segunda-feira, julho 09, 2018

Lições da Copa

A desclassificação do Brasil na Copa do Mundo está envolvida em aspectos culturais que fornecem sinais claros sobre o nosso País. Fomos superados pela quarta vez seguida por nações europeias: França (2006), Holanda (2010), Alemanha (2014) e finalmente a Bélgica (2018). Mas o que isto quer dizer?

Na mesma linha, com a exceção do Brasil (1994, 2002), o último campeão de fora da Europa foi a Argentina (1986). O evidente domínio do futebol europeu é o resultado de ligas fortes, clubes bem estruturados, disciplina e estudos táticos e acompanhamento da evolução do futebol, vetores que estão muito longe da realidade de nosso continente e de nosso país. A Copa Libertadores da América há tempos deixou de incorporar um futebol competitivo que encarava o campeão da Europa. Isto está expresso nos vencedores dos últimos 10 Mundiais de Clubes: Real Madrid (2017/2016), Barcelona (2015), Real Madrid (2014), Bayern de Munique (2013), Barcelona (2011), Internazionale (2010), Barcelona (2009), Manchester United (2008) e Milan (2007). O único intruso entre os europeus foi o Corinthians (2012).

O futebol não é o mesmo esporte do passado. Hoje a disciplina estratégica, força física e estabilidade emocional são partes essenciais do jogo. Craques com lances de genialidade não são a regra em times competitivos. Estas qualidades desequilibram em situações específicas e excepcionais, mas estão longe de ser definidoras de uma boa equipe. Enquanto isso, no Brasil ainda vivemos a cultura do craque, daquele que define, resolve, “vai pra cima” e em lances geniais define uma partida. Em uma liga como a brasileira, esta cultura encontra eco, mas quando bate de frente com a seriedade e disciplina dos clubes europeus, raramente vence.

Na política, como no esporte, o Brasil segue sua busca incansável por salvadores da pátria. Uma característica presente em nosso continente, algo que vai muito além das quatro linhas. Os resultados políticos, como sabemos são desastrosos. Celeiro de líderes populistas, países do México até a Patagônia, tornaram-se reféns de um modelo que trouxe um legado de subdesenvolvimento e derrotas.

Portanto, dentro e fora do futebol, já é hora de nos inspirarmos nos vencedores, em políticas reais, racionais e que funcionam em outras nações. Nosso futebol precisa beber na fonte das melhores práticas e deixar de tratar nossos jogadores como meninos iluminados deslumbrados com uma vida de sonhos. Precisamos deixar de justificar nossos fracassos, infantilizar nossos craques e nos tornarmos adultos, em todas as frentes, inclusive na política, evitando que o estado exerça a mesma função e infantilize o cidadão.

Uma solução para nosso futebol? Engolirmos nosso orgulho ferido e importarmos um técnico europeu de primeira linha, que traga para nossa seleção políticas de gestão, conceitos modernos que possa gerir reflexos em nossas ligas e clubes. Na política, assim como no futebol, também chegou o momento de deixarmos de ser reféns do atraso. Acabou a Copa. Ali na frente temos eleições.

sexta-feira, julho 06, 2018

Antropofagia Política

Enquanto os tucanos flertam com Aldo Rebelo, que até pouco tempo dava expediente no PC do B, para vice de Alckmin, o Democratas está inclinado a apoiar Ciro Gomes na disputa presidencial. O antigo PFL chegou a cogitar mudar seu nome para "Centro" poucos meses atrás, para deixar claro a guinada ideológica de um partido que sempre foi identificado com a direita.

Do ponto de vista da ciência política é curioso observar estes movimentos. Alguns partidos brasileiros carecem de uma análise mais apurada de timing. O PFL, convertido a Democratas, passou os governos Lula e Dilma protegendo bandeiras da centro-direita, defendendo o legado de FHC muito mais do que qualquer tucano. Pagou um preço alto. Viu sua bancada definhar no momento de maior força do petismo. Agora que o pêndulo toma o rumo da centro-direita conservadora, o partido, que possui em seus quadros nomes como Ronaldo Caiado, que se encaixaria muito bem nesta corrida presidencial, se afasta de sua história, distancia-se do que sempre defendeu e articula apoio a Ciro Gomes, hoje hospedado no partido fundado por Brizola e comandado por Carlos Lupi. Se ainda fosse vivo, Antônio Carlos Magalhães certamente impediria tal movimento.

Os tucanos, que apanharam do petismo nas urnas e no parlamento e viram sua bancada definhar, hoje cogitam trazer Aldo Rebelo, articulador político do Governo Lula, para ocupar a vice de Geraldo Alckmin. Seria curioso, se não fosse trágico. Isto praticamente inviabiliza a candidatura do ex-Governador de São Paulo em setores conservadores, entregando estes eleitores em uma bandeja de prata para Bolsonaro.

O Brasil passa por um processo de guinada conservadora. Infelizmente, alguns partidos que poderiam se beneficiar desse movimento natural do eleitor, tornaram-se clubes de interesses difusos incapazes de defender uma ideologia, apenas os interesses pessoais de seus líderes. Isto explica porque partidos de cunho conservador não conseguem se viabilizar diante de seu eleitorado tradicional. Perde a boa política. Perde o Brasil.

quinta-feira, julho 05, 2018

Alckmin em Risco

Circula em Brasília a informação de que Geraldo Alckmin poderia estar sendo rifado diante da falta de tração de sua campanha, estacionada ao redor dos 7%. Os principais arquitetos do projeto seriam Michel Temer e Fernando Henrique Cardoso, que andaram conversando nos últimos dias.

Alckmin nunca foi considerado um tucano de primeira linha pelos seus colegas, que acham seu jeito muito provinciano, algo que passa longe do charme intelectual de FHC. O ex-Governador de São Paulo inclusive gosta de nutrir este semblante de homem do interior, que cativa o eleitor paulista, mas passa ao largo dos cardeais de seu partido.

A conversa é sempre a mesma, substituir Alckmin por Doria na corrida ao Planalto. O nome do ex-Prefeito de São Paulo se encaixaria perfeitamente no quadro sucessório deste ano, entretanto, os tucanos perderam o timing. Presos a decisão de Geraldo Alckmin de concorrer, Doria perdeu a oportunidade de vender ao eleitor uma espécie de "chamamento das forças de centro" para largar a Prefeitura e concorrer ao Planalto. Feito da maneira correta, poderia funcionar. Quando deixou a Prefeitura para concorrer ao Palácio dos Bandeirantes por vontade própria, desgastou sua imagem.

A operação imaginada por Temer e FHC esbarra em um ponto essencial. O Presidente do PSDB é Geraldo Alckmin e depende dele a opção de lançar-se candidato ou não. Se forçar a barra, pode ser abandonado pelos cardeais. Um dilema.

Se os tucanos partirem para a corrida presidencial como coadjuvantes, restará ao PSDB assumir a estratégia do MDB e tentar fazer um bancada numerosa para influenciar no próximo governo. Por enquanto, entretanto, os caciques de ambos os partidos ainda consideram marchar unidos, somando fundos eleitorais milionários e um tempo de TV considerável. Mas nesta equação não cabe Geraldo Alckmin. A conferir.

terça-feira, julho 03, 2018

Rejeição Política

O fenômeno da rejeição aos políticos vista no Tocantins pode se repetir em nível nacional na eleição presidencial. Por lá, mais de 50% foram para o chamado "não voto", somados brancos, nulos e abstenções. Isto mostra o grau de desencanto com a política e a rejeição aos políticos, algo que deve levar a uma profunda reflexão neste ciclo eleitoral.

As pesquisas nacionais mostram que 64,5% dos eleitores não se sentem representados por qualquer um dos 28 pré-candidatos a presidente. Vemos que não faltam candidatos, mas o eleitor ainda não se convenceu de que qualquer um deles pode fazer diferença no atual cenário. O brasileiro vive uma situação de total desesperança e desalento com o futuro, resultado de um processo de deterioração econômica iniciado por Dilma Rousseff, que atravessou um impeachment se alojou em um governo Temer que ainda não conseguiu apresentar soluções aos problemas reais da população. O poder de compra deteriora, a economia patina e os níveis de emprego não reagem.

