terça-feira, maio 21, 2013

Bolsa-Planalto

O rumor do fim do Bolsa Família, assim como aquele que dizia que haveria um bônus pelo dia das Mães, deixou o País em pânico, pois hordas de pessoas foram até os postos de saque e agências da Caixa Econômica Federal desesperados para retirar dinheiro.

Pois então a ministra Maria do Rosário vem a público dizer que o boato era coisa da oposição. Depois desculpou-se pela irresponsabilidade de suas palavras, mas seguiu dizendo que era sua opinião pessoal. Seria a oposição? Poderia até ser se houvesse oposição. De fato, não temos.

Todo esse acontecimento deixa claro uma coisa: o jogo da sucessão presidencial já começou. Dilma e sua equipe resolveram entrar em campo para defender o direito do petismo de se manter no comando do país. Gilberto Carvalho, o homem de Lula no Planalto, já havia avisado que o jogo seria iniciado. Começou. Dilma disse que em campanha se faz o diabo. Pois bem, o diabo começou a ser feito.

Eduardo Campos colocou o bloco no rua. Aécio começa a dar seus primeiros passos. Marina acena lá e cá na construção de sua Rede e assim a sucessão vai tomando forma. O PT mostrou seus dentes. Mostrou o poder do Bolsa-Família e como existem brasileiros dependentes deste tipo de programa. Assim que começar a campanha para valer, esta mesma parcela da população será assustada, mais uma vez, com a notícia de que se o PT não vencer, o dinheiro secará. Como sentiram o gosto amargo do pesadelo, votarão na manutenção do butim.

O boato foi então espalhado pela oposição? Não, de forma alguma, nem a oposição seria tão infantil. O jogo pesado já começou.

sexta-feira, maio 17, 2013

O Milagre Japonês

Shinzo Abe voltou ao poder no Japão. Depois de um governo desastroso em 2007, quando sucedeu o brilhante Junichiro Koizumi, Abe parece ter voltado renovado e revigorado. Levou seu partido de volta ao poder e pelo andar das coisas conseguirá obter maioria na Câmara Alta nas próximas eleições. Se você acha que viu reformas até aqui, espere até o partido liberal democrático conseguir esta vitória eleitoral.

O foco principal das ações de Abe neste retorno residem na área econômica. Na verdade não só porque o Japão necessita desesperadamente de reformas, mas porque viu seu poderio econômico foi superado pela pujança chinesa. Uma China forte frente a um Japão apático pode levar a outros desdobramentos mais sérios. Portanto, é hora de o Japão responder.

Abe trabalha em três frentes: estímulo fiscal, foco na inflação (ou deflação) e reformas estruturais. Já lançou as duas iniciativas iniciais, despejando dinheiro na economia, o que mexeu na questão inflacionária e no valor da moeda, barateando as exportações. O terceiro tiro virá somente depois das eleições.

O problema até aqui é observar que o choque de estímulos que tem feito o Japão responder positivamente é oriundo de manobras derivadas do Estado. Se for usado apenas como estímulo, ao invés de indutor inicial, pode trazer bons resultados. O perigo é o Estado centralizar e adotar estas posições no longo prazo, manipulando a economia. Se chegarmos aí, o Japão colherá problemas.

Por enquanto tudo é sucesso. Aprovação de 70% do governo e a possibilidade de uma vitória avassaladora na Câmara Alta, o que propiciará Abe a passar toda a reforma que tem em mente. Por enquanto é observar, como está fazendo a China.

quinta-feira, maio 16, 2013

Change?

Obama parece ser uma pessoa bacana. É o típico caso daquele cidadão que você gostaria de receber para jantar em sua casa. É um belo candidato. Em suas duas eleições esbanjou carisma e acordos certeiros no momento correto, tanto nas primárias, quanto nas eleições. Já derrotou Hillary Clinton, John McCain e Mitt Romney. Obama, vale lembrar, é um candidato oriundo da desleal e suja política de Chicago, de onde é prefeito seu antigo Chefe de Gabinete, Rahm Emanuel.

No governo, entretanto, Obama tem se mostrado diferente. O candidato que falava em mudança, inclusão e despejava otimismo frente aos imigrantes legais e ilegais, assim que chegou para governar mudou. Não mudou o discurso, mas percebeu-se que na prática vemos um Presidente muito distante de suas promessas. Por exemplo, é o Presidente que mais deportou ilegais dos Estados Unidos.

Quantos votos recebeu com a promessa de fechar Guantánamo? Muitos. Bem, esta é uma promessa que ficou pelo caminho. Vale lembrar que o mesmo candidato que se elegeu com base na crítica sobre as políticas internacionais de Bush, manteve seu Secretário de Defesa, Robert Gates, por anos frente ao Pentágono. Não é o que podemos chamar de mudança na agenda das guerras no Afeganistão e Iraque.

O Presidente que caçou e pegou Bin Laden é responsável também pelo uso brutal dos drones, aviões não tripulados que realizam inesgotáveis caças a alvos definidos pelos sistemas de defesa. Imaginem se Bush tivesse a audácia de usar os drones desta forma...seria bombardeado, pela imprensa.

Quando a imprensa divulgou alvos do governo americano em sua guerra ao terrorismo, Obama ficou furioso. Desta vez, foi mais adiante: seu governo monitorou os números de telefones das fontes jornalísticas usadas pela Associated Press. Esqueceu que existe a Primeira Emenda da Constituição.

Os escândalos mais recentes, como na AP, além de outros como aqueles envolvendo Bengazhi e por fim a caça discriminatória do IRS (Receita Federal americana) para monitorar entidades e membros ligados ao Tea Party - movimento ligado partido opositor, o Republicano, somente mostram uma face perigosa da administração Obama.

Ele chegou prometendo mudaças. Change. Enfim, o que mudou, parece ser para pior. As políticas de seu governo, guiadas por suas decisões, são temerárias. Atentam muitas vezes contra princípios primordiais da formação dos Estados Unidos. A gritaria já começou.

A próxima eleição pode trazer um republicano de volta para Casa Branca.

quarta-feira, maio 15, 2013

Recessão socialista francesa

A França, que apresentou sinais de melhora durante a gestão de Sarkozy, parece ter entrada em uma perigosa espiral socialista com Hollande. A economia do país entrou oficialmente em recessão, tendo encolhido 0,2% no primeiro trimestre do ano.

No final de 2012, o país já mostrava os sinais claros que nada ia bem. A economia já havia encolhido 0,2% no último trimestre do ano. Agora o governo socialista fala em crescimento de 0,1% do PIB em 2013. Sabemos que isso não vai ocorrer. Será pior. Para entender é apenas preciso olhar as políticas aplicadas por Hollande em seu governo, um potencial incrível para acelerar o desgaste ainda mais.

A Europa também não apresenta sinais de melhora, pois o trabalho de políticos austeros que chegaram ao poder sucedendo governos gastadores, é demorado e demanda importantes reformas. Suas políticas baseiam-se em dois pilares: diminuição dos gastos públicos e da rede de assistência do Estado - ações que o governo Hollande nem pensa em fazer.

O caminho de Hollande é o oposto. Ao mesmo tempo que gera novos impostos, também cria algumas tímidas flexibilidades trabalhistas. Está sem rumo. Isto traz um componente de insegurança para quem investe ou possui um negócio. Em suma, Hollande não busca reformas estruturais que gerariam uma França mais competitiva. Parece ser um governo que ainda não sabe a que veio, dentro ainda de uma inabilidade decisória assustadora.

Enquanto isso, o desemprego ronda 10,6%, com viés de alta para o próximo ano.

terça-feira, maio 14, 2013

Cameron em Washington

A aliança que une Estados Unidos e Reino Unido é forte e duradoura. São parceiros estratégicos e, sem importar a ideologia dos governos instalados na Casa Branca ou em Downing Street, veremos sempre um alinhamento eficaz entre as duas nações.

Dentro desta linha Cameron chegou em Washington para um encontro de cúpula com Bacack Obama. A reunião tinha dois eixos centrais: Síria e comércio internacional. Sobre o primeiro tema, Cameron foi levar a Obama a idéia de que os britânicos acreditam, depois de conversas com os russos, de que Putin esteja mais flexível em relação a apoiar as posições ocidentais. Kerry, que esteve no encontro e acaba de voltar da Rússia, deve ter se lembrado de como o Presidente russo conseguiu embaralhar o jogo ainda mais (pelo menos em sua cabeça). Mas o britânico mostrou que acredita que pode servir como ponte entre os dois países no sentido de aprovar uma resolução intermediária que possa servir para ambos os lados. A conferir.

O segundo ponto da agenda foi comércio. Cameron tenta ampliar as trocas comerciais entre os Estados Unidos e a União Européia. Precisa primeiro controlar o fogo amigo, uma vez que assim que chegou a Washington, dois secretários de seu governo, Michael Grove e Philip Hammond, declararam que votarão pela saída do Reino Unido da União Européia. Será preciso saber se haverá uma UE para negociar um acordo. Mesmo assim, Cameron, que sediará a próxima reunião do G8 na Irlanda do Norte   , pretende usar este encontro como o marco de um novo acordo comercial dos europeus com os americanos. Tudo a conferir.

