segunda-feira, julho 23, 2018

Velha Política

A opção de Geraldo Alckmin pelo caminho da velha política pode, mais do que ser uma jogada de mestre, tornar-se o prenúncio de sua derrota. Diante de um eleitorado cético com a política tradicional, a opção pela aliança com o consórcio de partidos fisiológicos que orbitam o poder desde os primórdios do petismo até os estertores do emedebismo, pode ferir fatalmente a campanha do tucano.

Fernando Haddad e seus companheiros de partido saudaram a aliança. O provável nome petista na corrida presidencial fala com convicção que será uma disputa entre o projeto de Temer contra o projeto de Lula. Era tudo que o PT queria. Freguês do petismo desde 2002, os tucanos são os adversários dos sonhos de Haddad.

O prenúncio da estratégia petista faz sentido por muitos lados. O primeiro deles é que os aliados de Alckmin, somados ao tucano, sintetizam de forma clara o governo mais impopular que conhecemos, conduzido por Michel Temer. A esplanada, sob o comando do MDB, é um loteamento dividido entre PSDB, PSD, PTB, PP, PR, PRB, DEM, PPS e SDD. Portanto, Geraldo Alckmin vestiu a roupa do sistema e com ela irá desfilar em um pleito em que o eleitor clama pela renovação. O PT se aproveitará disso, repisando que Alckmin é na verdade o candidato de Michel Temer.

Por outro lado, é melhor os petistas disputarem o segundo turno contra seu sparring habitual, os tucanos, do que enfrentar o novo e o desconhecido. Jair Bolsonaro é um adversário muito mais difícil de ser batido no cenário atual, pois encarna o antipetismo e a antipolítica, dois sentimentos presentes no eleitor.

Além de agradar os petistas, o movimento de Alckmin também agradou Bolsonaro. Longe dos políticos tradicionais e com pouco tempo de propaganda, pode seguir com sua estratégia atual, agora carregando a credencial de antissistema, assim como fez Alexandre Kalil em Belo Horizonte. Lembro que nos outros pleitos presidenciais marcados pela rejeição aos políticos e a luta contra a corrupção, foram eleitos candidatos de partidos pequenos. É o caso de Collor em 1989, pelo inexpressivo PRN e Jânio em 1960 pelo minúsculo PTN.

Cauteloso, Alckmin fez a opção conservadora pelo caminho da política tradicional, uma característica que pode ser letal em momentos de transição política. A aliança com o centrão pode gerar efeitos reversos, tanto nos palanques estaduais, com dissidências trabalhando contra o tucano, como no plano moral, pois a presença de caciques que respondem a 13 inquéritos da Lava Jato sequestra o discurso ético de Alckmin.


Além do mais, o tucano precisará mostrar uma reação rápida, sob pena de ser abandonado pelos novos sócios. Conta com o tempo de rádio e TV para sacudir seus números, mas diante de tantos desafios, não será tarefa fácil. O fato novo, portanto, é uma reedição do velho, da política de compadrio, dos arranjos de bastidor e do jogo político que o eleitor se mostra cansado. Em uma eleição de práticas novas, Alckmin tenta vencer o jogo com a velhas armas da política.

domingo, julho 22, 2018

Candidato da Situação

A aliança em torno de Geraldo Alckmin carrega o odor da velha política. O ex-Governador de São Paulo conseguiu aquilo que sempre desejou, formalizar o apoio de um consórcio de partidos chamados de centro para a órbita de sua campanha. Seguirão ao lado dele PR, Progressistas, Solidariedade, Democratas, PTB, PRB e PSD.  

Se sobra habilidade política, falta sintonia com as ruas. Os números de Geraldo Alckmin ainda são pífios para quem deseja chegar ao Planalto. Na mesma época, quando concorreu em 2006, neste ponto da campanha, ele já pontuava ao redor dos 25%. Hoje, ainda não saiu de um dígito.

Diante da voracidade dos novos aliados, nos bastidores já é dada como certa e acabada a divisão de ministérios. Estariam agora no estágio de discutir o rateio do segundo escalão. Como atores do presidencialismo de coalizão, os partidos do centrão estão fazendo o papel de sempre, trocando o que tem, em troca de espaço em um novo governo.

