senador pelo Paraná, que possui uma das mais baixas taxas de rejeição, entra na disputa direta pelos votos de Geraldo Alckmin, ombreando com o ex-Governador de São Paulo pelos votos do centro e dos moderados. O candidato do Podemos, que possui enorme penetração nas redes sociais, leva uma vantagem. Posiciona-se como o nome moderado de centro que concorre apoiando abertamente a Lava Jato, sem carregar o peso do centrão ou do governo Michel Temer. Se Álvaro Dias conseguir embalar, pode viabilizar-se para o embate de segundo turno. 

A chegada de Paulo Rabello de Castro, um economista liberal, PhD pela Universidade de Chicago, agrega um verniz importante para a chapa. O nome do vice tem respaldo no mercado financeiro e uma imagem consolidada no cenário internacional. Se Álvaro chega na campanha representando uma postura independente, que sempre manteve no Senado, que se conecta diretamente com o eleitor e com as ruas, Paulo Rabello empresta a segurança para o investimento, alguém que acredita no Estado enxuto e no equilíbrio fiscal. 

Ademais o PSC, que possui forte conexão com o meio evangélico, certamente mobilizará suas bases em favor da chapa. Desta forma, Álvaro pode ganhar pontos valiosos nas pesquisas, impulsionando sua candidatura para um pelotão acima de onde está hoje em curto espaço de tempo. 

No papel, a aliança tem tudo para funcionar. Precisa agora transformar esta musculatura em resultados. Ao atingir o eleitorado de Geraldo Alckmin, os tucanos ganharam a concorrência de uma chapa pode atrapalhar seus planos de chegar ao segundo turno.

quarta-feira, agosto 01, 2018

Nova Pesquisa

A nova pesquisa divulgada hoje pelo Poder 360 nos mostra uma evolução do cenário da corrida presidencial. Precisamos sempre olhar o conjunto das pesquisas, enxergando o movimento em cada sondagem. Isto pode mostrar a tendência do eleitor e a consolidação das candidaturas, com viés de alta ou de baixa.

Os dados coletados no final de julho mostram mais uma vez a estabilidade de Bolsonaro em torno dos 20%. Lembro que este número pode ser um pouco maior, uma vez que muitos eleitores do deputado não declaram explicitamente o voto nele. No segundo pelotão, Ciro segue isolado no segundo lugar e Alckmin chega em terceiro com leve oscilação para cima. Nos últimos meses subiu de 7% para 9%, portanto ainda sem chegar a dois dígitos e dentro da margem de erro.

Alckmin, depois de toda a exposição na mídia e o anúncio do acordão com o centrão poderia ter crescido mais. Isto é um fator que deve ser levado em consideração em sua campanha, pois certamente, apesar do enorme tempo de propaganda, terá que se proteger dos ataques do PT, que tende a disputar uma vaga com o tucano no segundo turno.

Haddad, Marina e Álvaro estão no pelotão dos 5%. Marina decepciona pela baixa performance e o que impressiona é o voto em Haddad, sem anúncio de candidatura ou campanha, chegar aos 5%. Se for ungido candidato por Lula, o ex-Prefeito de São Paulo deve desidratar a candidatura de Ciro e escalar de saída a faixa dos 15%. A disputa com Alckmin pela segunda vaga se dará a partir deste momento.

A altíssima rejeição de todos os candidatos mostra o grau de distanciamento do eleitor da política. Esta será uma eleição marcada pela abstenção com enorme potencial de votos brancos e nulos e o segundo turno será um embate entre rejeições.

terça-feira, julho 31, 2018

Saldo Positivo

A presença de Jair Bolsonaro no Roda Viva agitou as redes sociais e levou o candidato mais uma vez para o centro das atenções e dos debates. Como sempre, aqueles que defendem e atacam Bolsonaro revezaram-se em mensagens e memes sobre a participação do deputado no programa.

O saldo foi muito positivo para Bolsonaro por vários aspectos. No Twitter, sua entrevista chegou ao primeiro lugar mundial dos trending topics. Foi gerada, mais uma vez, uma enorme exposição espontânea de seu nome, catapultada também por aqueles que atacam o candidato do PSL. Nos grupos de whatsapp, o embate dos anti e pró Bolsonaro reforçam a tese de que ele se consolida como um dos pólos desta corrida presidencial.