Até o momento, muitas intenções, pouco efeito prático.

segunda-feira, maio 13, 2013

Borisov vence na Bulgária

E a direita voltou ao poder na Bulgária. Voltou sem ter saído. Uma destas coisas interessantes que o parlamentarismo produz. O governo de Boiko Borisov havia deixado o governo em fevereiro, quando havia uma escalada de protestos em Sofia. Os protestos tinham diversas razões, mas serviram para que o governante se retirasse e novas eleições fossem convocadas.

A mesma população que tanto se empenhou pela saída de Borisov, pareceu não estar tão empolgada assim em colocar alguém em seu lugar, pois o GERB, seu partido, alcançou o primeiro lugar nas eleições deste final de semana. Entretanto, os 31% que receberam não formam maioria absoluta no parlamento e portanto não há certeza se conseguirão montar um governo. Em segundo lugar chegaram os socialistas com 27,5%. Por mais que Bosirov tenha vencido, formar um gabinete não será fácil.

Mas aqui vale ressaltar o faro político de Borisov. Um governante pressionado por denúncias de corrupção e carregando a decepção dos búlgaros com a entrada na União Européia soube sair de cena no momento correto, tomar o fôlego necessário e voltar ao espectro político pelas urnas. Portanto, por mais que seja difícil montar uma coalizão, para um político como ele, não é impossível.

O comparecimento tímido do búlgaros, apenas 53% apareceram para votar, evidencia a falta de confiança na classe política. Enquanto isso, os outros partidos denunciam casos e mais casos de fraude. Tudo isso evidencia problemas políticos sérios para um país que depois de seis anos ainda não conseguiu perceber muitas vantagens em fazer parte da União Européia, a não ser a maior facilidade em emigrar para vizinhos com economia mais saudável.



quinta-feira, maio 09, 2013

Mensagem de Cameron

A Rainha falou, mas a mensagem foi de David Cameron, responsável por seu governo. Ali foi possível entender as prioridades da coalizão Conservadora/Liberal-Democrata para o próximo ano. No que cabe a Rainha, exclusivamente, foi significativa a presença de Charles ao seu lado, mostrando que, aos poucos, começa uma processo de transição no trono britânico.

Voltando a política, Cameron mostrou as cartas quanto a política de imigração. Com a crise que circula pela Europa, o Reino Unido decidiu que a saída por enquanto é se fechar. O mais notório serviço público inglês, o NHS, relativo a saúde, deixará, aos poucos, de atender os europeus residentes nas ilhas britânicas. Afinal, quando um cidadão europeu fixa residência no Reino Unido passa a usufruir de seu sistema universal de saúde sem pagar uma libra.

O veto de uso do NHS se estenderá aos estrangeiros em visita no Reino Unido, que hoje podem fazer uso do sistema. Se estenderá também para os residentes ilegais, que hoje usam o sistema sem limitações.

E aqui chegamos ao ponto central. O Reino Unido reduzirá o acesso ao seu sistema de saúde pelos estrangeiros, mas também passará a aplicar um sistema mais rígido de controle de fronteiras e sistemas mais rápidos de devolução de ilegais para seus países. Donos de imóveis precisarão verificar se os inquilinos estão legalmente no país e as empresas tendem a sofrer pesadas multas se contratarem ilegais.

As medidas reconciliam os Conservadores com parte do eleitorado que se movimentou em direção dos nacionalistas do UKIP, fechando o cerco na imigração ilegal e limitando o uso do NHS. Cameron enfrentará eleições gerais duras em 2015.

Nada sobre o referendo de permanência do Reino Unido na União Européia. Cameron deslocou-se para direita, mas sem solavancos, pois precisa manter parte do eleitorado ao seu lado. O referendo vem em 2017, se ele for reeleito.

Cameron faz o jogo para se manter no poder, sem grandes reformas, nem grandes feitos.

quarta-feira, maio 08, 2013

Realidade Política

Dilma colocou o bloco na rua. Na dúvida, articula sua candidatura para não ser atropelada pelos acontecimentos. Precisa mostrar musculatura para que seu próprio partido não acabe por rifar seu nome e optar por Lula. Ela já manobrou para cima do PSB e não descansará até consolidar seu nome.

O movimento desta vez foi em direção ao que restou da oposição. Dilma, que já possui relações políticas estreitas com Kassab, oficializou a entrada de seu partido, PSD, para dentro do governo. O curioso, no entanto, foi perceber o nome do escolhido: Guilherme Afif Domingos, Vice-Governador de São Paulo na chapa vencedora do tucano Geraldo Alckmin, eleito ainda quando Afif era membro do DEM (ex-PFL), antes de embarcar no PSD.

A escolha e o aceite de Afif desnuda inúmeros fatos. O primeiro deles é perceber que o Brasil caminha a passos largos para uma grande coalizão que englobará praticamente todos os partidos encabeçada pelo PT. O projeto de manutenção de poder do petismo está sedimentado e isto levou os políticos a buscarem formas de aderir ao consórcio governista em prol de sua própria sobrevivência política. O PMDB soube disto desde sempre, mas Kassab, com a criação do PSD, foi a ponte para que qualquer oposicionista conseguisse aportar nas hostes governistas.

Assim, a escolha de Afif é sintomática no sentido de mostrar o novo jogo de forças da política brasileira. Como PSDB, DEM e PPS tornaram-se incapazes de produzir uma oposição viável na disputa pelo poder, seus membros, por instinto de sobrevivência política, procuraram agremiações onde pudessem acomodar seus interesses. Assim, a tríade de partidos da oposição murchou e tende a desaparecer.

Os sucessores do PT virão dos quadros políticos abrigados em qualquer um dos partidos que orbitam em torno do governo Dilma. Hoje, muitos tucanos abrigam-se no PSB de Eduardo Campos e muitos democratas no PSD de Kassab - caso de Afif. Estamos passando por um período de acomodação de forças depois de a oposição se mostrar ineficaz na disputa pelo poder.

Uma nova geografia política está sendo traçada. Quem não entender o movimento pelo qual estamos passando, será excluído do processo político - caso do restante do DEM e parte do PSDB. A única forma de suceder o petismo, talvez seja fazer parte de sua órbita política. A única de forma de sobreviver como político no Brasil de hoje, talvez seja fazer parte da grande família governista. A única forma efetiva de fazer alguma oposição, talvez seja dentro do próprio governo.

Alguns me perguntarão, mas e os programas e projetos de País? Respondo: Há tempos deixaram de existir, afinal, os políticos precisam sobreviver. A política no Brasil não é simplesmente uma disputa pelo poder, mas uma engenhosa acomodação de forças e interesses.

terça-feira, maio 07, 2013

Vespeiro sírio

John Kerry chegou ao comando do Departamento de Estado em um momento muito delicado. A escalada da tensão na Síria tem feito todos ficarem apreensivos. Obama tem sido pressionado para tomar ações que não deseja. Todos estão com um problema sério para resolver.

Israel entrou no jogo no final de semana, como escrevi aqui. Não entrou sozinho. Chegou respaldado pelo Reino Unido e pelos Estados Unidos. Isto fez com que surgissem reações do Irã, mas também do governo turco, que deseja a saída de Assad, mas detestou a intervenção de Israel.

Uma peça importante neste tabuleiro é a Rússia. Até agora, Putin mostra-se muito cético. Kerry chega a Moscou hoje com o intuito de seduzir o Presidente russo em favor da estratégia americana. A dúvida que fica no ar é exatamente saber se existe uma estratégia americana. O que pretende Obama é uma incógnita.

A Casa Branca tem evitado realizar uma intervenção na região, contudo, está sendo pressionada a se movimentar. Entretanto, manter Assad talvez seja a ação estratégica mais indicada para os americanos, dadas as opções para o preenchimento do vácuo de poder na Síria. A oposição que deseja o fim de Assad tem forte traço religioso. A opção laica está do lado de Assad, além cristãos, drusos e partes da população muçulmana mais próxima do ocidente. Enfraquecer Assad seria uma opção inteligente?

Muitos carregam esta dúvida. Muitos querem a saída de Assad, mas mexer na estabilidade da Síria é abrir um vespeiro na região. É preciso estar muito preparado para o pós-Assad e ninguém parece estar disposto a mexer neste intrincado tabuleiro. E agora?

segunda-feira, maio 06, 2013

Israel entrou no jogo

Israel entrou no jogo. Pelo menos formalmente. Os ataques que atingiram a Síria e são atribuídos a Israel fizeram as peças se movimentar. De um lado Reino Unido e Estados Unidos defenderam a necessidade de defesa exercida por Netanyahu. Do outro lado, houve movimento na Liga Árabe e no Irã. A Síria diz que pode retaliar. Israel está de prontidão.

Era tudo o que Assad menos precisava neste momento. Existem muitos interesses em jogo na região. Até o momento, ninguém ousou invadir a Síria e apenas usam os opositores do regime como peça fundamental especialmente fornecendo armamentos. Parece que até o momento a estratégia não surtiu efeito. Obama disse que o limite para intervenção seria o uso de armas químicas ou biológicas por Assad. Ele usou. Obama se calou. Sofre pressão para agir e não perder credibilidade.