A esperança é que o tempo de rádio e TV proporcionado pelos aliados possa sacudir os números de Alckmin. Esperam também que sua rede de prefeitos e parlamentares possa trabalhar pelo candidato, impulsionando-o para o segundo turno. No papel, a estratégia é a correta.

Mas nas ruas, o sentimento é outro. Quem tem estrutura partidária, não tem votos e aqueles que carecem deste ativo, lideram as pesquisas. Enquanto alguns analistas dizem que o vencedor é aquele que irá avançar sobre o voto dos indecisos, vemos que nas últimas eleições suplementares para governador, os indecisos preferiram a abstenção. Acreditar que os indecisos, aqueles que estão desiludidos com a política, irão aderir ao candidato do establishment é uma crença duvidosa.

Geraldo Alckmin vestiu a roupa do sistema e com ela irá desfilar em um pleito em que o eleitor clama pela renovação. O ex-governador de São Paulo chegará ao pleito apresentando mais do mesmo, ou seja, partidos envolvidos em corrupção que carregam o peso da rejeição entre os seus líderes e que exigem a manutenção do modelo cartorial que levou o país aos maiores escândalos de corrupção da sua história.

No plano interno, agora os partidos lutarão para acomodar a decisão nacional em suas bases. Alianças regionais terão que ser revisitadas, apoios devem ser repensados, levando o processo inteiro a um realinhamento geral. Mas enquanto dentro da política estes acordos ainda servem de combustível, do lado de fora cresce a sensação de que estamos diante da reedição de uma história que não agrada o eleitor.


Diante das alternativas, Alckmin fez a opção pela velha política. Se irá funcionar, somente o tempo dirá. A esperança de que o Brasil não irá mudar foi renovada mais uma vez.

quarta-feira, julho 18, 2018

Um Vice para Bolsonaro

Jair Bolsonaro, que lidera as pesquisas de intenção de voto, tem encontrado dificuldades para alinhar um vice com as características que deseja. A primeira conversa foi com Magno Malta, o preferido para ocupar este posto. O Senador, filiado ao PR, no entanto preferiu renovar sua cadeira do que embarcar na chapa presidencial. Seu partido também ficou mais longe de um acordo com o PSL.

Partiu-se então para opção do General Heleno, que comandou as forças brasileiras no Haiti e tem ajudado Bolsonaro na campanha. Mas Heleno é filiado ao PRP e o partido já tem apoios fechados em diversos estados que estão desalinhados com a candidatura do PSL. Na Bahia, por exemplo, o PRP está no palanque do PT.

A estratégia de Bolsonaro é escolher um vice que esteja completamente alinhado com suas ideias. Nada de ampliar o programa para agregar algum nome ou outro partido. Ele tende a permanecer firme nas suas posições, sem abrir a vice para obter mais tempo de rádio e TV ou apoio futuro no Congresso Nacional. Reforça sua imagem de outsider.

Se chegar ao Planalto, este movimento torna uma eventual manobra pelo impeachment de Bolsonaro inócua, uma vez que seu impedimento levaria ao poder alguém que conservaria seu estilo e agenda, um nó para a classe política desatar.

Bolsonaro seguirá sua busca por um nome alinhado com seu perfil, não importa se de um partido pequeno, mas alguém que ele confie. Ninguém deseja um vice que conspire ao lado do parlamento para rifar o Presidente e chegar ao Planalto. A lição do último impeachment foi bem assimilada.

Em um horizonte amplo, uma aliança entre PRB e PSL seria estratégica, levando o empresário Flavio Rocha para vice de Bolsonaro e o impulso da Igreja Universal e da Rede Record para dentro da campanha. Diante de uma agenda comum no plano conservador e de abertura econômica, seria um casamento vitorioso em muitos planos. Um movimento improvável, mas de forte potencial eleitoral.

terça-feira, julho 17, 2018

Nordeste Vermelho

Enganam-se aqueles que pensam que o Partido dos Trabalhadores está morto na corrida presidencial. Com frequência escuto o argumento de que o povo brasileiro se cansou do petismo e que depois da Lava Jato e do impeachment, o partido não teria mais forças sequer de encabeçar uma chapa presidencial. Repito sempre que estas pessoas estão enganadas.