Também ficou claro que a estratégia de promover a candidatura pelas redes sociais tem encontrado ecos importantes, que podem apontar um rumo diferente das estratégias de comunicação das campanhas. Tudo indica que o uso das redes sociais de forma inteligente pode reduzir o prejuízo de não contar com mais do que apenas alguns segundos no horário eleitoral.

A postura dos entrevistadores, na ânsia de atacar Bolsonaro, acabaram contribuindo para alavancar ainda mais sua imagem. Com falta de perguntas técnicas e objetivas, os jornalistas centralizaram suas indagações nas questões de sempre, onde o deputado nada de braçada. Lembrou a atitude da imprensa norte-americana com Donald Trump, que ao tentar derrubá-lo, acabou tornando-se seu principal cabo eleitoral.

Enquanto muitos analistas sentenciam sua queda nas pesquisas, o candidato Bolsonaro, cada vez mais outsider, vai sobrevivendo e possui grandes chances de chegar forte ao segundo turno.

segunda-feira, julho 30, 2018

Aliados de Ocasião

Ainda existe um enorme ceticismo nos meios políticos sobre o movimento de Geraldo Alckmin de se aliar aos principais partidos investigados nas recentes denúncias de corrupção. Preferiu um acordo com as velhas oligarquias políticas e suas estruturas tradicionais de poder. A dúvida é se este movimento vai se traduzir em votos ou em mais desgaste. A certeza é sobre o potencial traiçoeiro de seus novos sócios.

Alckmin não era a opção de muitos caciques do centrão. Estes preferiam Ciro Gomes, enquanto outros ainda sonham com a volta de Lula ao ringue. Mas diante de uma perspectiva de uma boa divisão do butim do futuro governo assegurado pelo candidato peessedebista, acabaram embarcando na nau tucana.

A fidelidade dos novos sócios, entretanto, não é tão forte quanto parece. Na saída da reunião que selou o apoio do centrão a Alckmin, Ciro Nogueira, aquele que dá as cartas no Progressistas, disse que se Lula entrar no páreo, votaria no petista. Como se não fosse o bastante, outro movimento começou a preocupar o presidenciável tucano. Valdemar Costa Neto, que já indicou o vice de Lula, namorou com Bolsonaro e Ciro Gomes e tentou emplacar o candidato a vice de Alckmin, voltou a conversar com o PDT.

Isto significa que o acordo do ex-Governador de São Paulo com o centrão não está devidamente alinhado em todas as frentes. Os palanques estaduais seguem divididos com a tendência de apoio nacional para aquelas candidaturas que podem impulsionar a reeleição dos seus caciques e ajudar a formar uma boa bancada na Câmara. Nesta lógica, não importa a coligação nacional, mas a sobrevivência política regional.

Assim, se Alckmin não mostrar tração nas próximas pesquisas, o que ainda será difícil, corre o risco de cristianização. Na eleição presidencial de 1950, o PSD lançou o mineiro Cristiano Machado como candidato a Presidente. Com dificuldade em se viabilizar, foi abandonado aos poucos pelos aliados. Vítima de traições dentro de sua aliança e especialmente no seu partido, terminou a corrida em terceiro lugar, atrás do PTB e UDN. O apoio formal não garantiu apoio na prática. A manobra ficou conhecida na política como “cristianização”, o esvaziamento de um candidato em favor do concorrente. Hoje, Alckmin corre o mesmo risco.

Outro desafio do tucano está na viabilidade de Álvaro Dias. O candidato do Podemos carrega um valioso ativo do PSDB nas últimas eleições – o voto do Sul do Brasil, hoje canalizado para o paranaense. Álvaro ainda negocia o apoio de um bloco de nove pequenos partidos que somados podem entregar-lhe mais de 2 minutos no horário eleitoral. Se conseguir, a candidatura de Alckmin sofre mais um abalo.


Com Alckmin no papel, o centrão busca sua sobrevivência política. No momento que a perspectiva de poder mudar de lado, os novos aliados estarão prontos para desertar. Cabe ao tucano, reagir, sob pena de se tornar a mais nova versão de Cristiano Machado.

sexta-feira, julho 27, 2018

Infidelidade Política

O cacique do Progressistas, Ciro Nogueira, tenta emplacar o nome que deverá ocupar a vice de Geraldo Alckmin. Articula pela indicação de Margarete Coelho, Vice Governadora do Piauí.