Agora, sem maiores explicações, Israel entra em um jogo que até o momento não é seu. Mas aceitou. Isto diz muito sobre o que vem por aí. Diz muito porque a Rússia se manifestou e falou que depois do episódio cresce a chance de intervenção na Síria.

O que vale até aqui é entender que a "paz internacional" de Assad começou a ser ameaçada, de verdade. Veio o primeiro sinal.

sexta-feira, maio 03, 2013

UKIP cresce. Cameron resiste?

Ontem o Reino Unido enfrentou eleições locais. Os primeiros resultados já são conhecidos e estão tornando a vida de David Cameron um pesadelo. Todo o avanço dos outros partidos ocorreu sobre os parlamentares do Partido Conservador e dos Liberais-Democratas, que lideram a coalizão de governo.

Cameron já esperava a perda de cadeiras, mas tudo indica que os números podem mostrar uma realidade muito mais amarga do que as projeções. Os trabalhistas ganharam cadeiras, mas as estrelas do momento estão em outro partido: UKIP, caracterizado por seu discurso anti-europeu e anti-imigração.

As pressões em torno do Primeiro-Ministro são, neste momento, acirradas. A ala mais conservadora de seu partido clama por uma guinada em seu governo, um movimento que levaria Downing Street para posições mais duras, aproximando-se do eleitorado conquistado pelo UKIP.

Cameron resiste, pois sabe que ceder neste momento talvez seja abrir mão de seu governo. Explico. Cameron é um centrista e tem governado desta forma desde o princípio. Como seu partido não obteve maioria para formar um governo, teve que ceder parte dele aos liberais-democratas de Nick Clegg, também um centrista com posições mais flexíveis para ambos espectros do jogo político.

Se Cameron radicalizar, perde o apoio de Clegg e por assim dizer, deve abandonar Downing Street também. Se não ceder ao radicais de seu partido, pode perder apoio interno. Isto teria dois desdobramentos: perda de poder político (que pode levar o partido a substituí-lo) ou correr o risco de levar uma surra nas próximas eleições ao Parlamento Europeu.

Ao Primeiro-Ministro cabe a construção de uma sintonia política muito fina, pois seu partido não possui maioria no Parlamento. A política britânica é traiçoeira, lembram Thatcher e Churchill e mais recentemente Tony Blair. Cameron pode ser a próxima vítima?

quinta-feira, maio 02, 2013

Abre o olho, Dilma

Esta foto diz muito. Dilma precisa abrir o olho. O movimentos estão claros e quando surgem desta forma tudo leva a crer que a movimentação de bastidores realmente existe. Dilma pode estar sendo rifada dentro do PT como a forma mais segura de garantia para manutenção do poder.

O PT pode ter outros planos para mexer com a sucessão e este plano se chama Lula. O partido teme perder o Planalto, por mais que diga o contrário. Precisa de uma estratégia para colocar em prática caso Dilma comece a perder o fôlego, algo muito provável e possível de acontecer.

Dilma não sabe se relacionar com o Congresso Nacional. Sua falta de habilidade política é comentada por todos os salões onde circulam parlamentares. A maioria sente saudades de Lula, quando o processo era mais solto e os pleitos eram atendidos com mais facilidade. Sua relação com ministros e subordinados, cercada de grosserias já não é novidade em Brasília. Muitos não suportam seu temperamento. Sua opção de política econômica desenvolvimentista turbinada pelo Estado está fazendo água. A inflação volta aos poucos a atormentar sua Presidência. Dilma ainda carrega os esqueletos dos anos de Lula. Ela ainda derrapou feio aos olhos dos companheiros quando mandou investigar Rosemary Noronha e aliviou a barra de seus amigos, como o ministro Fernando Pimentel e Erenice Guerra, que circula com desenvoltura pela capital.

Bem, enquanto Dilma planta e colhe problemas, Lula vende soluções para o petismo. Sua candidatura colocaria um freio em Eduardo Campos, traria de volta a tranquilidade do jogo no Congresso Nacional, varreria o que restou da oposição com facilidade e aplicaria uma surra eleitoral em Aécio Neves. Tudo isso ainda com a possibilidade de tentar um último movimento para salvar os mensaleiros.

A estratégia pode ser jogar no colo de Dilma o que está errado e vender Lula como o grande mago: o retorno do salvador.

Aliás, como disse Fernando Haddad ontem, "Quem sabe um dia Lula volte para Presidência. Ele está bem de saúde". Abre o olho, Dilma.

terça-feira, abril 30, 2013

A Curiosa Política Italiana III

Enrico Letta tornou-se o Chefe de Governo italiano. Para isso houve uma grande coalizão, que passou por Berlusconi e Monti. Com o voto de confiança primeiro na Câmara e hoje no Senado, pode começar a tomar os primeiros passos.

O primeiro será uma viagem a Berlim para encontrar-se com Angela Merkel. Logo depois, Paris, e enfim Bruxelas. Letta é um político pró-União Européia, mas hoje provocou surpresa ao declarar que a Itália e outros países precisam abrandar as políticas de austeridade para enfrentar a crise. Sua conversa na Alemanha deverá colocá-lo de volta no prumo.

Mas como toda coalizão italiana, esta já começou a lidar com problemas. Berlusconi já adiantou que pode retirar seu apoio ao governo caso algumas de suas propostas não sejam absorvidas por Letta. Assumindo o governo, o Partido Democrático chegou ao poder, mas para manter-se lá precisa tanto do apoio de Berlusconi como do partido de Mario Monti, premiê que tirou a Itália do desespero no último ano. Uma sintonia difícil de ser alcançada.

Portanto, os desafios de Letta são enormes. Manter uma coalizão frágil calcada em adversários políticos, agradar seus partidários socialistas, além de enfrentar a crise européia com sua receita de flexibilização da austeridade. Parece impossível. Mas ele disse que consegue. Coisas que só a curiosa política italiana explica.

segunda-feira, abril 29, 2013

Aécio e Eduardo

Prestem atenção nesta foto. Nela pode estar o futuro da política brasileira. Certamente é um caminho que continuará pelo lado esquerdo da política, mas de alguma forma pode representar um período pós-petismo.

A política brasileira é conduzida muito mais por uma confluência de interesses do que por convicções políticas ou posicionamentos doutrinários. Se o PT souber acomodar aliados, repartir poder e verbas públicas, tem grande chance de continuar a dominar a política nacional. Do contrário pode ver seu poder ruir.

A hegemonia petista consolidou-se de tal forma que mudou a geografia política partidária do Brasil. Os efeitos mais claros foram a adesão do PMDB, praticamente sumiço do DEM, surgimento do PSD e o enxugamento do PSDB. Ganharam os partidos pequenos, o PSD e PMDB, destino dos parlamentares  que tentaram sobreviver a pressão petista.

Com uma oposição inexistente, o natural seria que a opção pós-petismo saísse dos quadros governistas. Veio do PSB, que cresceu, aproximou-se do empresariado e até agora jogou nos dois campos.

Mas interessante mesmo seria ver estes dois juntos. Aécio e Eduardo juntos poderiam vencer o PT. Na geografia eleitoral ambos atacam o eleitorado petista de frente nos bastiões que garantem a vitória presidencial petista: Nordeste e Minas Gerais.

Considerando-se que o Sul, Centro-Oeste e São Paulo são terrenos de resistência ao petismo (que sempre garantiu sua vitória no binômio Norte/Nordeste + Minas), Aécio e Eduardo quebram a estrela vermelha em seu principal vértice eleitoral.

Mas tudo depende ainda de interesses e acomodações, que não tardarão a bater na porta da dupla quando entenderem seu potencial de fogo.

domingo, abril 28, 2013

A Winston. Why not a Maggie?

A novidade trazida pelo Bank of England para a nota de £5 é magnífica. Trará Winston Churchill como figura principal.

As inúmeras qualidades de Churchill e tudo aquilo que ele representa para os britânicos justifica, sem dúvida alguma, esta homenagem. Os detalhes que virão na nota nota remetem ao líder inglês, como a figura do parlamento logo atrás dele, ou como o horário de seu famoso discurso, gravado no Big Ben da nova banknote de £5.

Lembrar de líderes determinantes, que tragam memórias importantes para a população é muito importante. Nas notas de libras escocesas (sim, são diferentes como tudo na Escócia), por exemplo, encontra-se Adam Smith. Não que a cidade industrial-sindical de Glasgow aprove, mas pelo menos é uma homenagem para que os escoceses lembrem de um passado quase esquecido.

Mas homenagem mesmo seria trazer Margaret Thatcher estampada em alguma nota de "pound sterling", afinal, ela foi a grande defensora da libra esterlina frente ao avanço europeu e talvez, sem sua presença, a moeda britânica fosse hoje apenas uma distante lembrança.