Com a Lava Jato expondo as vísceras de um sistema viciado e a corrupção transbordando nos porões de Brasília, o cidadão hoje sente-se refém de políticos que perderam a credibilidade. Isto leva o eleitor a rejeitar a política em si, tornando a solução do problema uma equação de difícil solução. Foi o que vimos no Tocantins, quando 35% da população sequer foi votar no dia da eleição e 26% optaram por anular ou votar em branco, mesmo percentual observado nas pesquisas nacionais.

Estamos diante de um pleito extremamente incerto pela rejeição aos políticos, algo que levou a rejeição da polítca e afeta a credibilidade da democracia em si, um grande perigo que pode apontar o surgimento de líderes populistas. O vencedor da eleição será decidido pela abstenção e o desencanto com a política.

segunda-feira, julho 02, 2018

Centro em Alerta

A profusão de candidatos de centro nessa disputa presidencial mostra o total descolamento de parcela da classe política diante da realidade do país e dos desejos do eleitor. Vivemos um momento polarizado, o ápice de um ciclo de 30 anos que iniciou-se com a Nova República e que agora chega ao seu final. Nesses momentos, o eleitorado mostra uma tendência de voto em candidatos que prometem uma mudança profunda de rumo nos destinos do país.

Assim, não deixa de ser curiosa a opção de tantos candidatos pelo chamado centro, que possui estratégia diametralmente oposta ao movimento do eleitor. O que não surpreende é que os centristas, até o momento, ainda não decolaram. Este bloco tenta seguir unido na disputa presidencial. Contudo, dificilmente embalam durante a disputa. Mesmo entre seus representantes já existem aqueles que, cientes da inviabilidade eleitoral, aderem aos candidatos que pontuam de forma relevante nas pesquisas.

Essa mudança de fundo cíclica operada pela sociedade brasileira tende a mudar as bases do tecido que constitui os alicerces políticos da República, trazendo elementos diferentes que, aos poucos, formarão uma nova correlação de forças. A entrada de membros da magistratura e do Ministério Público na política é um primeiro sinal dessa mudança de representação, que deve ser acompanhada pela eleição cada vez maior de líderes evangélicos de cunho neopentecostal, além de âncoras e apresentadores populares dos meios de comunicação. Essa mudança está em curso e será sentida durante a nova formação dos quadros parlamentares no Congresso Nacional. Os políticos tradicionais já estão perdendo preciosos votos para esses movimentos.

Para além disso, esses grupos possuem uma agenda própria, sufocada pelos últimos governos e que, finalmente, desejam reagir e ter voz. A pauta ainda é difusa, mas toca em temas centrais, como o duro combate aos corruptos, resgate dos valores conservadores, briga sem tréguas contra a criminalidade, entre muitos outros. Essa vertente do eleitorado, órfã durante muitas eleições, parece ter encontrado rumo neste ano.

Se do lado conservador parece haver cada vez mais unidade, a esquerda ainda busca seu representante. Com a prisão daquele que forneceria voz para sua agenda, outros buscam viabilizar-se em cima de seu eleitorado. A reação dos grupos ligados ao petismo e seus satélites tendem a constituir-se como a força oposta nas eleições, polarizando a disputa e o debate, um enfrentamento entre a agenda em curso diante de um crescente movimento conservador.

Existe um vácuo no centro, entretanto, este lugar não permanece vago pela falta de alternativas, mas pela falta de interesse do eleitor em sua agenda. Aqueles que insistirem em transitar por este caminho, tendem a sucumbir, como estamos vendo neste processo eleitoral. A política brasileira está passando uma mudança profunda e aqueles que não entenderem este movimento, ficarão de fora do próximo capítulo.

sexta-feira, junho 29, 2018

100 Dias

Chegamos a uma data simbólica. A distância das eleições de 2018 é de apenas 100 dias. O quadro, apesar de aberto, já começa a tomar contornos definidos por dois motivos: o transe em torno da Copa do Mundo, que afasta os brasileiros do noticiário político e anestesia as campanhas e a proximidade com a convenções partidárias que definem os candidatos no final de julho.

Isto significa que temos um cenário em que o centro não decolou. Seus candidatos seguem com números pífios e sem animar o eleitor. Rodrigo Maia, Flávio Rocha e Henrique Meirelles tendem a desistir, com seus partidos compondo em outra chapa ou apenas centralizando o poder de fogo nas eleições proporcionais para deputados, que estabelecem o valor do fundo partidário para os próximos anos. Daqueles com intenções de voto modestas, ficarão no páreo apenas os de corte ideológico que usarão o palanque para sedimentar a mensagem dos seus partidos, como João Amoedo, Guilherme Boulos e Manuela D´Ávila.

O centro, desta forma, fica com dois candidatos que lutam para subir nas pesquisas. Álvaro Dias, do Podemos, que varia entre 4% e 8% e Alckmin, que não empolga nem sua militância e patina nos 6% de acordo com os números do Ibope. No mesmo período, em 2006, Alckmin pontuava 28% e Aécio em 2014, alcançava 19%. Neste ano, os tucanos ainda não encontraram o caminho das urnas.

Na esquerda despontam Ciro e Marina, com a pré-candidata da REDE credenciando-se hoje ao segundo turno contra Jair Bolsonaro. Mas nesta frente ainda lembro: é preciso esperar quem será ungido por Lula como o candidato petista. Um nome que deve complicar a vida de Ciro e Marina.

Se este período nos deixa uma mensagem é que o eleitorado tende não colar em um candidato de centro. Esta é uma eleição que possui um pano de fundo histórico de mudança e renovação, com o fim da Nova República e o início de um novo ciclo de 30 anos. Aqueles que falharem nesta leitura, tendem a encarar uma amarga derrota.

quinta-feira, junho 28, 2018

Tucanos em Transe

Três décadas atrás ocorreu um racha no PMDB. Um grupo de parlamentares, intitulado de "grupo ético", partia da agremiação com vistas a formar um novo partido. "Longe das benesses oficiais, mas perto do pulsar das ruas", como estava escrito em seu programa. Ganhava forma o PSDB.

Sob a liderança de Mário Covas, Franco Montoro, Fernando Henrique, José Richa, José Serra, Pimenta da Veiga, entre muitos outros nomes, os tucanos nasciam dentro da constituinte, deixando acéfalo o PMDB, que ali começou seu caminho para se tornar apenas um partido de articulação, enquanto o PSDB tornava-se um partido programático.

Os tucanos, social democratas por excelência, sempre foram de centro-esquerda. Chegando ao ringue contra Lula, passaram a ser vistos como centro-direita, levando o partido a uma crise de identidade que perdura até os dias de hoje. A vergonha em defender a política de privatizações de Fernando Henrique é sintomática.

Nesta semana, comemorar os 30 anos de forma acanhada, na cobertura de um hotel de Brasília, as vésperas de uma eleição presidencial, evidencia a falta de unidade e empolgação do partido. Liderado por um Geraldo Alckmin que patina nas pesquisas, mostra-se um partido apático. Na corrida pelo Planalto, depois de rifar João Doria, tudo indica que o PSDB caminha para, assim como Alemanha, ser eliminado na fase de grupos.

Aliado de Temer desde os primeiros dias, o partido colhe também o desgaste de um governo impopular e rejeitado pela população. Refém de seus conflitos e da falta de comando, o PSDB, suprema ironia, chega aos 30 anos perto da benesses oficiais do partido com quem rompeu e muito distante do pulsar da ruas. Triste reflexo da política brasileira.

quarta-feira, junho 27, 2018

STF impulsiona Bolsonaro

O Supremo Tribunal Federal concedeu liberdade ao ex-ministro José Dirceu e deu um forte impulso para a campanha de Jair Bolsonaro.

Claramente descolado da realidade, a segunda turma reagiu de maneira contundente contra o Ministro Edson Fachin, que havia enviado o pedido de liberdade de Lula para ser examinado pelo pleno. Em reação coordenada, Lewandowski, Toffoli e Gilmar abriram a caixa de ferramentas e de uma tacada soltaram José Dirceu e João Cláudio Genu, ex-tesoureiro do PP, anularam as provas contra Gleisi Hoffmann, confirmaram a liminar de soltura de Milton Lyra, operador financeiro do MDB, rejeitaram denúncia contra o deputado Tiago Peixoto do PSD-GO e suspenderam uma ação contra o deputado tucano Fernando Capez, acusado de envolvimento na máfia da merenda. A jornalista Vera Magalhães lembrou que Rodrigo Capez, irmão do deputado tucano, foi o principal assessor de Dias Toffoli até o início deste ano. O escárnio chegou ao patamar da desfaçatez. Nos bastidores é certo que se Fachin não tivesse enviado ao pleno o pedido de liberdade de Lula, a segunda turma teria soltado o ex-Presidente ontem.