Ciro, que tenta a reeleição para o Senado, é um dos nomes do centrão que divulgou ontem apoio aos tucanos, entretanto, na saída da cerimônia cravou que se o ex-Presidente Lula conseguir viabilizar sua candidatura, naturalmente votaria nele.

A intrigante declaração mostra o grau de confusão em que está metida a política brasileira. O manda-chuva do Progressistas, assim como Rodrigo Maia, preferia a candidatura de Ciro Gomes, mas respeitando a decisão da maioria dos caciques do centrão, aceitou a opção por Alckmin.

O consórcio de partidos chamado de centrão está em busca de poder e da divisão de cargos em um eventual governo do PSDB. Para isso, emprestou seus preciosos minutos de propaganda eleitoral para o tucano. Mas o ex-Governador de São Paulo precisa mostrar resultado rápido, sob pena de ser abandonado pelos novos sócios.

Alckmin precisa avançar nas pesquisas, o que não aconteceu até o momento. Somente uma consolidação da sua candidatura evitaria uma debandada dos aliados do centrão no decorrer da campanha. O tucano precisa mostrar real possibilidade de vitória e perspectiva de poder para manter estes partidos ao seu lado até o final.

Ciro Nogueira, que ao mesmo tempo tenta emplacar o vice de Alckmin, já avisou. Se Lula entrar no páreo, ele pula para fora do barco tucano. Este pode ser apenas o primeiro capítulo de um festival de infidelidade política. Se o tucano não mostrar tração, corre o risco de ver pulverizado o seu consórcio de apoios antes do apito final. Traição e política sempre andaram lado a lado.

quinta-feira, julho 26, 2018

Desistência Anunciada

Rodrigo Maia desistiu oficialmente de sua pré-candidatura presidencial. Assim, o Democratas ruma unificado para apoiar a candidatura de Geraldo Alckmin ao Planalto. A decisão não era consenso dentro do partido, que considerou vários candidatos antes de decidir pelo tucano. Maia era um dos nomes contrários a fazer uma aliança com o PSDB. Sua preferência sempre foi por Ciro Gomes.

Aquele que já foi um partido de corte liberal, o antigo PFL, hoje Democratas, tornou-se menor na medida que o petismo foi avançando pelo Brasil. O golpe final, que reduziu o tamanho do partido, foi a manobra de Kassab em fundar o PSD, uma ponte para aqueles que desejavam se aproximar dos governos do PT. Muitos embarcaram na idéia, outros ficaram no DEM.

Diante da lipoaspiração promovida por Kassab, o DEM entrou em uma fase de autorreflexão. Pensou em se fundir até com o PTB, um projeto que acabaria de uma vez com as bandeiras do partido, afinal pelo menos o PFL sempre produziu uma agenda diametralmente oposta ao trabalhismo. Passada esta fase, decidiu rumar sozinho e se reorganizou.

Com a chegada de Rodrigo Maia na Presidência da Câmara, o partido cresceu de importância, renascendo durante o ocaso do petismo. Menor em tamanho, decidiu aliar-se ao Centrão por instinto de sobrevivência. As urnas dirão se a estratégia irá funcionar.

Rodrigo nunca mirou a Presidência da República. Seu objetivo sempre foi fortalecer seu nome para a reeleição como deputado federal. Seu ápice de votos foi em 2006, quando alcançou 198 mil votos. Desde lá, os números vem ficando mais magros. Em 2010 fez 86 mil e em 2014 foi eleito com 53 mil. Em 2018, depois ocupar o palco da sucessão, espera recuperar o fôlego com seus eleitores para continuar na Presidência da Câmara.

quarta-feira, julho 25, 2018

Um Vice para Alckmin

No xadrez político da escolha dos vices, ainda ninguém se entendeu. Existem problemas em todas as chapas, do petismo, passando pelos tucanos e desaguando em Bolsonaro. Na dinâmica da política brasileira, chega a ser curioso a dança de cadeiras que pode levar adversários políticos a ocupar a mesma chapa presidencial.

É o caso do tucano Geraldo Alckmin. Apoiado por um conjunto de partidos heterogêneos, a escolha do vice se tornou uma batalha particular. O empresário Josué Gomes, primeiro cogitado, é ligado a Lula, de quem seu Pai foi vice e seria indicado pelo mensaleiro Valdemar da Costa Neto. Na lista ainda encontra-se Aldo Rebelo, que chefiou a articulação política de Lula e até pouco atrás dava expediente no PC do B.