Os britânicos talvez passem a chamar a nota de £5 de simplesmente "a Winston". Nada mal seria seria ter também uma nota para chamar simplesmente de "A Maggie".

sexta-feira, abril 26, 2013

Desemprego na França

A França vive um momento delicado. Com uma enorme rede de proteção social, tem encontrado dificuldades em fechar as contas. Os pesados impostos pagos pela iniciativa privada, responsável por bancar o "Estado de Bem-Estar Social", têm estrangulado sua competitividade e inovação. Além disto, este sistema acaba por induzir os desempregados a seguir fora do mercado de trabalho.

A eleição de François Hollande é apenas mais um capítulo triste desta história. Sarkozy tentou reformar o sistema, mas logo entendeu que a acomodação de interesses é muito maior do que a força política de um Presidente. Foi mandatário de um termo. Os franceses ceifaram seu governo ao meio, assim como a possibilidade de reformar o sistema. Mais do que isso, os eleitores levaram para seu lugar um homem claramente disposto a aumentar ainda mais o sistema que mata a França aos poucos. 

Os decepcionantes resultados econômicos não demoraram a aparecer. A França vive uma crise sem precedentes. Não faltam analistas apostando em Paris como a bola da vez na Europa, ao invés de Roma ou Madri. Enquanto na Espanha e Itália reformas necessárias são realizadas, na França o sistema somente se alarga, sem controle, o que poderá levar a implosão do Euro e como consequência, da União Européia. 

Na França já são mais de 3,2 milhões de desempregados. Um recorde sem precedentes. Dependendo dos cálculos utilizados, o número pode chegar a alarmantes 4,7 milhões. No Brasil, por exemplo, cálculos artificiais jogam o desemprego abaixo dos 5%, mas se aplicarmos os mesmos cálculos da Europa e Estados Unidos, o desemprego no Brasil situa-se na faixa de 20%. Por certo, com 5% de desemprego, não haveria violência, o que evidencia a manipulação dos dados.

Enquanto isso, prestem atenção, a França, em pouco tempo, pode se tornar a bola da vez e neste momento, o Euro terá o seu grande teste.

quarta-feira, abril 24, 2013

A Curiosa Política Italiana II

Depois de uma reeleição polêmica em termos políticos, Giorgio Napolitano tornou-se mais uma vez Presidente da Itália. Missão cumprida, voltou-se ao executivo. Resolveu surpreender e precisou de muito menos tempo que todos imaginaram para designar o novo Chefe de Governo. Mostrou sensatez, mas agora jogou a responsabilidade nos ombros de seu escolhido, Enrico Letta.

As bolsas de apostas falavam em Giuliano Amato, de 74 anos, e nos últimos momentos surgiu com muita força o nome de Matteo Renzi, o prefeito de Florença, de 38 anos. Este teria, em tese, apesar de ser da esquerda, o apoio da direita.

Napolitano decidiu pelo meio termo. Enrico Letta é um homem forte dentro da esquerda, especialmente depois do enfraquecimento de Pier Luigi Bersani. Letta, de 46 anos, já foi eurodeputado e é muito bem visto na União Européia, o que pode ter sido um dos fatores decisivos em sua escolha.

Agora vem a parte difícil: formar um governo. Resta saber em que direção apontarão seus movimentos. Isto pode ser decisivo em relação a estabilidade e duração de seu governo. Seu ímpeto é reformista, mas para passar alterações fundamentais terá que conversar com a direita, comandada por Berlusconi. Será o momento de usar sua experiência de ter sido três vezes ministro e subsecretario do governo de Romano Prodi.

terça-feira, abril 23, 2013

A Curiosa Política Italiana

A Itália vive um impasse político. Desde que Berlusconi deixou o comando do governo, os partidos não se entendem. Mario Monti, o burocrata que governou a Itália nos últimos tempos, não obteve apoio para continuar no cargo. Como não é político, tampouco populista, foi massacrado na eleições. Um comediante, vejam só, foi a grande estrela das urnas.

Mais uma vez a Itália se dividiu e como sempre não consegue formar um governo. Vale lembrar que quando forma, em média dura um ano. O impasse levou toda atenção para a decisão do Presidente, Giorgio Napolitano.

A escolha do próximo Chefe de Governo da Itália é um assunto sério. Visto com desconfiança pela União Européia, o país pode se tornar a "bola da vez" da crise financeira que se espalha pela Europa e destroça economias desajustadas como a italiana.

Depois de Napolitano mostrar uma tendência em favor de Giuliano Amato, surge um nome da esquerda com apoio da direita (coisas que só acontecem na política italiana).  O nome é Matteo Renzi, prefeito de centro-esquerda de Florença e um político popular na Itália. Teria, vejam só, apoio de Berlusconi.

O risco para o mundo é o governo italiano sair da mãos de um burocrata competente, Mario Monti, e cair nas mãos dos políticos novamente. Bruxelas e Berlim certamente acompanham estes movimentos com atenção.

quinta-feira, abril 18, 2013

Números de Berlim

Apesar dos esforços de Angela Merkel, a economia da Alemanha crescerá menos do que o previsto. Imaginava-se chegar a 1%. Ficará nos 0,8%. A culpa, entretanto, está longe de Berlim. O problema econômico alemão atende pelo nome de Euro.

Se tudo corre bem em Berlim, o mesmo não pode-se dizer do resto da Europa. Oito economias da zona do Euro irão contrair-se, a saber: França, Itália, Espanha, Holanda, Grécia, Portugal, Eslovênia e Chipre. A grande questão é saber até que ponto os eleitores do países que custeiam a quebradeira pós-farra irão topar pagar a conta. O dia que decidirem parar, será o fim da moeda única.

O pior de tudo é entender que a crise ainda demorará muito tempo para passar. A Espanha, por exemplo, que paga um preço caríssimo pelos oito anos de irresponsabilidade econômica de Zapatero, chegará a um desemprego de 27,2% em 2014. Madri verá sua economia encolher 1,5% neste ano e tende a ficar estagnada ano que vem.

Enquanto segura a onda, a Alemanha mostra sinais internos de vigor, mas segue enfraquecida pelos sócios do clube europeu. Mesmo com todo o abalo, o desemprego alemão cairá para 6,7% este ano e tende a cair mais, para 6,4% em 2014.

Resta saber até quando os contribuintes alemães acreditam que vale sustentar os parceiros. Merkel enfrentará uma eleição duríssima, mesmo com os números positivos em meio a uma crise sem precedentes. Mas existe uma certeza: se Merkel perder, caiu o Euro e o projeto europeu. É preciso ficar muito atento aos movimentos políticos em Berlim, afinal, destes dependem a Europa e boa parte da economia mundial.



quarta-feira, abril 17, 2013

Inflação e reeleição

O aumento da taxa básica de juros chegou. Foi um movimento tímido, de apenas 0,25%, mas finalmente mostra que o governo Dilma resolveu tentar agir contra a inflação. O objetivo do movimento, não se iludam, é político.

A Presidente acreditou que o Brasil poderia crescer sem terminar as reformas de base do Plano Real, ainda inconclusas, sem inflação. Errou, assim como erraram os militares da década de 70. Explico. Além de não realizar as reformas estruturais para manter o Plano Real de pé, Dilma retrocedeu, avançando com o Estado na economia e gerando as mesmas distorções que levaram o país a viver a hiperinflação da década de 80.

O Brasil precisa terminar as reformas de implantação do Real antes de baixar os juros. É preciso uma reforma sindical, previdenciária, tributária e trabalhista. Infelizmente ninguém se arrisca a fazê-la, pois vivemos uma crise de estadistas e uma proliferação incansável de populistas. Ao invés da reforma trabalhista, surge a PEC das domésticas. Enfim, se não avançamos, infelizmente também regredimos.

O Brasil viveu a farra do crédito e o surgimento da classe C embalado pelos resultados do Real. Mas para o Plano, instituído em 1994, realmente vingar, é necessário fazer o serviço completo. O governo Dilma preferiu o caminho ilusório, ou seja, manipular a economia com isenções para fazê-la respirar. Vale por um tempo, entretanto, logo depois faz água.

Dilma, que encarará a disputa pela reeleição, não poderia chegar ao pleito com a inflação deteriorando o poder de compra. Preferiu aumentar os juros, o que afetará o crescimento e aumentará o desemprego. Nossa Presidente precisa aprender que os juros somente podem cair sem gerar inflação se forem feitas as reformas que mencionei. Mas infelizmente isto vai contra suas convicções políticas. Para tentar ficar mais quatro anos, a receita será a de sempre: juros nas alturas.

terça-feira, abril 16, 2013

Terror em Boston

O terror infelizmente atingiu Boston e mais uma vez os Estados Unidos. Existem certamente muitas perguntas ainda que devem ser respondidas, entretanto, a mais importante será a resposta do povo americano a mais uma tragédia.

Não há dúvida que foi um ato de terrorismo. A sistemática leva a acreditar que foi obra da Al Qaeda. Entretanto, sabe-se que a organização terrorista foi muito debilitada e seus principais líderes foram eliminados ou presos. Além disso, ações ordenadas pelo núcleo central geralmente levam a um número muito mais de mortes.