Os ministros brincam com a democracia, fragilizando a já desgastada imagem do STF perante a população. O tribunal está rachado e politizado. Em breve pode estar também totalmente desmoralizado, fragilizando um dos alicerces da República. Muitos ministros, agindo como políticos, esqueceram a lição de Afonso Arinos: "Justiça é a noção de limitação de poder".

A sensação de que o período da Copa do Mundo está sendo usado para encobrir esta série de movimentos está tomando contornos mais definidos. Imagina-se que somente o fim do torneio ou a saída do Brasil da Copa possa devolver a pauta política para o cenário nacional, colocando um freio na estratégia de desmonte da Lava Jato.

A cada novo triste episódio protagonizado pelo Supremo, o sentimento de revolta que começa a ficar mais cristalino a cada pesquisa, induz o voto de protesto em Jair Bolsonaro. Seu provável candidato a vice, Senador Magno Malta, foi enfático: É inaceitável a maneira debochada como o STF trata a nação".

Hoje, não existe maior cabo eleitoral da candidatura de Bolsonaro do que o Supremo Tribunal Federal.

terça-feira, junho 26, 2018

Os Sinais de Minas

Hoje foi divulgada uma pesquisa presidencial realizada em Minas Gerais. Algo de enorme importância no âmbito nacional. Isto porque Minas é um laboratório perfeito que apresenta características muito similares ao Brasil, assim como ocorre com o estado de Ohio nos Estados Unidos. Logo, se desejamos saber que rumo está tomando a sucessão presidencial, temos que prestar muita atenção na sondagem de hoje.

Vemos que os números são generosos com Bolsonaro. Em Minas Gerais ele aparece com uma intenção de votos ainda mais robusta que no plano nacional, chegando a 29%. A certeza de voto no deputado chega a impressionantes 90%. O segundo lugar aparece dividido entre Haddad e Ciro na faixa dos 8%.

Isto significa que possuímos um desenho prévio do que pode ocorrer nas eleições. Bolsonaro ainda possui musculatura para crescer mais alguns pontos em nível nacional e a candidatura do PT tende a se consolidar em torno de Fernando Haddad.

Haddad tem força para crescer em cima do potencial petista e assim que lançado deve se consolidar em torno de 15%. Com a máquina do partido e o impulso do Nordeste, deve conseguir uma vaga no segundo turno. Ciro e Marina terão que suar muito a camisa para se aproximar do petista.

O outro fator da pesquisa é o claro desgaste do centro diante da falta de capacidade de reação de Alckmin, ainda com 6%. Ele não consegue se aproveitar do fato de Anastasia largar na frente com ampla vantagem para o governo do estado.

Minas nos adianta o que deve ocorrer no cenário nacional. Desta vez não será diferente.

Instinto de Sobrevivência

Na noite de quinta-feira reuniram-se na residência oficial do presidente da Câmara dos Deputados, o deputado Rodrigo Maia (DEM), o senador Aécio Neves (PSDB) e o presidente Michel Temer (MDB). O tema do encontro, que não constava da agenda pública de qualquer um deles, era naturalmente a sucessão e a montagem do quadro eleitoral. Discutiu-se o avanço da esquerda e de Bolsonaro, o papel dos tucanos, a união do centro e o peso do MDB. Em uma eleição de pouco apelo centrista, faltam eleitores e os partidos da base não desejam carregar a âncora do governo Temer durante a campanha.

A questão central é o calendário eleitoral. Com a ocorrência das convenções logo após a Copa do Mundo, os partidos possuem muito pouco tempo para ver seus pré-candidatos embalarem na campanha presidencial. Na trinca reunida no Planalto, por enquanto sobra poder, mas faltam votos. Alckmin ainda não decolou, com Doria sendo lembrado sempre como alternativa. Rodrigo Maia segue com o balão de ensaio de sua candidatura para garantir a reeleição como deputado. Henrique Meirelles não empolga nem o governo, tampouco o MDB. Os três somados não ultrapassam 10% nas pesquisas.

Os partidos precisam de um horizonte mais definido até as convenções e tudo indica que o quadro que enxergamos hoje pode se tornar o definidor das candidaturas. Logo, é possível que o MDB rife Henrique Meirelles e busque abrigo na vice de outra candidatura. A tarefa será difícil. Por mais que tenha muito a oferecer, o partido pode mais prejudicar do que ajudar. O peso da impopularidade de Temer é algo incômodo na corrida presidencial.

Ao mesmo tempo o chamado “centro político” busca se unir em torno de uma candidatura. Progressistas, Solidariedade, Democratas e PRB seguem divididos. Enquanto alguns desejam apoiar Alckmin, outros preferem Ciro e muitos já se definiram por Bolsonaro. Por mais que alguns partidos fechem alianças, a certeza é que seguirão rachados para a disputa nacional. Fato é que a união do centro ainda não empolga e no cenário atual tem poucas chances de impulsionar seu candidato para o segundo turno.

O MDB segue como a noiva rica, porém indesejada. Com extensa rede de prefeitos e governadores, que fornece ampla capilaridade em uma candidatura nacional, é olhado com desconfiança e ceticismo pelos possíveis pretendentes. Dono de minutos preciosos no rádio e TV e valioso fundo eleitoral, ainda não empolgou aqueles que namoram a possibilidade de associar-se a sua imagem. Isto tudo tem uma razão de ser: a impopularidade de um governo desgastado e marcado pelas denúncias de corrupção, uma combinação fatal em um pleito de forte apelo pela renovação. Contudo, dotado de um estratégico instinto de sobrevivência, o MDB pode optar pelo isolamento. Sem compor chapa nacional, mas usando seu exército para eleger deputados, governadores e senadores, pode tornar-se mais uma vez o partido da governabilidade, aquele que o próximo presidente precisará quando chegar ao Planalto.

sexta-feira, junho 22, 2018

Fora da Agenda

O Presidente Michel Temer tem apreço pelos encontros informais, algo muito comum na política. Entretanto, depois da gravação realizada por Joesley Batista, que decretou o começo do fim do governo, convenhamos que deveria haver mais zelo com a marcação de reuniões fora da agenda.

Na noite de ontem encontraram-se na residência oficial do Presidente da Câmara, o deputado Rodrigo Maia, senador Aécio Neves e o presidente Michel Temer. A reunião, que não constava da agenda pública de nenhum deles, acabou descoberta pela imprensa da capital.

A reunião tratou de sucessão e da tentativa de formação de um bloco de centro. Sabemos que Rodrigo Maia na verdade é candidato a renovar seu mandato de Presidente da Câmara, necessitando para isso de uma recondução a deputado pelo Rio de Janeiro. Diante das fracas votações obtidas no passado, o balão de ensaio da pré-candidatura presidencial fortalece seu nome em suas bases eleitorais. Aécio Neves flerta com o Senado, mas diante do cenário, se contentaria com uma vaga na Câmara. Michel Temer tem encontros marcados com a justiça a partir de janeiro.

Os pré-candidatos de DEM, MDB e PSDB ainda não empolgaram os eleitores. A soma não bate em 10%, considerando que dois deles habitam o território dos 1% de intenção de votos.

Uma certeza fica clara. Enquanto Bolsonaro dispara nas pesquisas, na reunião do chamado "centro", ainda sobra poder, mas falta o essencial para a sobrevivência política: votos.

quinta-feira, junho 21, 2018

Os Movimentos da Caserna

A semana está sendo repleta de encontros emblemáticos. Além do jantar entre Marina Silva e Luciano Huck, outro episódio que chamou atenção foi a visita de Fernando Haddad ao General Villas Boas.

O comandante do Exército já recebeu vários pré-candidatos presidenciais. Com a visita de Haddad chega a 10 representantes. Disse em seu twitter que recebeu o petista para "um diálogo sobre desafios e oportunidades no campo da defesa e segurança".

O encontro é cheio de significados. Diante da prisão de Lula, o escalado para falar com o General foi Fernando Haddad. Enquanto a justificativa é de que ele é o coordenador do programa do PT, a verdade é que o ex-Prefeito de São Paulo é o nome para substituir Lula nas eleições deste ano. O escolhido para representar o partido na reunião não foi Gleisi Hoffman, tampouco o baiano Jaques Wagner. O partido forneceu uma clara indicação do caminho a ser seguido.