Se quiser escapar do campo lulista, Alckmin pode buscar seu vice nas hostes democratas. Lá está Mendonça Filho. Para emplacar, entretanto, precisa convencer Rodrigo Maia a abrir mão de sua reeleição para Presidência da Câmara. O centrão jamais admitiria tanto poder na mão de apenas um dos sócios. Além do mais, Mendonça carrega o governo Temer para dentro da chapa, pois ocupou o Ministério da Educação até pouco atrás.

Certamente o melhor nome seria o da senadora Ana Amélia, mas para emplacar teria que ser indicada pelo seu desafeto, o manda-chuva do Progressistas, Ciro Nogueira, além de abrir mão de uma reeleição segura para o Senado.

Assim como foi com a chapa Dilma-Temer, a esquizofrenia da política brasileira mais uma vez tende a celebrar casamentos difíceis de serem engolidos pelos eleitores.

terça-feira, julho 24, 2018

Janaína fortalece Bolsonaro

A visão geral é de que Janaína Paschoal causou desconforto durante a convenção do PSL que lançou Jair Bolsonaro para Presidente. Falou em abrir debates, usando um tom mais conciliatório que a militância do deputado tem adotado. Optou por uma linha mais branda e apaziguadora. Falou em eleições e governabilidade.

Na contramão da maioria dos analistas, acredito que Janaína Paschoal é uma decisão estratégica muito acertada, pois fecha flancos que estavam abertos na candidatura de Bolsonaro. O tom escolhido também faz a campanha se aproximar dos mais moderados, necessários para chegar a vitória. Ela calibra a aliança, deixando a candidatura mais equilibrada. 

Janaína agrega por ser acadêmica, mulher e formuladora do impeachment de Dilma Rousseff. Blinda a candidatura de todos esses lados. Seu discurso, focado na luta contra a corrupção, tende a mobilizar uma importante parte do eleitorado, aquela parcela que nutre especial apreço pelos feitos da Força-Tarefa da Lava Jato.

Mais do que isso, com Janaína na vice, Bolsonaro encarna de uma vez por todas a roupa daquele que luta contra o sistema. 

Por certo Alckmin ganhou sobrevida com os minutos a mais de propaganda que conseguiu aliando-se ao centrão, entretanto, se o eleitorado continuar a mostrar sua face de rejeição aos políticos, isto será mortal para o tucano e pode funcionar de forma muito efetiva para Bolsonaro. 

segunda-feira, julho 23, 2018

Velha Política

A opção de Geraldo Alckmin pelo caminho da velha política pode, mais do que ser uma jogada de mestre, tornar-se o prenúncio de sua derrota. Diante de um eleitorado cético com a política tradicional, a opção pela aliança com o consórcio de partidos fisiológicos que orbitam o poder desde os primórdios do petismo até os estertores do emedebismo, pode ferir fatalmente a campanha do tucano.

Fernando Haddad e seus companheiros de partido saudaram a aliança. O provável nome petista na corrida presidencial fala com convicção que será uma disputa entre o projeto de Temer contra o projeto de Lula. Era tudo que o PT queria. Freguês do petismo desde 2002, os tucanos são os adversários dos sonhos de Haddad.

O prenúncio da estratégia petista faz sentido por muitos lados. O primeiro deles é que os aliados de Alckmin, somados ao tucano, sintetizam de forma clara o governo mais impopular que conhecemos, conduzido por Michel Temer. A esplanada, sob o comando do MDB, é um loteamento dividido entre PSDB, PSD, PTB, PP, PR, PRB, DEM, PPS e SDD. Portanto, Geraldo Alckmin vestiu a roupa do sistema e com ela irá desfilar em um pleito em que o eleitor clama pela renovação. O PT se aproveitará disso, repisando que Alckmin é na verdade o candidato de Michel Temer.

Por outro lado, é melhor os petistas disputarem o segundo turno contra seu sparring habitual, os tucanos, do que enfrentar o novo e o desconhecido. Jair Bolsonaro é um adversário muito mais difícil de ser batido no cenário atual, pois encarna o antipetismo e a antipolítica, dois sentimentos presentes no eleitor.

Além de agradar os petistas, o movimento de Alckmin também agradou Bolsonaro. Longe dos políticos tradicionais e com pouco tempo de propaganda, pode seguir com sua estratégia atual, agora carregando a credencial de antissistema, assim como fez Alexandre Kalil em Belo Horizonte. Lembro que nos outros pleitos presidenciais marcados pela rejeição aos políticos e a luta contra a corrupção, foram eleitos candidatos de partidos pequenos. É o caso de Collor em 1989, pelo inexpressivo PRN e Jânio em 1960 pelo minúsculo PTN.