O atentado de Boston lembra muito em termos operacionais as ações em Londres e Madri, ou seja, de militantes com motivação islâmica, sem vínculo formal com a Al Qaeda, mas inspirados por Bin Laden.  

De qualquer forma, como disse, o mais importante será observar como a sociedade americana irá reagir. Hoje já fala-se de casos isolados de preconceito contra islâmicos e árabes. Este é o caminho errado. O terrorismo busca exatamente isto, ou seja, atingir os fundamentos da tolerância pacífica e instalar o medo. Enfrentar o terrorismo é não sucumbir ao medo que ele provoca. Mais uma vez a sociedade americana se enxerga em um momento de prova.

Depois de Boston existe mais uma grande oportunidade de vencer o terror e medo: mostrar os valores de sociedade tolerante e resiliente, traços que sabemos ser essenciais daquilo que formou os traços de liberdade da sociedade americana.

segunda-feira, abril 15, 2013

Amadurecendo o Golpe

Maduro venceu o pleito na Venezuela. Pelo menos é isto que dizem os resultados eleitorais oficiais. Sabe-se que havia uma máquina muito forte trabalhando por ele. Recebeu inúmeros apoios, até de Lula, na tentativa de sedimentar sua vitória. Entretanto, com mais um ou dois dias de campanha teria perdido. Se é que não perdeu realmente.

Capriles não reconheceu a derrota e fala em fraude. Não seria surpresa se fosse confirmada, especialmente falando-se sobre a Venezuela chavista.

Bem, o fato é que em seu discurso de vitória, Maduro tentou imitar o jeito de falar de Chávez, justificou sua estreita vitória como deu, agrediu os culpados de sempre, mas não convenceu e animou nem sua claque que escutava seu discurso. Ninguém se empolgou. Chegou a ser constrangedor. 

Enfim, percebe-se que Maduro não possui a pegada populista chavista. Foi escolhido por seu um subalterno leal, mas falta-lhe o dom do caudilhismo, que Chávez tinha de sobra. Maduro não terá a linha direta que seu antigo chefe tinha com o povo, abrindo um perigoso flanco para o avanço de outro oportunista sedento pelo poder que pode estar rondando o Palácio Miraflores. 

Se Maduro deseja terminar este mandato, a dica é buscar aliados nos militares, pois sem seu apoio, sofrer um golpe em um país maltratado institucionalmente será apenas uma questão de tempo. 

sexta-feira, abril 12, 2013

Estratégia britânica

E quem desembarcará na Alemanha este final de semana é o primeiro-ministro britânico David Cameron. Irá para residência de campo da chancelaria alemã - Schloss Meseberg. Terá uma extensa agenda com Angela Merkel.

Cameron tem planos concretos para o Reino Unido frente a União Européia. Deseja diminuir a influência política de Bruxelas em Londres, reformando alguns tratados europeus. Para tanto, meses atrás, Cameron jogou pesado e defendeu um referendo sobre a permanência de seu país na União em 2017.

Mas como sempre na política, o Primeiro-Ministro britânico jogou além do que queria para conseguir aquilo que desejava, ou seja, a revisão dos acordos já assinados pelo Reino Unido com a União Européia devolvendo maior autonomia para Londres.

Entretanto muitos problemas podem surgir no caminho. Cameron acendeu uma chama perigosa entre os britânicos e pode ser que em 2017 realmente os súditos da Rainha votem pela retirada de seu país da UE. Vale perguntar: Cameron combinou sua estratégia com os britânicos?

Assim, Cameron já procura negociar aquilo que realmente deseja. Para conseguir, precisa convencer Merkel (que enfrentará eleições duras em breve) e costurar um pacto com os pontos importantes de reforma dos estatutos. Se perder o timing, ele perde o acordo e a União Européia pode realmente perder o Reino Unido - vale lembrar, um vínculo que os britânicos, pelo visto, não fazem a menor questão em manter.

quinta-feira, abril 11, 2013

Recado para Pyongyang

Um dinamarquês desembarcou em Seul. A preocupação certamente se instalou em Pyongyang, porque o dinamarquês atende pelo nome de Anders Fogh Rasmussen. Se ele ainda fosse apenas o chefe de governo da Dinamarca, não causaria o mesmo receio, mas agora ele dá expediente em Bruxelas, como Secretário-Geral da Otan.

Mesmo que alguém se fizesse de desentendido em relação ao recado mandado para Coréia do Norte, de nada adiantaria, isto porque Rasmussen fez questão de mostrar a que veio, já que amanhã se reúne com o ministro da Defesa da Coréia do Sul, Kim Kwang-jin e com a Presidente sul-coreana, Park Geun-hye.

Vale lembrar que desde 1949, quando foi criada a Otan, nunca o Secretário-Geral havia visitado a península coreana.

Para não deixar dúvidas, de Seul, Rasmussen vai para Tóquio, outro capital que escuta ameaças vinda de Pyongyang.

Pensando bem, é melhor Kim Jong-un colocar as barbas (que ainda não tem) de molho.  

quarta-feira, abril 10, 2013

Uruguaios apóiam Mujica

O Presidente uruguaio, José Mujica, é conhecido por dizer o que pensa. Um tipo raro de político, que talvez somente encontre êxito em um local especial como o Uruguai.

O fato é que Mujica referiu-se a Cristina Kirchner, acreditando que os microfones não estivessem abertos, de maneira, digamos, pouco protocolar. Disse o Presidente uruguaio: "Esta velha é pior que o zarolho. O zarolho era mais político. Esta é obstinada". O zarolho em questão é o falecido Presidente Néstor Kirchner, outro pouco afeito aos protocolos e aos limites diplomáticos.

Mujica desculpou-se, mas os uruguaios fizeram o contrário. Em pesquisa divulgada hoje, 76% disseram apoiar a declaração de seu Presidente. Entre os homens este número é ainda maior, 86%.

O fato é que a Argentina sofre nas mãos de Cristina, que por meio de seu discurso populista acarreta apoios, mas destrói pouco a pouco a economia e a liberdade em seu país.

Mas como disse Mujica, Cristina é obstinada. Hoje mesmo ela congelou o preço da gasolina por seis meses. O objetivo é conter a inflação. Bem, aqui no Brasil sabemos como acaba esta história.

Pobre América Latina. Quando até o pacato Mujica reclama de Cristina é porque sabemos que a Argentina vai mal.

terça-feira, abril 09, 2013

FHC nega influência de Thatcher

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso negou, em entrevista, uma suposta influência das idéias de Margaret Thatcher em suas ações como Presidente do Brasil.

Por mais que soe estranho para muitos, FHC foi coerente em suas palavras. Seu governo possuiu um corte social-democrata, ao contrário do que se pensa. Taxado a maior parte do tempo de neoliberal, não soube explicar de forma efetiva suas reformas, sendo acuado pelo PT, que na época era oposição.

Fernando Henrique moveu-se em direção ao liberalismo, contudo nunca o adotou de forma plena. O Brasil não possuia mais capacidade de financiamento e vivia uma economia fortemente estatizada. Seu movimento foi de privatização de alguns setores, porém com forte regulação do Estado. Não enfretou sindicatos, nem foi além de privatizações pontuais. Fez o que era imperativo, necessário para economia naquele momento de implantação do Plano Real. Não traiu seus princípios.

FHC entregou um Brasil de cunho social-democrata para Lula, com as bases de um Estado forte com políticas de assistência social. Thatcher deixou um Reino Unido fincado em bases sólidas liberais para John Major, devolvendo a responsabilidade individual para os britânicos.

Cada um escolheu um caminho para modernizar a economia de seu País. Caminhos que não se confundem.

segunda-feira, abril 08, 2013

Recomeço

É um período de recomeço. Falo do plano pessoal, mas também do político. Com Obama reeleito e frente a eleições que se aproximam no Brasil, podemos dizer que vivemos praticamente um período pré-eleitoral. Assim, é um momento propício para análises de cenários que começam a se desenhar.

O mundo continua a não ser também um lugar sossegado. A política, que permeia o modo como se relacionam os atores desta realidade, cresce de relevância a cada dia. É preciso analisá-la, entendê-la, se desejamos prever o que ocorrerá daqui em diante.

O trabalho deste Blog recomeça. Nasceu como um olhar atento sobre Madri, em 2006. Transportou-se para o centro da Europa, em Viena, no ano seguinte. Seguiu seu rumo com a análise dos primeiros momentos da campanha presidencial americana e teve, antes desta última parada, seu pouso sobre a política de um modo geral, seja brasileira ou internacional.

A idéia é debruçar-se, todos os dias, sobre um assunto diferente, algo que chame a atenção no mundo da política e traduzir o que acontece, decifrar os caminhos e prever os passos que virão. Um recomeço.

Melhor, mais maduro e com olhos mirando no que virá. Aqui, novamente, temos os Diários da Política.

quarta-feira, dezembro 01, 2010

Cota Feminina

Enquanto Lula tenta nomear mais um integrante para a equipe de Dilma, desta vez Izabella Teixeira para o Meio-Ambiente, a Presidente eleita começa a se preocupar com o número de mulheres no primeiro escalão. Miriam Belchior foi o primeiro nome, mas outros ainda devem surgir.