Além disso, surpreende a desenvoltura com que Villas Boas infiltra-se na política, lugar que os militares mantiveram distância até a chegada de Temer ao poder. Neste caso, o Presidente alimentou seu próprio desconforto. Ao franquear poder inédito aos militares em seu governo, o Planalto também se tornou, de certa forma, refém de seus movimentos. De nada adianta queixar-se nos bastidores do protagonismo de Villas Boas.

quarta-feira, junho 20, 2018

Os Movimentos de Marina

Enquanto muitos desprezam o potencial de Marina Silva, me coloco em posição diametralemente oposta. Ela é uma candidata competitiva e continua a brigar por uma vaga no segundo turno. Seus movimentos deixam claro que ela realmente se mexe nos bastidores.

Marina possui capital político de duas eleições presidenciais. Em ambas andou por volta de 20%, ou seja, 20 milhões de votos. Mesmo que perca 5%, ainda possui virtualmente um potencial nada desprezível de 15 milhões de votos.

Ela ainda transita por um eleitorado heterogêneo, que começa nos verdes, passa pelos progressistas e deságua em uma vertente conservadora e evangélica, por mais curioso que isso possa parecer. Ela é apoiada pelo movimento Agora! e participa de conversas com a Roda Democrática. Até FHC já sugeriu uma aproximação com a pré-candidata da REDE.

Os mais céticos dizem que ela tem pouco tempo de TV, mas em tempos de redes sociais e mensagens de whatsapp, qualquer candidato pode facilmente contornar este problema. Mesmo assim ela tem buscado alianças.

A mais notória é a aproximação com Luciano Huck, com quem ela janta na noite de hoje. Luciano é próximo de vários partidos, em especial do PPS, que poderiam se alinhar com ela.

Em uma eleição em que aquele que alcançar 15% ou 16% dos votos tem grande chance de estar no segundo turno, Marina nasce competitiva e estará ombreando com o petismo por uma das valiosas vagas para a disputa final. Talvez acompanhada de Luciano Huck.

terça-feira, junho 19, 2018

A Língua Afiada de Ciro

A polêmica em torno de Ciro Gomes torna-se cada vez maior. Seus ataques já atingiram vários nomes da política nacional. Desta vez, a vítima foi Fernando Holiday, vereador pelo DEM em São Paulo e um dos líderes do MBL. Ciro chamou Holiday de "capitãozinho do mato".

Capitão do mato era como se chamavam os serviçais de uma fazenda ou feitoria encarregados da captura de escravos fugitivos. A comparação foi infeliz. Não somente porque Fernando Holiday é negro, mas porque é um golpe abaixo da linha da cintura, que não leva em conta as ideias ou mesmo a atuação do parlamentar. Ciro mira no ataque pessoal com o objetivo de desconstruir Holiday.

O fato concreto é simples. Se Ciro Gomes continuar a desferir golpes a esmo, verá mais uma vez sua candidatura presidencial ser abatida, pelos seus próprios erros. O tipo de verborragia que produz é ofensiva e não agrada o eleitorado, por ser vazia e sem direção.

Hoje, Ciro paira entre 8% e 10% das intenções de voto e sonha em ser o candidato único das esquerdas, apoiado por alguns partidos do chamado "centro". Sua tática esbarra no PT, que está pronto para marchar unido nas eleições presidenciais deste ano com candidato próprio, até como estratégia de sobrevivência política. O centro tampouco deve marchar ao seu lado, unindo-se provavelmente em torno em Álvaro Dias ou Geraldo Alckmin.

Mestre das polêmicas, Ciro deve aprender a dosar a língua, pois aquilo que acredita ser sua maior fortaleza, é também sua maior fraqueza. Assim, não chegará a lugar algum.

segunda-feira, junho 18, 2018

Calendário Eleitoral da Copa

Por certo o resultado da Copa do Mundo deste ano não afetará a corrida presidencial, mas seu lugar no calendário serve como divisor de águas dentro do quadro eleitoral. Logo depois do evento, já estaremos diante das convenções, quando os partidos formalizarão as chapas para inscrição em meados de agosto.

O calendário da Copa, por assim dizer, influencia na medida que joga a sucessão para uma discussão secundária nas manchetes dos jornais por exatos 30 dias. Aqueles que souberam crescer antes deste período, entram neste limbo certos de que sairão dele praticamente intactos, com os mesmos números. Os que ainda não decolaram percebem que perderam um tempo precioso que talvez não seja possível ser recuperado.

Isto porque as convenções partidárias, em finais de julho e início de agosto, confundem-se com o final do mundial. Com a política levada a um segundo plano durante este período, fica muito difícil para qualquer pré-candidato mostrar uma reação sensível em apenas duas semanas, entre o final da Copa e as convenções. Isto quer dizer que o quadro desenhado até o momento pode servir de referência para a decisão do lançamento (ou não) das candidaturas ainda em curso.

O raciocínio encontra lógica na decisão dos partidos e no arranjo do quadro nacional. Enquanto o chamado “centro político” tenta se unificar em apenas uma candidatura, outros partidos devem acabar desistindo de lançar nomes a Presidente, acomodando-se em outras chapas e reservando o uso do fundo eleitoral para eleições mais sensíveis. Vale lembrar que o número de deputados federais eleitos baliza o percentual do fundo partidário recebido para os próximos anos.

Assim, faz sentido que aqueles candidatos que ainda não decolaram, se não mostrarem reação, acabem desistindo da corrida e que o centro realmente se una em torno de uma candidatura, que se não for realmente competitiva, possa pelo menos incomodar os líderes nas pesquisas, para assim amarrar acordos no segundo turno. Diante desta lógica, deve haver entendimento no centro para unificar forças, assim como na esquerda, que apresenta algumas candidaturas mais consolidadas.


Precisamos entender que diante das regras novas, para os partidos políticos torna-se muito importante eleger um número substantivo de deputados federais. Ali está a tônica da eleição diante de regras que colocam em xeque a existência daqueles que não conseguirem votos suficientes para sobreviver. Claro que uma candidatura forte de caráter nacional ajuda a puxar votos para as eleições proporcionais, mas apostar naquelas que apenas marcarão posição, pode tirar o foco da batalha pelo legislativo federal. Diante deste calendário, o esvaziamento das campanhas durante a Copa pode ser fatal para várias pré-candidaturas presidenciais.

Coluna semanal no jornal O Tempo: https://goo.gl/kvFL3W 

sexta-feira, junho 15, 2018

O Erros de Alckmin

Calmo até demais, Alckmin parece ainda não ter entrado no clima do jogo da sucessão. Se isto já foi usado como um trunfo em campanhas passadas, infelizmente não cai bem em 2018. Este é um ano atípico. O eleitor brasileiro busca mudança. Vivemos um período influenciado pela Lava Jato e pelas denúncias de corrupção. Um ciclo de 30 anos da Nova República se encerra e o eleitor está cansado da política tradicional.

Isto explica o fenômeno Jair Bolsonaro, que fala diretamente para este eleitor, cansado dos partidos de sempre, dos políticos profissionais e do estado geral do país. Bolsonaro faz parte da classe política, afinal já está no parlamento há tempos, mas consegue descolar-se de modo inteligente do jogo velho e cansado que vem sendo repudiado pelo eleitor.

Enquanto isso, Geraldo Alckmin consegue incorporar todas as características rejeitadas pelo eleitorado. A política não é uma lancha, mas um transatlântico, que se move lentamente. Os sinais da mudança da percepção do eleitor passaram pelas manifestações de 2013, eleições, impeachment, outsiders nas prefeituras e agora no rearranjo da política nacional com rejeição aos partidos. Fica difícil acreditar que o ex-Governador paulista não tenha percebido este movimento.

Não cabe neste momento ombrear com Bolsonaro, chamá-lo para discutir segurança pública ou rivalizar quem leva mais apoiadores ao aeroporto. Nestas frentes, Alckmin sai perdendo e continuará assim. O reposicionamento de sua campanha precisa de uma postura mais ativa e de contraponto ao petismo. Ao errar o adversário, Alckmin perdeu o discurso.