A força do PT está em Lula. Ele ainda é o maior nome e fiador de qualquer candidatura presidencial do partido. Pesquisa do instituto Ideia, encomendada pelo mercado financeiro, aponta que o "candidato do PT" larga com 9% de intenções de voto. Na pesquisa do Poder 360, Fernando Haddad pontua 8% - vale lembrar, sem aparições, entrevistas ou campanha. Na pesquisa XP, o mesmo Haddad, quando apoiado por Lula, alcança 9%. O potencial vermelho está mais vivo do que nunca.

Mesmo que Lula não seja candidato, o nome do PT tem tudo para chegar ao segundo turno. A região Nordeste segue sendo um reduto petista, o que irá impulsionar os números do partido em nível nacional. Na Bahia, o PT reinará sozinho com a candidatura de Rui Costa. Em Pernambuco, o Governador Paulo Câmara já disse que apoiará o presidenciável do PT. No Rio Grande do Norte a Senadora petista Fátima Bezerra segue na liderança para o governo do Estado. No Ceará, o Governador petista Camillo Santana tenta a reeleição com ampla coalizão e no Piauí, o Governador do PT, Wellington Dias, segue na dianteira. O Governador Flávio Dino, apesar de estar no PC do B, alinha-se com o PT no Maranhão. Isto sem contar Alagoas, onde a dupla Renan Pai e Renan Filho, candidatos ao Senado e Governo, estão alinhados com o PT. Como vemos, há muita chance de uma revoada vermelha mais uma vez no Nordeste.

Com Lula ou sem Lula, o PT, diante de um valioso fundo eleitoral, tempo de rádio e TV e palanques estaduais fortes tem tudo para chegar ao segundo turno. Diante deste potencial, seria loucura abrir mão da cabeça de chapa. O partido terá candidatura própria, essencial para sua própria sobrevivência política. Enganam-se aqueles que duvidam de seu potencial.

segunda-feira, julho 16, 2018

Reféns do Atraso

O próximo inquilino do Palácio do Planalto certamente enfrentará uma situação fiscal muito difícil quando chegar a Presidência. Desde o desequilíbrio que começou em 2014, as contas do governo federal mostram sinais de fraqueza, sem qualquer perspectiva de melhora. O saldo segue negativo e as consequências mais sérias ainda estão por vir.

A margem de manobra que possui um Presidente é muito pequena. O Brasil possui uma estrutura engessada e corporativista, que mantém o governo refém de diversos grupos sindicais, que visam proteger apenas os interesse de suas próprias classes. Sabemos que reformas importantes para o país já foram perdidas porque foram paralisadas por pequenos e barulhentos grupos que, ao olhar para o próprio umbigo, desconhecem a definição de nação.

Nossa Constituição é a principal responsável por engessar os gastos do governo e jogar em cima de nossa administração obrigações que passam ao largo das funções reais de qualquer modelo moderno e racional de Estado. Se somarmos a isso o ativismo de uma corte constitucional mais preocupada com a política do que com o direito e com os holofotes mais do que com a prestação jurisdicional efetiva, enxergamos a profundidade do problema.

Arrumar a casa é trabalhoso. Desarrumar é rápido. Nosso equilíbrio fiscal, alcançado ao longo dos anos, de 1999 até 2013, que levou o Brasil a atingir o patamar de grau de investimento, foi perdido por sucessivos erros do governo. Um déficit que chegará este ano ao redor de 150 bilhões e pode crescer 100 bilhões com o pacote de irresponsabilidades em tramitação no parlamento. Uma conta que nasce inviabilizando especialmente o próximo governo.

Refém de despesas obrigatórias e de grupos corporativistas sindicais, impossibilitado de reduzir as despesas mediante ações de privatização pelo ativismo político das cortes e orgulhoso do papel de Estado provedor, o futuro certamente não sorri para o Brasil. Sem um governo realmente reformista que altere este estado de coisas, o país estará fadado ao fracasso, preso a convicções arcaicas, práticas corporativistas e ações populistas.