Especula-se o nome de Manuela D`Ávila para o Esporte, dentro da cota do PC do B, que manteria o Ministério. Outra gaúcha, Maria do Rosário, do PT, pode emplacar na Secretaria de Direitos Humanos, enquanto Ideli Salvatti, também petista, derrotada em Santa Catarina e sem mandato, pode ir para a pasta da Pesca. Na verdade faltam nomes para Dilma. Este, no momento, é seu grande problema para fechar a cota feminina na Esplanada. Logo, Izabella, apesar não contentar setores petistas, pode ser mantida no cargo, já que além de ser mulher, tem apoio de Lula.

Outros nomes podem surgir no horizonte, como as senadoras eleitas Gleisi Hoffman do PT e Vanessa Grazziotin do PC do B. São nomes que chegarão fortes em Brasília, mas fora do Senado deixarão seus suplentes do PMDB e PP, respectivamente, com as vagas, o que não interessa ao governo.

Mas ainda existe espaço. Dilma pretende reservar boa parte da Esplanada para nomes femininos e ainda faltam outros que ela deseja ver no primeiro escalão, ou pelo menos em destaque, como Maria das Graças Foster, que já foi cotada inclusive para a Casa Civil.

Dentro deste desenho, o PMDB mais uma vez fica menor espaço, já que não conta com um número expressivo de mulheres para indicar. Esta seria mais uma justificativa para diminuir o poder do partido de Michel Temer na Esplanada. Mas é preciso primeiro acertar com os russos. Apesar das divisões, o apetite do PMDB não será contido com facilidade.

terça-feira, novembro 30, 2010

A Benção de Lula

Se diante das câmeras Lula diz que apenas aconselha Dilma Rousseff na formação do governo, não se pode dizer o mesmo sobre o que realmente acontece nos bastidores da gestação da equipe. As digitais do Presidente são identificadas em várias nomeações, em especial naquelas que indicam a permanência de nomes de sua equipe.

O mais novo contemplado pela benção de Lula foi Nelson Jobim. O Ministro da Defesa não era o nome preferido de Dilma, mesmo assim foi confirmado no cargo.

Depois de emplacar Jobim, Lula agora se empenha para manter Fernando Haddad na Educação. Pode-se considerar sua confirmação quase certa, visto que Jobim foi confirmado no cargo, Gilberto Carvalho irá para a Secretaria-Geral, Mantega foi mantido na Fazenda, Luciano Coutinho no BNDES e Sérgio Gabrielli na Petrobrás. Todos passaram pela peneira do ainda Presidente.

A benção de Lula é fundamental na composição do governo Dilma. Pelo menos é o que vemos até o momento. Mesmo aqueles que atingem a posição de Ministro neste momento ou aqueles que serão remanejados de pasta foram objeto da avaliação do atual Presidente. O Ministério está sendo construído a quatro mãos, juntamente com Dilma, mas Lula tem poder de indicação e veto.

Assim, aqueles que desejam fazer parte da equipe precisam, além da concordância de Dilma, a benção de Lula e a sondagem de Palocci, um verdadeiro périplo que passa pelo Alvorada, Granja do Torto e Palácio do Planalto. Se algum nome sondado passar pelas três casas, a chance de emplacar no primeiro escalão é quase certa.

segunda-feira, novembro 29, 2010

Cota Pessoal

Depois de flertar com a inclusão de um grande empresário frente ao Ministério do Desenvolvimento, tudo indica que Dilma fará uso de sua cota pessoal e despachará para a último prédio da Esplanada seu amigo mineiro Fernando Pimentel.

O ex-Prefeito de Belo Horizonte não desfruta de grande popularidade entre seus pares petistas. Desgastado, cogitou-se que ele seria acomodado dentro do Palácio do Planalto, perto de Dilma, mas a falta de interesse de um nome forte do meio empresarial fez com que a Presidente eleita optasse por um nome "caseiro", por assim dizer.

O Ministério do Desenvolvimento não dará a Pimentel a visibilidade necessária para alçar vôos mais altos, como deseja, mas é um recomeço. Desgastado pela estreita relação com Aécio e pelos dossiês contra os tucanos fabricados dentro da campanha de Dilma, a pressão era para que ficasse de fora da equipe - os petistas preferem e pressionam por Patrus. Mas se Pimentel não terá lá uma visibilidade grande, será melhor do que ficar de fora.

Depois de ceder as pressões de Lula, que nomeia ministros com a desenvoltura de um Presidente eleito, Dilma mostrou, pela primeira vez, que pelo menos terá uma cota pessoal de nomeação de ministros na Esplanada.

quarta-feira, novembro 24, 2010

Equipe Econômica

Já tem cara a equipe econômica de Dilma. Não tem o perfil que muitos gostariam, mas de qualquer forma fornece uma idéia clara dos rumos que o governo deve seguir.

Tombini, que assumirá no Banco Central, é mais flexível em certos aspectos do que Henrique Meirelles. O novo chefe do Banco Central, por exemplo, acredita que a instituição peca por uma espécie de cautela excessiva e acha que existe espaço para afrouxar as rédeas dos juros.

Isto é música para os ouvidos de Dilma, mas talvez possa não soar com a mesma levaza para o Real.

Se a política de expansão de gastos de Mantega se aliar ao aumento de investimentos no PAC turbinados por Miriam Belchior no Planejamento, será difícil segurar os juros, pois é neste ponto que se assenta a estabilidade do Real, na manipulação da economia pela taxa de juros.

Tombini disse que existem outros mecanismos para segurar a inflação, ou seja, que os juros podem continuar caindo, pois a inflação será contida em outras frentes. Se houver tal mecanismo, é uma ótima saída, entretanto, ninguém foi apresentado aos meios de concretização desta idéia em mais de 15 anos de Plano Real.

Ao fim e ao cabo, se Mantega e Miriam aumentarem o gasto público como se espera, considerando suas biografias e as políticas acenadas por Dilma, o Bacen precisará conter a inflação e defender a moeda, sob pena de colocar em risco a estabilidade. Até o momento, fora as reformas rechaçadas pelo PT, o único instrumento conhecido para conter a inflação e segurar o moeda, é por intermédio da taxa de juros. Se Tombini conhece outro mecanismo, deve apresentá-lo em breve. Do contrário, terá que seguir a cartilha de Meirelles, sob pena de o Real fazer água.

terça-feira, novembro 23, 2010

Os Outros

Definida a trinca Mantega-Tombini-Belchior para a área econômica, vem a parte mais difícil, a definição dos outros ministérios. A sede dos partidos aliados é grande e até candidatos avulsos vão surgindo pelo caminho.

Um dos grandes problemas de Dilma é a configuração das mais de 40 pastas que terão, em tese, novos donos a partir de 2011. Lula teve mais facilidade em 2002 porque trabalhava com um leque menor de partidos aliados. Dilma teve uma aliança muito maior, trazendo logo ali ao seu lado, como maior parceiro, o PMDB, que não fez parte da configuração inicial do primeiro governo Lula.

Dilma agora tem que abrir espaço para o PSB, que cresceu nestas eleições, além de prestigiar o PR, aliado de primeira hora do petismo em 2002, além de aliados tradicionais como o PC do B. A fatura fica maior, já que o PP tem que ser contemplado também, agora com uma bancada mais expressiva no Senado. Isto sem falar no PDT, partido de origem de Dilma, que tenta se agarrar aos postos de comando do Ministério do Trabalho e suas ramificações. É preciso abrir espaço para o PTB, que apesar de ter apoiado formalmente Serra, forneceu apoios regionais importantes para Dilma, além de contar com uma bancada fiel, se bem contemplada. Além de tudo isso, Dilma quer rechear o comando ministerial de mulheres.

Como vemos, é uma equação difícil, ainda mais sabedores de que petistas derrotados devem se acomodar sob o poder federal. Dilma, entretando, deve fechar a equipe palaciana e partir daí divulgar a solução para o quebra-cabeça que precisa montar. O silêncio, até o momento, tem sido uma estratégia eficaz.

segunda-feira, novembro 22, 2010

A Equilibrista

O anúncio do nome de Mantega para o Ministério da Fazenda gerou idéias controversas sobre o que deseja Dilma Rousseff. Como escrevi aqui, é preciso que sejam definidos os nomes para o Banco Central e o Planejamento, entretanto, as fortes pressões dos aliados tornam as coisas ainda mais nebulosas.

A saída de Henrique Meirelles do Banco Central é dada como certa. Isto sugere que talvez um nome mais próximo das idéias de Mantega seja escolhido. Para o Planejamento fala-se de Miriam Belchior, coordenadora do PAC. Vemos, dentro desta configuração, um perfil econômico mais do que desenvolvimentista, causando arrepios naqueles que defendem austeridade com o gasto público. Dentro desta configuração, baixar os juros, como disse ser prioridade, é tarefa impossível, especialmente sem gerar inflação.