Cauteloso, Alckmin fez a opção conservadora pelo caminho da política tradicional, uma característica que pode ser letal em momentos de transição política. A aliança com o centrão pode gerar efeitos reversos, tanto nos palanques estaduais, com dissidências trabalhando contra o tucano, como no plano moral, pois a presença de caciques que respondem a 13 inquéritos da Lava Jato sequestra o discurso ético de Alckmin.


Além do mais, o tucano precisará mostrar uma reação rápida, sob pena de ser abandonado pelos novos sócios. Conta com o tempo de rádio e TV para sacudir seus números, mas diante de tantos desafios, não será tarefa fácil. O fato novo, portanto, é uma reedição do velho, da política de compadrio, dos arranjos de bastidor e do jogo político que o eleitor se mostra cansado. Em uma eleição de práticas novas, Alckmin tenta vencer o jogo com a velhas armas da política.

domingo, julho 22, 2018

Candidato da Situação

A aliança em torno de Geraldo Alckmin carrega o odor da velha política. O ex-Governador de São Paulo conseguiu aquilo que sempre desejou, formalizar o apoio de um consórcio de partidos chamados de centro para a órbita de sua campanha. Seguirão ao lado dele PR, Progressistas, Solidariedade, Democratas, PTB, PRB e PSD.  

Se sobra habilidade política, falta sintonia com as ruas. Os números de Geraldo Alckmin ainda são pífios para quem deseja chegar ao Planalto. Na mesma época, quando concorreu em 2006, neste ponto da campanha, ele já pontuava ao redor dos 25%. Hoje, ainda não saiu de um dígito.

Diante da voracidade dos novos aliados, nos bastidores já é dada como certa e acabada a divisão de ministérios. Estariam agora no estágio de discutir o rateio do segundo escalão. Como atores do presidencialismo de coalizão, os partidos do centrão estão fazendo o papel de sempre, trocando o que tem, em troca de espaço em um novo governo.

A esperança é que o tempo de rádio e TV proporcionado pelos aliados possa sacudir os números de Alckmin. Esperam também que sua rede de prefeitos e parlamentares possa trabalhar pelo candidato, impulsionando-o para o segundo turno. No papel, a estratégia é a correta.

Mas nas ruas, o sentimento é outro. Quem tem estrutura partidária, não tem votos e aqueles que carecem deste ativo, lideram as pesquisas. Enquanto alguns analistas dizem que o vencedor é aquele que irá avançar sobre o voto dos indecisos, vemos que nas últimas eleições suplementares para governador, os indecisos preferiram a abstenção. Acreditar que os indecisos, aqueles que estão desiludidos com a política, irão aderir ao candidato do establishment é uma crença duvidosa.

Geraldo Alckmin vestiu a roupa do sistema e com ela irá desfilar em um pleito em que o eleitor clama pela renovação. O ex-governador de São Paulo chegará ao pleito apresentando mais do mesmo, ou seja, partidos envolvidos em corrupção que carregam o peso da rejeição entre os seus líderes e que exigem a manutenção do modelo cartorial que levou o país aos maiores escândalos de corrupção da sua história.

No plano interno, agora os partidos lutarão para acomodar a decisão nacional em suas bases. Alianças regionais terão que ser revisitadas, apoios devem ser repensados, levando o processo inteiro a um realinhamento geral. Mas enquanto dentro da política estes acordos ainda servem de combustível, do lado de fora cresce a sensação de que estamos diante da reedição de uma história que não agrada o eleitor.


Diante das alternativas, Alckmin fez a opção pela velha política. Se irá funcionar, somente o tempo dirá. A esperança de que o Brasil não irá mudar foi renovada mais uma vez.

quarta-feira, julho 18, 2018

Um Vice para Bolsonaro

Jair Bolsonaro, que lidera as pesquisas de intenção de voto, tem encontrado dificuldades para alinhar um vice com as características que deseja. A primeira conversa foi com Magno Malta, o preferido para ocupar este posto. O Senador, filiado ao PR, no entanto preferiu renovar sua cadeira do que embarcar na chapa presidencial. Seu partido também ficou mais longe de um acordo com o PSL.