Entrevista para Exame.com/Instituto Millenium: Regras Eleitorais

Com vistas a transmitir melhor compreensão das regras eleitorais das eleições deste ano, concedi entrevista para o podcast do Instituto Millenium/Exame.com

"Em entrevista ao Instituto Millenium, o cientista político Márcio Coimbra explica como funciona a repartição das campanhas nesses meios de comunicação, além de falar sobre as distorções criadas pelo sistema"

A entrevista segue no link abaixo:
https://goo.gl/vBR2tz

quinta-feira, junho 14, 2018

Retrocesso na Defesa

O Presidente Michel Temer tomou mais uma decisão polêmica. Desde a saída do Ministro Raul Jugmann da pasta da Defesa para assumir o Ministério Extraordinário da Segurança Pública, o ministério estava sem comando civil, chefiado interinamente pelo General Joaquim Silva e Luna. A novidade é que o General foi efetivado como ministro, abrindo um delicado precedente institucional.

Criado em 1999 pelo ex-Presidente Fernando Henrique, a essência do Ministério da Defesa era colocar sob comando civil as três pastas militares. Um passo natural em democracias maduras. Desde então, todos os ministros da Defesa do Brasil foram civis, até o governo Temer.

A proximidade do Presidente com os militares é notória. Desde o fim do governo do General Figueiredo não experimentavam tal protagonismo e proximidade com o poder. A intervenção federal no Rio de Janeiro, decretos de Garantia da Lei e da Ordem e até a decisão de fazer valer o acordo com os caminhoneiros usando a força militar evidenciam este movimento. Contudo, não caiu bem.

Os militares possuem seu lugar na institucionalidade brasileira. É salutar que não se envolvam, na ativa, com a política. A proximidade com o poder deve ser enxergada com cautela e o distanciamento que democracia demanda.

Nada mais salutar para uma democracia do que o Ministério da Defesa sob comando civil. Infelizmente o Presidente Michel Temer não pensa da mesma forma. Sob esta ótica, parece que realmente o Brasil voltou. No tempo.


Entrevista para Rádio Senado: Acordo Estados Unidos e Coreia do Norte

Conversei na Rádio Senado com Floriano Filho sobre o acordo entre Estados Unidos e Coreia do Norte depois do encontro entre Kim Jong-Un e Donald Trump.

"Márcio Coimbra, Estrategista Político do Senado na área Internacional, afirmou, em entrevista nesta quarta-feira (13) à Rádio Senado, que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e o ditador da Coreia do Norte, Kim Jong-Un, assinaram apenas um acordo político na histórica cúpula realizada nesta semana em Cingapura. Segundo ele, só depois é que virá um calendário de desnuclearização. “A Coreia do Norte não vai vender isso de graça”, alertou. 

A entrevista segue no link abaixo:
https://goo.gl/SCeTgA

quarta-feira, junho 13, 2018

Passeio Vermelho

Se o chamado "centro político" enfrenta problemas para emplacar um candidato competitivo, a tarefa tem se tornado mais difícil na medida que são fechados os palanques estaduais. Nenhum deles, entretanto, gera mais preocupações do que a Bahia.

Por lá, a desistência de ACM Neto em concorrer ao governo deixou os aliados políticos em pânico. O prefeito de Salvador pontuava bem nas pesquisas, com números acima dos 40%. Existia a certeza que passaria ao segundo turno, onde provavelmente disputaria na reta final com o atual governador petista Rui Costa. A presença dele na disputa era a certeza que o centro encontraria um palanque sólido na Bahia, quarto colégio eleitoral do país. Um estado estratégico.

Sem ACM Neto na disputa, o campo se abriu para o PT, que deve fazer barba, cabelo e bigode. Rui Costa pontua acima dos 60% e deve faturar o governo com facilidade ainda no primeiro turno. Para o Senado, Jaques Wagner, que fincou a bandeira do petismo na Bahia destronando o "carlismo", tem assegurada uma das vagas, chegando em algumas pesquisas a pontuar raspando nos 70%. O jogo está de tal forma nas mãos do PT, que o partido deve escolher quem será o segundo Senador eleito pela chapa: Lídice da Mata, do PSB ou algum indicado pelo PSD. A acomodação de uma candidatura nacional pode ajudar nesta decisão.

Isto pode levar a reflexos no plano nacional. Sem adversários, o petismo deve abrir larga vantagem de votos na Bahia, uma vez que as campanhas para Governador e Presidente ocorreriam de forma casada. A eleição de Rui Costa e Jaques Wagner tende a ajudar muito uma candidatura petista nacional.

Enquanto isso, os opositores enxergarão mais um passeio vermelho na Bahia. A falta de um palanque forte no estado atinge Alckmin, mas também todos aqueles que contavam pelo menos em disputar os votos dos baianos, que agora já tem destino.

Na terra de Jorge Amado, o PT alcançará sua quarta vitória seguida. Todas no primeiro turno.

terça-feira, junho 12, 2018

Impopularidade Contagiosa

A campanha de Henrique Meirelles pode estar acabando sem ao menos começar. Nascida de uma costela do governo Michel Temer, tem absorvido todos os seus desgastes. A recente greve dos caminhoneiros foi apenas mais um episódio que ajuda a provar esta tese.

Meirelles patina ao redor de 1% e tem potencial para ver sua candidatura desaparecer tão logo chegue agosto e as convenções partidárias. Quem deseja atingir longevidade neste quadro eleitoral, precisaria mostrar musculatura nas pesquisas desde já, sob o risco de sair do jogo antes da partida iniciar. Não é o caso do ex-ministro de Temer.

Os números do Presidente não ajudam Meirelles. 82% rejeitam o governo. Diante de números tão ruins, fica difícil para qualquer candidato levantar voo. A impopularidade de Temer contamina a campanha de seu antigo ministro.

O objetivo de Meirelles era se tornar o Fernando Henrique de Temer, assim como ocorreu com o ex-Presidente durante a gestão de Itamar Franco. A diferença é que FHC tinha algo concreto para entregar ao eleitor: o fim da inflação carimbada pela introdução de uma nova moeda. Os feitos de Meirelles são mais tímidos e ainda não se fizeram sentir pelo principal ator deste processo, o eleitor.

A economia ainda é um problema para o brasileiro. Apesar da propalada recuperação encabeçada pelo governo, os números não convencem. 72% do eleitorado acha que a economia piorou. Diante de um quadro deste, qual a chance de vermos seu principal fiador tornar-se um candidato competitivo?

Michel Temer possuía dois pilares que sustentavam seu governo. Um deles era a economia, que depois de uma recessão profunda induzida por Dilma, começava a acordar do coma. Entretanto, a alta do dólar e lenta recuperação dos níveis de emprego fez este discurso se perder. O abastecimento, promovido por uma agricultura robusta, também foi atingido. A inoperância e lentidão do governo diante da greve dos caminhoneiros conseguiu abalar também este importante pilar.

A impopularidade do governo Temer contamina Meirelles e fará o mesmo com qualquer nome que eventualmente ocupe seu lugar. O MDB acabará operando sua especialidade, ou seja, fazer uma boa bancada e vender caro seu apoio ao próximo governo.

Alerta Vermelho

Apesar de vivermos um período de guinada conservadora na sociedade brasileira, especialmente pós-impeachment, com enorme desgaste do petismo, que ainda enfrenta os desdobramentos da corrupção que se alastrou por seus governos, venho lembrar que ainda reside sobre os ombros do partido um considerável potencial eleitoral que merece ser analisado.

Com as cartas na mesa, vemos aquilo que mostram as pesquisas. O petismo possui a simpatia de 20% do eleitorado brasileiro. Destes, 80% estão dispostos a votar no candidato indicado pelo partido, ou seja, aquele que será ungido por Lula como seu escolhido. Isso joga o nome indicado para um patamar ao redor dos 15% de intenções de voto, com força para chegar ao segundo turno.

Já analisei aqui o potencial de Marina. Ela também segue pontuando nos 15%. Na ciência política precisamos avaliar todas as variáveis. O Brasil possui tradicionalmente uma camada de eleitores acostumados a votar com a esquerda. Esta parcela, sedimentada de forma mais consistente no período getulista, acostumou-se a votar no antigo trabalhismo e transferiu-se ao longo dos anos para o petismo, uma forma de esquerda de corte sindical, mas que também fincou suas bandeiras na intelectualidade acadêmica e no funcionalismo público.