Dilma, além de acomodar seu perfil pessoal na área econômica, precisa equilibrar-se entre as sugestões de Lula e as pressões dos aliados. Equilibrar-se neste xadrez é complicado. Além disso Lula sugeriu veto a alguns nomes, alguns próximos de Dilma, da sua turma de Minas, gente que ela queria levar para o Planalto. Isto aumenta o apetite do PMDB, que deve perder a pasta da Saúde e deseja ser recompensado mais do que na medida pela perda da jóia.

Assim, depois de levar sua cota pessoal para a área econômica, Dilma precisará de jogo político para montar o resto da equipe. Precisará atuar como uma equilibrista.

quinta-feira, novembro 18, 2010

Mantega na Fazenda

Com a decisão de manter Mantega na Fazenda, Dilma enviou vários sinais sobre como será o seu governo. O ministro possui idéias e características muito peculiares. Tem um perfil muito diferente de Antônio Palocci, que dirigiu a pasta durante o primeiro governo Lula e por consequência, não pensa como o Presidente do Banco Central, Henrique Meirelles.

Mantega se enquadra em um perfil desenvolvimentista, enxerga o Estado como propulsor do desenvolvimento e possui uma tendência clara em defesa de altos gastos públicos. Mantega, sem Meirelles ou Paulo Bernardo, que ocupa atualmente a pasta do Planejamento, terá mais liberdade para colocar suas idéias em prática. Muitos se questionam se isto seria um risco para o Real.

Politicamente, Mantega fica por um pedido pessoal de Lula. Aliás o atual Presidente tem disparado pedidos pessoais para a Presidente eleita no sentido de manter muitos nomes de sua equipe ministerial. Dilma não gosta de ser tutelada, mas pode mover-se com inteligência política.

Inicialmente a decisão por Mantega não faz muito sentido, especialmente pela influência que Palocci exerce sobre Dilma e pelo fato de Paulo Bernardo ser cotado para um cargo de grande influência no Palácio do Planalto. Entretanto, ao manter Mantega, Dilma atende um pedido imediato de Lula. O jogo político da escolha pode, neste sentido, ser um movimento orientado por Palocci. Mais do que uma decisão técnica, a escolha de Mantega pode ter um caráter político.

Saberemos de fato o rumo da economia com as escolhas para o Banco Central e Planejamento. No Bacen, tudo indica que Meirelles prepara sua saída, já que impôs condições para ficar, ou seja, a manutenção da autonomia do Banco Central. Ao colocar o assunto em pauta e a Presidente eleita na parede, enviou seu recado político: está de saída. Se Dilma insistir para que ele fique, perderá autoridade. Resta saber quem ficará em seu lugar para defender a moeda.

quarta-feira, novembro 17, 2010

O Bloco

É preciso analisar com cuidado para entender o que o PMDB pretende com o anúncio de seu bloco na Câmara dos Deputados. Mais do que um movimento, a articulação mandou um recado para o Planalto.

Antes disso, o PT flertava com a possibilidade de também presidir o Senado, em uma espécie de rodízio com o PMDB. A resposta veio rápida, com o lançamento do nome de Sarney. O segundo lance foi realizado mediante o anúncio do bloco de partidos na Câmara, que juntos somam 202 parlamentares. Apesar de o PP ter balançado, O PMDB mostrou que pode aglutinar, além dos progressistas, o PR, PTB e PSC. O objetivo, lógico, é juntar forças e poder fogo na barganha por cargos.

O PMDB mostrou os dentes e mostrou ao PT que existem limites no exercício do poder que não podem ser ultrapassados. Um deles é o comando do Senado. Além disso, na formação do governo, o partido se articula para ocupar espaços. Para isso, já se movimenta. O bloco, como disse, é mais um lance desse jogo.

O partido líder do novo bloco controla seis pastas, Defesa, Comunicações, Integração Nacional, Agricultura, Minas e Energia e Saúde, entretanto, apesar de possuir ministros filiados ao partido, em pelo menos dois deles não dá as cartas. São indicações de Lula e aliados.

Assim, diz que é possível abrir mão de pelo menos duas delas, que poderiam ser substituídas pelo Ministério das Cidades ou Transportes, jóias da coroa, pelo volume de investimentos. Se Dilma vacilar, o PMDB admite, por exemplo, assumir o controle do BNDES, Banco do Brasil, Caixa ou Petrobras. Joga alto para colher bem.

Mas nesta negociação não entra o Senado. Lá, o PMDB deve seguir soberano e por mais que não venha a dirigir a Câmara, o super bloco tende a dar trabalho.

terça-feira, novembro 16, 2010

A Fusão

Para quem achava pouco a idéia de incorporação do DEM pelo PMDB, ainda não havia pensado que o PPS pode fundir-se com o PSDB. Este é mais um resultado das eleições deste ano.

A idéia, em princípio, é o primeiro passo para o projeto de Aécio Neves refundar o PSDB. A chegada do PPS seria a oportunidade ideal de rever alguns pontos e partir para a fundação de uma nova oposição, certamente com a cara de Aécio, que assim busca credenciar-se para a sucessão presidencial em 2014.

Os tucanos saíram das urnas com 52 deputados e 11 senadores e o PPS com apenas 12 deputados e um senador. Roberto Freire não esconde que as conversas existem e que a possibilidade de fusão é real. Esta nova oposição, dotada de princípios claros, defenderia o legado de FHC, algo esquecido no ninho tucano nas três eleições presidenciais perdidas, duas por Serra e uma por Alckmin.

O curioso é que fala-se na criação de uma terceira legenda, resultado da fusão dos dois partidos. Isto, vale lembrar, desobriga os parlamentares dos partidos de origem, PSDB e PPS, a migrar para a nova agremiação. Pela legislação, os parlamentares ficam livres para escolher qualquer partido, sem o risco de perder seus mandatos. Seriam alvos óbvios de cooptação por legendas governistas, em especial o PMDB, que busca aumentar seu poder de fogo no Parlamento.

É preciso avaliar com muito cuidado estes movimentos, pois se partirem para a fusão, é possível que os partidos fiquem menores, exatamente o oposto de sua estratégia.

segunda-feira, novembro 15, 2010

A Incorporação

Tudo indica que o desejo de Lula, de extirpar o DEM da política nacional, está cada vez mais perto. Depois dos resultados eleitorais cogita-se seriamente uma incorporação do DEM ao PMDB. A estratégia visa de um lado a sobrevivência de muitos políticos da legenda, mas de outro acabará gerando uma guinada na política nacional somente imaginada por Lula até o momento.

O DEM venceu em dois estados, Santa Catarina e Rio Grande do Norte. Saiu vitorioso, mas também saiu seriamente abatido em outras frentes. Sua bancada de deputados federais minguou uma vez mais e o mesmo aconteceu no Senado. Como se não fosse o bastante, no Parlamento, os nomes mais significativos da legenda foram derrotados, com a exceção de José Agripino Maia.

A mais importante liderança do partido dirige a jóia da coroa, a Prefeitura de São Paulo. Justamente por isso, Gilberto Kassab tem sido assediado pelo PMDB. Ele seria um forte nome para disputar o governo do Estado em 4 anos. Se Kassab deixar o o antigo PFL, seria um enorme golpe para o partido. O Prefeito, entretanto, não tem muitas opções, uma vez que foi eleito pelo DEM. Para ele, ao invés de rumar sozinho para o PMDB, talvez fosse mais interessante chegar ao seu destino munido da força inteira do seu partido atual.

Daí surge a idéia de levar o DEM inteiramente para os braços do PMDB. Os argumentos não são fracos e podem seduzir muitos políticos do partido. Dono de uma parte considerável do governo, o PMDB pode abastecer os nomes do DEM que desembarcarem em seu projeto, de cargos relevantes na estrutura federal, algo que esses políticos, alijados do poder desde o fim do governo FHC, desejam muito.

O fato é que o DEM, depois de deixar o governo federal, não encontrou rumo, nem discurso. Já falei sobre isso aqui. Ao invés de se tornar um partido com um projeto alternativo de poder, tornou-se refém de seus erros, que levaram seus números a despencar nos últimos anos. Se o DEM realmente se incorporar ao PMDB, seus políticos podem ganhar sobrevida, entretanto, o Brasil perde uma alternativa política.

A chance do DEM mudar e não ser engolido pela realidade política nacional é refundar-se, mudando sua postura e aplicando suas políticas em seus redutos eleitorais, assumindo suas posições conservadoras, deixando de estar a reboque dos tucanos, fazendo surgir um projeto alternativo e viável, guiado por lideranças expressivas que poderiam fazer o partido renascer. De outro modo, o destino do DEM é tornar-se parte do PMDB e entrar para os livros de história.

sexta-feira, novembro 05, 2010

Surra Eleitoral

Na política, cedo ou tarde se conhece o outro lado da moeda. Para Barack Obama este dia chegou logo, em suas primeiras eleições em meio de mandato, as midterms elections, que renovam parte do Congresso dois anos após a posse do Presidente.

Bill Clinton enfrentou uma situação semelhante em 1994, entretanto, como possui maior habilidade política que Obama, não podemos prever que o atual Presidente consiga dar a volta por cima com a mesma facilidade. Além do mais, o ambiente político na década de 90 era outro e a eleição de Obama levou a polarização exacerbada, que pode gerar um efeito inverso devastador nas próximas eleições para o Partido Democrata.