Partiu-se então para opção do General Heleno, que comandou as forças brasileiras no Haiti e tem ajudado Bolsonaro na campanha. Mas Heleno é filiado ao PRP e o partido já tem apoios fechados em diversos estados que estão desalinhados com a candidatura do PSL. Na Bahia, por exemplo, o PRP está no palanque do PT.

A estratégia de Bolsonaro é escolher um vice que esteja completamente alinhado com suas ideias. Nada de ampliar o programa para agregar algum nome ou outro partido. Ele tende a permanecer firme nas suas posições, sem abrir a vice para obter mais tempo de rádio e TV ou apoio futuro no Congresso Nacional. Reforça sua imagem de outsider.

Se chegar ao Planalto, este movimento torna uma eventual manobra pelo impeachment de Bolsonaro inócua, uma vez que seu impedimento levaria ao poder alguém que conservaria seu estilo e agenda, um nó para a classe política desatar.

Bolsonaro seguirá sua busca por um nome alinhado com seu perfil, não importa se de um partido pequeno, mas alguém que ele confie. Ninguém deseja um vice que conspire ao lado do parlamento para rifar o Presidente e chegar ao Planalto. A lição do último impeachment foi bem assimilada.

Em um horizonte amplo, uma aliança entre PRB e PSL seria estratégica, levando o empresário Flavio Rocha para vice de Bolsonaro e o impulso da Igreja Universal e da Rede Record para dentro da campanha. Diante de uma agenda comum no plano conservador e de abertura econômica, seria um casamento vitorioso em muitos planos. Um movimento improvável, mas de forte potencial eleitoral.

terça-feira, julho 17, 2018

Nordeste Vermelho

Enganam-se aqueles que pensam que o Partido dos Trabalhadores está morto na corrida presidencial. Com frequência escuto o argumento de que o povo brasileiro se cansou do petismo e que depois da Lava Jato e do impeachment, o partido não teria mais forças sequer de encabeçar uma chapa presidencial. Repito sempre que estas pessoas estão enganadas.

A força do PT está em Lula. Ele ainda é o maior nome e fiador de qualquer candidatura presidencial do partido. Pesquisa do instituto Ideia, encomendada pelo mercado financeiro, aponta que o "candidato do PT" larga com 9% de intenções de voto. Na pesquisa do Poder 360, Fernando Haddad pontua 8% - vale lembrar, sem aparições, entrevistas ou campanha. Na pesquisa XP, o mesmo Haddad, quando apoiado por Lula, alcança 9%. O potencial vermelho está mais vivo do que nunca.

Mesmo que Lula não seja candidato, o nome do PT tem tudo para chegar ao segundo turno. A região Nordeste segue sendo um reduto petista, o que irá impulsionar os números do partido em nível nacional. Na Bahia, o PT reinará sozinho com a candidatura de Rui Costa. Em Pernambuco, o Governador Paulo Câmara já disse que apoiará o presidenciável do PT. No Rio Grande do Norte a Senadora petista Fátima Bezerra segue na liderança para o governo do Estado. No Ceará, o Governador petista Camillo Santana tenta a reeleição com ampla coalizão e no Piauí, o Governador do PT, Wellington Dias, segue na dianteira. O Governador Flávio Dino, apesar de estar no PC do B, alinha-se com o PT no Maranhão. Isto sem contar Alagoas, onde a dupla Renan Pai e Renan Filho, candidatos ao Senado e Governo, estão alinhados com o PT. Como vemos, há muita chance de uma revoada vermelha mais uma vez no Nordeste.

Com Lula ou sem Lula, o PT, diante de um valioso fundo eleitoral, tempo de rádio e TV e palanques estaduais fortes tem tudo para chegar ao segundo turno. Diante deste potencial, seria loucura abrir mão da cabeça de chapa. O partido terá candidatura própria, essencial para sua própria sobrevivência política. Enganam-se aqueles que duvidam de seu potencial.

segunda-feira, julho 16, 2018

Reféns do Atraso

O próximo inquilino do Palácio do Planalto certamente enfrentará uma situação fiscal muito difícil quando chegar a Presidência. Desde o desequilíbrio que começou em 2014, as contas do governo federal mostram sinais de fraqueza, sem qualquer perspectiva de melhora. O saldo segue negativo e as consequências mais sérias ainda estão por vir.