Assim, explica-se o percentual daqueles que declaram-se petistas e em um cenário sem a presença de Lula, a tendência é que mesmo com os desgastes sofridos o partido deve conseguir lutar de forma competitiva por uma vaga no segundo turno, por mais curioso que isso possa soar. Resta ao grupo decidir quem será o herdeiro político que carregará o partido em outubro.

A inclinação pelo nome de Jaques Wagner tende a não se concretizar, uma vez que o ex-governador tem uma vaga garantida no Senado pela Bahia. Dentro desse contexto, a candidatura deve recair sobre o ex-prefeito Fernando Haddad, o que deve posicionar o partido mais ao centro. Professor da USP e ex-ministro da Educação, consegue penetrar na classe média, aumentando as chances de passar ao segundo turno. A candidatura própria é o caminho natural do PT, que por suas características jamais aceitaria uma posição secundária em uma chapa presidencial.

Se Haddad passar para o embate final com Bolsonaro, sabemos que a classe política fará uma opção clara pelo petismo, afinal, já conhecem as regras do mecanismo, divisão de tarefas e poder. Para a política tradicional, apoiar Bolsonaro no segundo turno é dar um salto no escuro – o que vale lembrar, também fortalece a posição de outsider do deputado e que pode ajudar a catapultar seu nome para a vitória.

Mesmo que a tendência não seja de vitória, enganam-se aqueles que desprezam o potencial eleitoral, mesmo ferido, do partido de Lula. Repito: existe força para chegar ao segundo turno e eventualmente até vencer a eleição. Nada mais curioso para um país como o Brasil, que depois de um impeachment, poderia novamente iniciar o ano sob os auspícios de um governo petista. A impopularidade e as trapalhadas do governo Temer somente ajudam nesta equação. Aguardemos.

domingo, novembro 22, 2015

Eleições na Argentina: Macri ou Scioli?

Neste domingo 32 milhões de argentinos escolherão seu novo Presidente. As pesquisas mostram vantagem de Macri, do PRO, sobre o peronista Scioli.
Macri teria uma vantagem média de oito pontos. Mas os partidários do PRO não se acomodaram. Continuam atentos, especialmente para a guerra suja que a Argentina pode enfrentar. A possibilidade de fraude em favor de Scioli é algo que preocupa. Urnas impugnadas, cédulas em duplicidade, ameaça a funcionários públicos - tudo isso gera ansiedade. O PRO acredita que se a eleição for limpa, Macri vence. 
O que mais se comenta é o fato de que com a vitória de Scioli ou Macri, o kirchenerismo sai de cena, uma vez que o peronista não era o candidato preferido da Presidente Cristina, que teve que aceitá-lo. Talvez a história não seja bem assim, uma vez que o governo trabalha duro para que Scioli vença. Até a turma do marketing de João Santana, que elegeu Dilma, desembarcou por aqui.
Mesmo enfretando a estratégia do medo, como foi feito no Brasil por Santana, Macri resistiu e pode ser o homem que mudará o curso político da América Latina, se vencer. Julio Sanguinetti, ex-Presidente do Uruguai, escreveu artigo este sábado no La Nación que fala sobre o ocaso do neopopulismo. Neste caso, a Argentina pode apontar uma direção para a região. 
Será importante observar o número de votantes e dos indecisos. Estes estão entre 4-11 pontos. Estima-se que o voto em branco fique em 2,5%. Maior participação em tese ajuda Macri, como vimos no primeiro turno. 
O resultado no momento possui tendência pró-Macri, que está liderança em todas as pesquisas. Mesmo com conversão dos indecisos em favor de Scioli, ainda chegaríamos em uma improvável situação de empate técnico. 
Mas todo cuidado é pouco. Hoje acompanhei a entrega das cédulas e urnas pelos correios da Argentina sob forte proteção policial. A possibilidade de tumultos e possíveis fraudes é acompanhada com atenção, em especial pelo PRO e pela UCR, que também apóia Macri. 
Scioli sabe que a tendência é pró-Macri, difícil de reverter, mas o peronismo tem a máquina, fortes sindicados e capacidade de mobilização. Macri, que para vencer precisava chegar no dia da eleição diante de uma margem confiável, conseguiu. Agora é tomar cuidado para que o pleito seja limpo e seguro.

sexta-feira, abril 17, 2015

Solidão Sem Poder

A porta se fechou. Padilha estava do lado de fora. Lá dentro, ficaram somente eles dois. A popularidade de Dilma flertava de forma perigosa com a ingovernabilidade. Sua base no Congresso, esfacelada. Eduardo Cunha havia colocado o governo no corner. Renan Calheiros reagia de forma precisa a cada trapalhada articulada pela Casa Civil. Lula surgia furioso. Nas ruas, mais de um milhão de pessoas já haviam pedido o pescoço do governo. Não havia saída aparente.

De certa forma o governo acabava ali, cerca de 100 dias depois de recomeçar. “Só me resta você”, disse a Presidente, encarando seu Vice. Foi clara: “Você terá de aceitar a coordenação. Do contrário, o governo poderá não se manter”. Michel Temer encontrava ali uma oportunidade única, mas sem autonomia nada poderia fazer. Colocou na mesa as principais demandas de seu partido. Além disso, nomeações precisavam ser feitas, aliados alocados em postos chave. O segundo escalão ainda clamava por ser ocupado. “Faça o que for necessário”. Naquele momento, Dilma dava carta branca para Temer, uma espécie de renúncia parcial, delegando ao vice toda a articulação política do governo. Ela entregava os anéis para manter os dedos.

Dilma tentava ali dois movimentos. Um claramente marcado pela aflição, na tentativa de fazer seu governo parar de sangrar. O outro, no sentido de tentar rachar a cúpula do PMDB. Se desse errado, perderia o controle da Esplanada para o vice, mas se desse certo, resgataria o poder diante de uma disputa de forças entre os caciques peemedebistas. Do lado de Temer havia também dois lados. Se saísse vitorioso na capacidade de acalmar seu partido, se credenciaria como o grande nome do governo. Se desse errado, seria ele alçado para cargo de Presidente em caso de impeachment. Ele tinha menos a perder. As cartas estavam na mesa.

A coroação de Temer nada mais é do que o ápice do mais bem conduzido processo de contragolpe político da história recente. Depois de se eleger em consórcio com o PMDB, Dilma traiu seus sócios e tentou fazer o partido conhecer a lona, algo de uma inocência política assustadora. Articulada com outros caciques, ela tentou drenar os deputados peemedebistas para outras agremiações, no intuito de transformar o mais poderoso partido do país em mero coadjuvante. A resposta veio de forma cruel. A eleição de Eduardo Cunha foi a primeira demonstração de força. A partir dali o rolo compressor do PMDB começou a esmagar o Planalto sem dó nem piedade. No embate de forças, venceu quem podia mais. O contragolpe fez a Presidente balançar em sua cadeira e sentir o cheiro da fritura do impeachment. A saída foi articular uma renúncia branca e entregar o poder político pleno do governo para o vice, Michel Temer. Dilma saiu vencida.

O PMDB tomou o controle do governo, mas não sem a honrosa ajuda do próprio Planalto, que praticou um festival de trapalhadas políticas como talvez nunca tenha se visto na República. Pela primeira vez o Brasil, que possui uma Constituição parlamentarista dentro de um regime presidencialista, vive uma situação curiosa. A Presidente, sem poderes, despacha no Planalto, enquanto Eduardo Cunha dá expediente na qualidade de Primeiro-Ministro na Presidência da Câmara dos Deputados, impondo sua agenda, derrubando e vetando ministros. No Senado, Renan Calheiros assumiu o controle do show da mesma forma. A coroação de Temer vem dar corpo ao triunvirato peemedebista que passou a comandar o país.

A agenda e a caneta passaram para as mãos do PMDB, que devolveu o golpe que estava sendo articulado contra suas hostes. O mesmo governo que tentou desidratar o sócio, caiu de joelhos diante da musculatura e articulação política de seus caciques. Em suma, o contragolpe peemedebista fez com que a Presidente se rendesse ao partido. Um renúncia branca. Um enredo digno de House of Cards.