Este governo, que começou promissor, inviabilizou-se por meio de seus próprios erros, medos e covardia. Carece do elemento essencial para encabeçar qualquer processo de reformas, que se chama liderança. Nesta transição, o Brasil teve a chance de arrumar a casa e asfaltar o caminho para a retomada da sensatez. Infelizmente mais uma vez optou-se pelas benesses pessoais em detrimento do país.

Um novo governo terá liderança e legitimidade para implementar as reformas, que agora precisam ser muito mais profundas e densas, portanto, mais desafiadoras. Se falharmos neste caminho veremos a falência completa do modelo implementado desde a Nova República, uma irresponsabilidade que pode colocar em xeque inclusive nossa democracia.

sexta-feira, julho 13, 2018

Pauta Bomba

Enquanto os candidatos ao Planalto se preocupam com alianças e tempo de TV, o Congresso Nacional está armando uma grande armadilha para o próximo governo. As receitas somem e são criados novos gastos públicos bilionários. Os números assustam e jogam fora qualquer tentativa de equilíbrio fiscal. Esta atitude transfere toda a pressão para o novo governo, que quando desembarcar no Planalto terá que implementar de forma urgente uma política de freio brusco nas despesas.

A irresponsabilidade em aprovar novos gastos se choca diretamente com um dos pilares da estabilização econômica implementada no país ainda na década de 90, a chamada meta de superávit. As contas públicas permaneceram em equilíbrio de 1999 até 2013. Em 2014, ano eleitoral, o desequilíbrio tornou-se uma realidade que assombra a economia brasileira até os dias atuais. Foram 32 bilhões em 2014, 115 bilhões em 2015, 154 bilhões em 2016, 124 bilhões em 2017 e uma previsão de 159 bilhões em 2018. Um governo em desequilíbrio asfixia a economia e inibe a criação de empregos.

As manobras em curso no Congresso Nacional jogam nos ombros do Tesouro gastos que variam entre 70 e 100 bilhões, uma carga que precisará ser paga pelo novo governo. Calcula-se que no próximo ano, além de carregar o déficit previsto, teremos que arcar com pelo menos mais 68 bilhões em despesas novas. Nosso parlamento pode estar inviabilizando o próximo governo antes da largada.

O pacote de bondades votado pelo Congresso Nacional afeta sua imagem para aqueles que entendem da consequências danosas de tais medidas, entretanto, para a grande massa da população, a imagem é outra. As benesses imediatas a grupos específicos asfaltam o caminho de uma reeleição tranquila para grande parte dos parlamentares. Um rombo nas contas públicas que garante sua permanência em Brasília.

A pauta bomba alivia temporariamente alguns setores jogando o peso do ajuste no ombros dos brasileiros pelos próximos anos. Desta forma, o Brasil segue sua rota de autodestruição.

quinta-feira, julho 12, 2018

Coligação Estratégica

O PR avança na estratégia de construir uma bancada numerosa na Câmara dos Deputados para os próximos quatro anos. A peça mais importante deste quebra-cabeça está sendo montada diante da possibilidade de união do partido com a candidatura de Jair Bolsonaro.

A conta é simples. Sozinho, o Partido da República teria que se desdobrar em um número grande de alianças para fazer crescer sua bancada. Ao lado do PSL, poderá usufruir da popularidade de Bolsonaro para alavancar a eleição de seus candidatos. Isto se explica porque o voto na legenda da aliança entre PSL e PR tende a ser grande com Bolsonaro trabalhando como puxador de votos. A coligação faria com que os candidatos do PR fossem catapultados para a Câmara.

Isso interessa Valdemar Costa Netto, manda-chuva do PR, porque assim seu partido sairia fortalecido do pleito independente do resultado da eleição presidencial. Seu partido tornaria-se importante na nova correlação de forcas no Congresso Nacional e de quebra passaria a contar com uma fatia mais significativa do fundo partidário.

Costa Netto, que já tentou filiar Bolsonaro em seu partido, agora negocia com o PSL, mas também não abandonou as conversas com outros partidos. Foi por seu intermédio que José Alencar se tornou vice de Lula em 2002 e ajudou o petista a chegar ao Planalto. Ele não descarta alianças com outros partidos, mas por enquanto a equação que aproxima o seu PR de Bolsonaro, ainda é a mais atrativa.