A margem de manobra que possui um Presidente é muito pequena. O Brasil possui uma estrutura engessada e corporativista, que mantém o governo refém de diversos grupos sindicais, que visam proteger apenas os interesse de suas próprias classes. Sabemos que reformas importantes para o país já foram perdidas porque foram paralisadas por pequenos e barulhentos grupos que, ao olhar para o próprio umbigo, desconhecem a definição de nação.

Nossa Constituição é a principal responsável por engessar os gastos do governo e jogar em cima de nossa administração obrigações que passam ao largo das funções reais de qualquer modelo moderno e racional de Estado. Se somarmos a isso o ativismo de uma corte constitucional mais preocupada com a política do que com o direito e com os holofotes mais do que com a prestação jurisdicional efetiva, enxergamos a profundidade do problema.

Arrumar a casa é trabalhoso. Desarrumar é rápido. Nosso equilíbrio fiscal, alcançado ao longo dos anos, de 1999 até 2013, que levou o Brasil a atingir o patamar de grau de investimento, foi perdido por sucessivos erros do governo. Um déficit que chegará este ano ao redor de 150 bilhões e pode crescer 100 bilhões com o pacote de irresponsabilidades em tramitação no parlamento. Uma conta que nasce inviabilizando especialmente o próximo governo.

Refém de despesas obrigatórias e de grupos corporativistas sindicais, impossibilitado de reduzir as despesas mediante ações de privatização pelo ativismo político das cortes e orgulhoso do papel de Estado provedor, o futuro certamente não sorri para o Brasil. Sem um governo realmente reformista que altere este estado de coisas, o país estará fadado ao fracasso, preso a convicções arcaicas, práticas corporativistas e ações populistas.

Este governo, que começou promissor, inviabilizou-se por meio de seus próprios erros, medos e covardia. Carece do elemento essencial para encabeçar qualquer processo de reformas, que se chama liderança. Nesta transição, o Brasil teve a chance de arrumar a casa e asfaltar o caminho para a retomada da sensatez. Infelizmente mais uma vez optou-se pelas benesses pessoais em detrimento do país.

Um novo governo terá liderança e legitimidade para implementar as reformas, que agora precisam ser muito mais profundas e densas, portanto, mais desafiadoras. Se falharmos neste caminho veremos a falência completa do modelo implementado desde a Nova República, uma irresponsabilidade que pode colocar em xeque inclusive nossa democracia.

sexta-feira, julho 13, 2018

Pauta Bomba

Enquanto os candidatos ao Planalto se preocupam com alianças e tempo de TV, o Congresso Nacional está armando uma grande armadilha para o próximo governo. As receitas somem e são criados novos gastos públicos bilionários. Os números assustam e jogam fora qualquer tentativa de equilíbrio fiscal. Esta atitude transfere toda a pressão para o novo governo, que quando desembarcar no Planalto terá que implementar de forma urgente uma política de freio brusco nas despesas.

A irresponsabilidade em aprovar novos gastos se choca diretamente com um dos pilares da estabilização econômica implementada no país ainda na década de 90, a chamada meta de superávit. As contas públicas permaneceram em equilíbrio de 1999 até 2013. Em 2014, ano eleitoral, o desequilíbrio tornou-se uma realidade que assombra a economia brasileira até os dias atuais. Foram 32 bilhões em 2014, 115 bilhões em 2015, 154 bilhões em 2016, 124 bilhões em 2017 e uma previsão de 159 bilhões em 2018. Um governo em desequilíbrio asfixia a economia e inibe a criação de empregos.

As manobras em curso no Congresso Nacional jogam nos ombros do Tesouro gastos que variam entre 70 e 100 bilhões, uma carga que precisará ser paga pelo novo governo. Calcula-se que no próximo ano, além de carregar o déficit previsto, teremos que arcar com pelo menos mais 68 bilhões em despesas novas. Nosso parlamento pode estar inviabilizando o próximo governo antes da largada.

O pacote de bondades votado pelo Congresso Nacional afeta sua imagem para aqueles que entendem da consequências danosas de tais medidas, entretanto, para a grande massa da população, a imagem é outra. As benesses imediatas a grupos específicos asfaltam o caminho de uma reeleição tranquila para grande parte dos parlamentares. Um rombo nas contas públicas que garante sua permanência em Brasília.

A pauta bomba alivia temporariamente alguns setores jogando o peso do ajuste no ombros dos brasileiros pelos próximos anos. Desta forma, o Brasil segue sua rota de autodestruição.