Livre do risco do impeachment, Dilma ouviu a porta se fechar. Temer deixava o gabinete presidencial. Ela então olhou pela janela e entendeu que agora era apenas uma coadjuvante. A economia nas mãos de Levy. A política nas mãos de Temer. Em suas mãos restava pouco. Passou a viver, enfim, a solidão sem poder.

quinta-feira, abril 02, 2015

Realidade Paralela

O povo diante do Congresso Nacional vibrava com o derradeiro 336º voto. Uma sensação de alívio e felicidade plena tomava conta daqueles que se aglomeravam na Esplanada dos Ministérios. A multidão comemorava a conquista de um movimento que havia começado meses antes: assim como ocorreu com Collor, a Câmara dos Deputados havia afastado Dilma Rousseff da Presidência da República.

"Chegou a hora", disse Michel Temer, reunido com assessores no Palácio do Jaburu, residência oficial do Vice-Presidente. Ele já tinha uma equipe em mente, além de uma agenda para ser implementada. O advogado, doutor em Direito, Procurador, Presidente da Câmara e Vice-Presidente, tornava-se o 37º Presidente do Brasil.

Michel, logo depois da instauração do processo pelo Senado, já ocupando o terceiro andar do Planalto do Planalto, confidenciou com interlocutores: "É um grande desafio. Governarei para o País. Esta é a missão do PMDB, sempre conduzir a nação nos momentos mais turbulentos" e continuou "Faremos reformas. Colocaremos o Brasil nos trilhos". Seu plano estava traçado. Governaria apenas parte de um mandato, portanto, apesar de ter o tempo contra si, tornou o relógio seu aliado. Não perderia sequer um segundo.

Os maiores colunistas políticos do Brasil falavam em triunvirato: Michel Temer, Renan Calheiros e Eduardo Cunha trabalhavam em sintonia. Não havia mais atritos com o Congresso Nacional e uma sensação de normalidade política voltava a tomar conta de Brasília. "É o retorno do establishment", disse um notório cientista político, que acrescentou: "O sistema tomou para si o poder de volta".

A primeira missão de Temer, ao lado Renan e Cunha, foi a diminuição do número de ministérios. Dos assustadores 39, caíram para 20, como era a proposta do PMDB. O Presidente queria um governo de união nacional, "nos moldes do que realizou Itamar Franco". O Partido dos Trabalhadores, destroçado diante do processo de impeachment de Dilma, foi chamado para compor. Como era esperado, decidiu ficar de fora. Nos bastidores do petismo o PMDB era chamado de traidor e já articulavam um movimento pela volta de Lula.

Além de Kassab, do PSD, que foi mantido frente ao Ministério das Cidades e Armando Monteiro, do PTB, no Desenvolvimento, Michel decidiu manter Joaquim Levy na Fazenda. Mas o Presidente foi além. Uma turma de economistas ligados a Armínio Fraga completou a equipe. Os primeiros sinais foram escutados no exterior. Uma missão do novo governo viajou a Nova York e Washington, selando a volta da credibilidade econômica do país.

Rubens Barbosa, antigo Embaixador em Washington durante os anos de FHC, assumiu as Relações Exteriores, deslocando o eixo da política externa de volta aos patamares tradicionais do Itamaraty, que voltou a ser valorizado. União Européia e Estados Unidos celebraram este movimento. A Casa Branca fez um convite oficial para que Temer encontrasse com Barack Obama ainda antes do final do ano.

Para a pasta da Justiça, desgastada com o escândalo da Lava Jato, Temer trouxe um grande jurista paulista, egresso da Faculdade de Direito do Largo do São Francisco, que o auxilia na tarefa de indicar os novos membros do Supremo. "Cogita-se o nome do juiz Sérgio Moro", confidenciou-me uma fonte ligada ao novo ministro.

Em pouco tempo a inflação começou a ceder, especialmente diante do controle brutal das contas públicas. Os juros começaram a cair, o dólar despencou e o crédito começou a fluir. A classe média voltou a viajar ao exterior. O bolsa família foi mantido. No Congresso há normalidade. O PDT comanda a pasta do Trabalho, PSB ficou o Desenvolvimento Social e até PP e DEM comandam seus ministérios. A base aliada é sólida e eficaz. Nas estatais, Temer buscou nomes do mercado, como Roger Agnelli, que passou ao comando da Petrobrás, e nomes do mesmo quilate escolhidos para o BNDES, Banco do Brasil e Caixa.

Passados dois anos de sua chegada ao Planalto e com enorme popularidade, Michel tornou-se o fiel da balança na sucessão presidencial. O Presidente simplesmente repete: "cumprirei a Constituição e meu mandato. Meu foco é fazer um bom trabalho. O que vier é consequência".

Neste momento toca o despertador. Dilma acorda-se de supetão no Palácio do Alvorada. O ano é 2015. Lá fora, escutam-se grilos e é possível inclusive ouvir o silêncio. Em seu coração um misto de alívio e desespero, na dúvida se aquilo era um sonho, premonição ou pesadelo.

segunda-feira, março 23, 2015

Temporal Político

Brasília. Final de outubro. O sol insistia em brilhar na capital federal. As nuvens tinham ficado para trás juntamente com uma campanha dura e disputada. Agora era hora de curtir o momento, planejar o governo seguinte e olhar para os próximos quatro anos. A batalha estava vencida. As nuvens tinham ficado para trás.

O novo período, entretanto, não anunciava um céu de brigadeiro. A briga por cargos começava a tomar forma e os ajustes, que não poderiam ser implementados durante a campanha, começavam a se impor. Algo precisava ser feito. Recolhida na solidão do poder, ela começava a traçar um intricado caminho. Diante de si o desafio de desviar das nuvens pesadas.

O sol estava pleno no começo do ano quando a faixa presidencial, recolocada em si mesma, repousou em seu corpo. O time escolhido não era o preferido, mas talvez acreditasse que o seu estilo gerencial pudesse dar rumo ao mosaico de forças que agora formava seu ministério. Na capital, o sol se impunha, mas a preocupação era a falta de chuva, especialmente em São Paulo.

Recolhida em uma dieta que lhe afinou a silhueta durante o mês de janeiro, seu ministro da Fazenda promovia o mesmo regime nas contas públicas, chegando inclusive além da gordura, atingindo os direitos trabalhistas. A lipoaspiração, contudo, não chegou na corrupção. O principal combustível da oposição vinha dos reajustes. O cardápio, como sempre, era vasto: energia, gasolina, insumos. Aumento de impostos, reajustes de alíquotas, corte de benefícios. Chovia em São Paulo. O alívio de um lado era preocupação de outro, já que algumas nuvens pesadas começavam a se formar em Brasília.

Na política, o cenário não era animador. Trovões vieram do outro lado da Praça dos Três Poderes quando o Planalto viu seu grande desafeto vencer a eleição para o comando da Câmara dos Deputados. A hostilidade e as trapalhadas palacianas seriam retribuídas. Enquanto isso, uma massa de ar quente se deslocava em avanço contínuo e firme para o Planalto Central. Vinha do Paraná.

No Planalto pairava uma massa de ar frio. Nada estava fora do lugar, mas a meteorologia ensina: o choque entre ambas causa nevoeiro, chuva e queda de temperatura. Foi o que vimos. Uma lista vinda de Curitiba e discutida no principal gabinete da República era o sinal claro disso. Mais uma trapalhada foi gestada com o vazamento de alguns nomes, o que causou ira no parlamento. Veio mais um troco. A terra tremeu e a garoa começou.

Os juros aumentaram, a bolsa despencou, o dólar disparou e os primeiros sinais de trovoadas começaram a ser ouvidos em nossa capital. É preciso lembrar que umidade e ar ascendente nem sempre formam tempestades. Para isso ocorrer, o ar precisa estar instável. No entanto, é exatamente o que começa a se formar hoje em Brasília, uma massa de ar instável e pesada, alimentada por uma economia cambaleante, um governo claudicante e um parlamento ferido.

No intuito de dissipar os relâmpagos, veio um pronunciamento diante da nação. Aquilo que acalmaria o tempo, trouxe ventos fortes que fizeram soar panelas e vaias. Pelo Brasil inteiro tempestades isoladas começaram a surgir. Um clima de instabilidade se disseminou e fortes chuvas de insatisfação popular devem tomar as principais cidades brasileiras no próximo domingo.

O céu de brigadeiro sumiu. Nuvens carregadas chegaram. A tempestade perfeita, a união de uma economia fraca e povo insatisfeito, somadas a uma crise de autoridade moral e governabilidade, começa a se formar, assim como foi visto em 1992. Naquela época, em meio a uma tempestade foi impedido um furacão. Dissipar estas nuvens pesadas é nosso dever. O Brasil mais uma vez está diante de tempos difíceis.