Os Democratas sentiram o golpe. Sua bancada despencou na Câmara e a folgada maioria no Senado virou pó. A Câmara passará a ser conduzida pelos Republicanos e sua agenda própria, o que trava a administração Obama em seus pontos centrais. Lembrei aqui que o Presidente deveria buscar suas reformas nos primeiros dois anos de mandato, pois a tendência era que perdesse a maioria nas midterms, entretanto, naquela época não esperava que a surra promovida pelo eleitorado americano em Obama fosse tão desconcertante.

Quem conhece política americana sabe que agora o trabalho de Obama é ainda mais difícil. Sem um Congresso favorável, suas políticas não avançam, precisará ceder em muitas questões para avançar em outras e pode ver ainda as conquistas políticas dos primeiros dois anos de mandato serem desfeitas pelos novos congressistas.

O massacre eleitoral, entretanto, não se limitou ao Congresso. Os Republicanos tomaram governos estaduais e elegeram lideranças calcadas no Tea Party, já sendo preparadas para a grande eleição presidencial que se avizinha em dois anos.

Obama precisará de muita habilidade política, até porque as poucas vitórias dos Democratas vieram impulsionadas pela ala de Bill Clinton. Obama inclusive foi orientado a não participar de muitas campanhas, já que sua imagem poderia prejudicar os candidatos de seu partido.

Com seu time de assessores, conselheiros e secretários se desfazendo pouco a pouco, com o partido alvejado pelas derrotas eleitorais e a falta de estratégia de comunicação eficiente, especula-se até que ele não seria o melhor candidato para conduzir os Democratas em dois anos. No momento, Obama é o adversários dos sonhos de todos Republicanos.

quinta-feira, novembro 04, 2010

Dilma pós-campanha

Confesso que estou surpreendido positivamente com a postura e as declarações de Dilma no pós-campanha. Começou com a primeira declaração, no momento da vitória, um texto escrito a quatro mãos, auxiliado por Palocci. Seguiu-se a mesma impressão nas primeiras entrevistas, até na presença de Lula, que esteve ao seu lado para responder perguntas no Planalto.

Se durante a campanha, assim como Serra, a candidata não apresentou programa de governo, já o fez no primeiros dias. Forneceu diretrizes de suas ações e mostrou-se segura, sem tervergisar, ser vaga, brincar ou fazer metáforas sobre qualquer tema. Foi direta e objetiva. Ou seja, Dilma tem opinião própria, sem ser tutelada por Lula, sabe o que está dizendo e sabe como irá fazer. Pode-se até discordar do rumo que dará ao governo, mas seguramente seu governo terá rumo.

Dilma terá equipe própria. Sua idéia não é permanecer com a equipe de Lula, é ter o seu próprio time. Os nomes já circulam por aí. O caráter técnico será fundamental, aliado a competência e meritocracia. O critério político também será considerado.

Dilma falou da liberdade de imprensa: "Prefiro o barulho da imprensa livre ao silêncio das ditaduras". Sobre a condenação da iraniana Sakineh, disse: "Acho uma coisa bárbara o apedrejamento da Sakineh. Mesmo considerando os costumes de outros países, continua sendo bárbaro". Na economia, defendeu o câmbio flutuante e o controle de gastos públicos. O governo, segundo ela, não pode gastar mais do que arrecada, deixando clara sua posição sobre a responsabilidade fiscal. Sobre invasões e MST, enfatizou: "Não compactuo com ilegalidades, com invasões e prédios públicos ou propriedades produtivas".

A Presidente eleita tem caráter técnico e assim será seu governo. Ninguém deve se surpreender se muitos ministros não forem nomes conhecidos. Entre os políticos, pode-se apostar em nomes como Paulo Bernardo, José Eduardo Cardozo, Antônio Palocci e Fernando Pimentel. O PMDB terá sua fatia de poder, negociada por Michel Temer, que deve deixar o comando do partido nas mãos do senador eleito Eunício Oliveira. No Itamaraty fala-se em José Maurício Bustani, Carlos Alfredo Lazary Teixeira e até nomes que não são de carreira, mas políticos experientes que sabem lidar de forma pragmática nas questões comerciais internacionais.

O governo Dilma não terá a cara de Lula, terá a cara de Dilma. Ela é egressa do PDT e apesar de estar no PT, não é petista de origem. Tem idéias próprias e sabe onde quer chegar. Suas primeiras declarações foram muito bem recebidas. Mostrou sensibilidade política, conhecimento técnico e sobretudo direção e segurança na condução do processo administrativo. Seu começo foi melhor do que qualquer dia de sua campanha.

terça-feira, novembro 02, 2010

A Vitória de Dilma

A vitória de Dilma tem muitos significados, mas talvez diferentes daqueles imaginados por todos. Ela venceu carregada pelo Nordeste, mas na verdade quem ajudou realmente Dilma a vencer foi o Sudeste. Ali José Serra nem chegou perto de abrir a vantagem que imaginava.

Dilma venceu no estado crucial para esta eleição, Minas Gerais. Venceu com folga. Serra apenas teve mais votos no sul do estado, na divisa com São Paulo. Nas fronteiras expressivas com Rio e Bahia, a candidata do PT teve muitos a frente do tucano.

Em São Paulo, ao contrário do que imaginavam os tucanos, Serra abriu pouca diferença. Sem o impulso de seu estado, seria impossível vencer. Muitos daqueles que votaram em Anastasia em Minas, votaram em Dilma no segundo turno. Em São Paulo ocorreu o mesmo. Muitos que votaram em Alckmin no primeiro turno, fizeram a opção nacional por Dilma.

No Rio de Janeiro o massacre do PSDB se consumou. Em um estado liderado por um ex-tucano, Sérgio Cabral, que tem apoio de praticamente todos os prefeitos fluminenses, Dilma levou uma vantagem descomunal.

Os aliados ainda fizeram diferença em três importantes estados, Bahia, Pernambuco e Ceará, que forneceram uma vantagem descomunal para a petista. Isto cacifa Jacques Wagner, Eduardo Campos e Cid Gomes. Terão um peso político muito mais denso do que se poderia projetar.

Dilma perdeu no Sul, mas no Rio Grande do Sul, por exemplo, teve força para praticamente empatar com José Serra.

Esta geografia do voto, em lugares importantes, explica a vitória de Dilma. Entretanto, enganam-se aqueles que acreditam tão somente no peso político para a formação do governo. Dilma, com seu perfil, tende a surpreender na montagem na equipe.

segunda-feira, novembro 01, 2010

Derrota Tucana

Mais do que uma vitória de Dilma ou Lula, a vitória do PT foi uma derrota do PSDB. As razões são muitas e os tucanos deverão passar os próximos dias afirmando que o partido cresceu e qualificou o debate, mas o fato que é o PSDB perdeu a terceira eleição presidencial seguida para o PT.

O fato é que existiam condições para os tucanos vencerem a eleição. Foram reféns das estratégias de marketing e decisões políticas equivocadas, analisadas e lembradas aqui neste Blog muitas vezes. Um claro exemplo foi a escolha do vice, que recaiu sobre Índio da Costa, uma exigência do DEM. Ele fez seu papel com seriedade, mas sempre faltou-lhe densidade eleitoral. Existiam muitas outras opções melhores, que agregariam votos aos tucanos, com lembrei aqui, mas isto foi colocado em segundo plano por uma exigência de um partido que pouco a pouco fica menor, o DEM.

Serra foi refém de sua própria estratégia de marketing, dirigida por Gonzalez, o mesmo estrategista que levou Alckmin a derrota de 2006. A idéia de construir a imagem de Serra pouco a pouco na cabeça do eleitor mostrou-se equivocada, assim como a vergonha em assumir os feitos da administração FHC, o que se feito de forma diferente, tornaria o ex-Presidente um forte cabo eleitoral. Serra preferiu mostrar Lula em seu horário eleitoral.

A responsabilidade de virar o jogo no segundo turno, diante da pífia votação no primeiro turno, recaiu nos ombros de Aécio, que apesar de tucano, não tinha o mesmo interesse que os paulistas na eleição. Deu sua contribuição, com entusiasmo, mas sem atingir o objetivo de entregar uma vitória e margem de votos em Minas Gerais.

Para vencer, Serra precisava abrir boa vantagem em São Paulo e ganhar com boa vantagem em Minas. Ou seja, por mais votos que Dilma tivesse no Nordeste, se os tucanos viessem embalados pelos seus currais eleitorais, não haveria chance de vitória para o PT. Os tucanos perderam a eleição quando deixaram de abrir vantagem em seus redutos eleitorais. Reféns de seus erros, tiveram que contar no último momento com fatores como a abstenção, como lembrei aqui, para manter no horizonte a possibilidade de êxito.

A vitória dos tucanos era possível e tangível. Antes de perder para o PT, o PSDB perdeu para seus próprios erros. Terão quatro anos mais uma vez tentar vencer. Será a quarta tentativa.