Publicado originalmente em: http://www.brasilpost.com.br/marcio-coimbra/temporal-politico_b_6844572.html

terça-feira, março 03, 2015

EUA: Republicanos preparam-se para a tentativa de retomada da Casa Branca

O salão Potomac começou a encher de uma hora para outra. Jovens entravam com suas camisetas vermelhas e seus cartazes. O vão central, destinado aos fotógrafos, foi pouco a pouco sendo tomado, pois não havia mais lugar para sentar. O público era diferente. Longe das gravatas borboletas, estes jovens eram mais jovens, apaixonados, dedicados e especialmente entusiasmados.

Vinha para o palco uma das sensações da política norte-americana no momento, o senador Rand Paul. Na noite anterior fui convidado para participar de uma reunião informal com ele e seus principais assessores e alguns apoiadores em um bar perto do hotel da convenção. Conversamos. Ele tem um jeito tranquilo, mas convicções fortes. Filho do ex-congressista Ron Paul, que também concorreu ao cargo de Presidente, assim como deve fazer o filho, Rand é um político diferente. Libertário por excelência e talvez por um influência do pai, é um tipo que paira acima de republicanos e democratas. "É aquele raro candidato que pode se transformar em uma força maior do que o partido", me disse o apoiador Allan Stevo, que em 2008 buscou uma cadeira na Câmara por Chicago. "Você também está aqui para trabalhar por Rand?", me perguntou o deputado Randy Weber, que assumiu a cadeira de Ron em Washington, quando o pai da novo fenômeno da política resolveu se aposentar. O clima ali era de entusiasmo completo.

A mesma força surgiu quando no dia seguinte ele entrou no palco de gravata, sem paletó, de calças jeans e mangas arregaçadas. Chegou batendo na regulação do Estado, um dos seus temas prediletos. Apontou contra o Obamacare e disparou: "Os americanos não podem ser obrigados a comprar um plano de saúde do governo". O auditório veio abaixo em aplausos. Logo após emendou mirando nos serviços de inteligência: "O que você fala e as informações que você troca pelo telefone são suas. Não é papel do governo bisbilhotar a sua vida". Os jovens gritavam: "President Paul! President Paul!". Quanto ao terrorismo islâmico, foi enfático: "Não podemos lutar contra o terrorismo esquecendo quem nós somos e os preceitos em que se baseiam esta nação". Foi o único, dentre todos que discursaram, que se preocupou com o fato de que a América não tem se parecido muito com o que os Pais Fundadores (Founding Fathers) imaginaram para o país. Ao final, ovacionado, disse: " Quero manter a Receita Federal (IRS) fora da vida cidadão e mais, vamos equilibrar o orçamento deste país em 5 anos". Como sempre, o auditório aplaudiu com raro entusiasmo.

O público somente lotou o auditório novamente neste dia para receber o ex-Governador da Flórida, Jeb Bush. Com menos entusiasmo, mas também com idéias novas que podem assustar os mais conservadores, Jeb defendeu os imigrantes, seu tema mais sensível, e mostrou que não fugirá do debate. Ele possui um raro conhecimento da máquina pública e como um dos participantes me confidenciou, "ele é o bom Bush". 

Diante do "bom Bush", outros defendem que a política norte-americana não pode estar presa a dois sobrenomes: "Se tivermos uma eleição entre Hillary Clinton e Jeb Bush, nos revezaremos entre duas famílias no poder desde 1992, com exceção do desastre que foi Barack Obama", me disse um dos participantes, que se classifica como "independente, com tendência a votar nos republicanos".

Jeb é realmente diferente de George. Suas idéias são mais transparentes, ele é mais moderado e preparado, logo, sofre com uma resistência maior nos setores mais conservadores do partido, onde seu irmão transitava com mais facilidade. Mesmo assim, entre algumas vaias, quando falou sobre imigração, Jeb conseguiu colher aplausos. Foi um primeiro passo.

Chegada ao final, a CPAC apresentou o resultado de sua pesquisa sobre quem era o seu nome preferido para a corrida presidencial de 2016: Mais uma vez deu Rand Paul, com 26%, seguido de Scott Walker com 21% e Ted Cruz com 12%. Jeb Bush veio em quinto lugar, com 8%, atrás de Ben Carson, com 11%.

Diante do que foi visto durante a cobertura do Diário do Poder (único representante da imprensa brasileira no evento) durante os três dias de conferência, há dentre os republicanos diversas opções de candidatos, dos mais conservadores aos mais libertários, mas uma certeza: depois de oito anos de Barack Obama, este partido não medirá esforços para recuperar a Casa Branca. Este é o caminho natural. Se em 2010 os republicanos retomaram a Câmara e em 2014 foi a vez do Senado, a tendência pode ser a resgate do endereço mais cobiçado de Washington, na avenida Pennsylvania 1600. Resta saber quem será o líder que conduzirá o partido neste processo. Está oficialmente aberta a temporada de apostas.

domingo, março 01, 2015

EUA: Republicanos miram nos Democratas

Muitos confundem a cor branca com paz. A neve que cobriu as imediações do hotel onde os conservadores norte-americanos se encontram nestes dias poderia sugerir este cenário. Mas dentro do salão Potomac, a cor vermelha do cenário se confundia com uma platéia incendiada pelas palavras de políticos que miravam em Obama. O Presidente é um alvo fácil, impopular e sem apoio no Congresso. O partido democrata, um demônio que derrete as esperanças do americanos. Os republicanos, aqueles que podem resgatar os verdadeiros valores de liberdade e segurança nacional. Esta é a mensagem da Conferência de Ação Política Conservadora.

Talvez contagiado pelo calor conservador que emana dos jovens que assistem ao encontro dos republicanos, todos rapazes com os cabelos bem cortados, barbas feitas e moças bem vestidas e perfumadas, o antigo Presidente da Câmara, Newt Gingrich usava uma gravata vermelha. O republicano, que tentou a indicação do partido em 2012, mirou em seu adversário preferido, o ex-Presidente Bill Clinton: "O que podemos esperar de um homem que senta com ditadores no intuito de arrecadar doações de milhões de dólares para sua fundação?". Ele foi além: "É preciso realizar uma auditoria nesta fundação, que gasta com iates, viagens e mansões. Esta fundação precisa mostrar de onde vem cada centavo que arrecada". O alvo certamente não foi Bill, mas Hillary, que deve enfrentar um republicano na corrida presidencial.

O sangue latino também corre nas veias conservadoras. Sentimos isso quando Marco Rubio, de gravata azul, chega no recinto. O salão encheu para ouvir o Senador pela Flórida e uma das grandes esperanças republicanas de resgatar o voto de uma minoria que hoje apóia largamente os democratas. Mas a gravata azul de Rubio não esfriou o local, muito pelo contrário: "A América é excepcional. Nós sabemos e o mundo sabe disso". O público foi ao delírio. Logo depois virou seu discurso para a política externa de Obama: "que trata o aiatolá do Irã melhor do que o Primeiro Ministro de Israel". Os aplausos devem ter sido ouvidos em Tel Aviv. Terminou de forma enfática: "Nossos aliados não confiam em nós. Nossos inimigos não nos temem". Uma clara referência aos europeus e Putin. 

Enquanto Rubio deixava o palco ovacionado, Rick Perry preparava-se para entrar. Se houve um encontro entre ambos nos bastidores, certamente o homem que governou o Texas por 15 anos agradeceu ao jovem Senador. A platéia estava aquecida e a neve e gelo lá de fora talvez já tivessem virado água. "Nós não começamos esta guerra, mas nós vamos terminá-la", vaticinou o texano sobre o terrorismo islâmico. Terminou dizendo que "os melhores dias da América estão logo adiante", fazendo referência ao excepcionalismo norte-americano, mas sempre lembrando que o futuro do país abençoado por Deus está em jogo.

Mas não foi Rubio ou Perry que receberam a maior salva de palmas quando o auditório aplaudia os nomes dos prováveis candidatos presidenciais na voz do âncora conservador de televisão Sean Hannity. A turma preferiu Ted Cruz e Rand Paul, que deve colocar o auditório em combustão ainda hoje.


*Texto é parte integrante da cobertura da CPAC 2015 exclusiva para o Diário do Poder pelo corresponde político Márcio Coimbra.
Publicado originalmente em: http://diariodopoder.com.br/noticia.php?i=27609747648