Se o PSL se coligar ao PR, Bolsonaro ganha um valioso tempo de TV e consolida a aliança com Magno Malta, seu nome preferido para ocupar a vice. A solução que pode funcionar como propulsor de sua candidatura a Presidente e dos candidatos que o PR deseja transformar em deputados. Uma união pragmática que tem tudo para se concretizar.

quarta-feira, julho 11, 2018

Todos os Homens do Presidente

Temer chegou ao Planalto com ambições grandiosas: reformar o governo, recuperar a economia e pacificar o país. Vinte e seis meses depois, os resultados estão muito longe do esperado, cristalizados na altíssima impopularidade do Presidente.

Os primeiros movimentos pareciam até inspirar alguma confiança. O número de ministérios foi cortado de 32 para 23, incluindo a escolha de um bom time na área econômica. Tudo parecia bem até o Presidente ser jogado nas profundezas da crise política por duas denúncias do Ministério Público Federal que poderiam afastá-lo do cargo. Temer resistiu, mas fez o país pagar um preço alto.

A partir daquele momento, o governo passou a respirar por aparelhos, enquanto seus ministros eram denunciados, presos ou afastados do cargo pela justiça. O núcleo duro palaciano do Presidente sofreu baixas importantes, outros seguiram sob suspeita e aos poucos a agenda reformista desaparecia no horizonte da sobrevivência política.

A fraqueza do governo está expressa na evolução do quadro ministerial. Temer empossou ontem seu 58º ministro. Uma rotatividade que expressa a crise de confiança vivida pelo Planalto. O enxugamento ministerial imposto quando chegou ao poder, aos poucos foi se desfazendo. Hoje Temer governa com 29 ministros. Realizou em média uma troca ministerial a cada duas semanas. Certamente não existe economia que resista a tamanha instabilidade.

Aquele que chegou a Presidência sonhando em mudar o Brasil, em pouco tempo tornou-se refém dos próprios erros. Ao final, diante da necessidade de manter o poder que aos poucos se derretia, rifou as reformas, desajustou a economia e abriu um fosso de radicalização no país. Agora, usando a caneta presidencial e as indicações que restam, asfalta o caminho para uma aterrisagem menos turbulenta.

terça-feira, julho 10, 2018

Lula vem aí?

A polêmica causada pela tentativa de soltura de Lula neste último final de semana instaurou uma sensação de incertezas e isto é o que de pior pode acontecer diante do processo eleitoral em curso no país.

O episódio deixa claro que o PT segue firme na estratégia de embaralhar o pleito trazendo Lula para o palco da sucessão, mesmo que o ex-Presidente esteja inelegível em função da Lei da Ficha Limpa. Haverá a tentativa de registrar sua candidatura e de manter seu nome na urna eletrônica, caso seu processo de impugnação não seja julgado em tempo. Mesmo que não se torne candidato, a simples presença do nome de Lula na urna pode acabar por inviabilizar a eleição, pois haveria dúvida se os votos iriam para ele ou seu vice ou mesmo se os votos seriam válidos. Fato é: mesmo impugnado, se Lula figurar na urna e obter um número expressivo de votos, uma enorme confusão estará formada. 

Para evitar tal situação, caberá a Justiça Eleitoral julgar em tempo hábil o pedido de impugnação de sua candidatura, que deve ser impetrado tão logo seja registrada. Entretanto, os dados ainda estarão rolando no judiciário, pois o PT deve levar o processo ao STF caso o ex-Presidente perca no TSE. Como vemos estaremos diante de uma batalha jurídica.

Tudo ficará ainda mais turvo porque teremos no comando do Supremo Tribunal Federal o ministro Dias Toffoli. Aquele que já foi advogado do PT, Advogado-Geral da União durante a presidência de Lula e fiel aos seus companheiros, como vimos no julgamento do Mensalão. Integrante da Segunda Turma do tribunal, famosa por soltar os presos da Lava Jato, entre eles, José Dirceu, um dos responsáveis pela sua indicação ao Supremo. Ninguém duvida que nunca se daria por impedido caso tivesse em mãos o caso de seu maior padrinho, Lula.

Neste último final de semana, o PT testou as instituições e mediu a temperatura do asfalto. Na manga ainda guarda cartas valiosas, que usadas no momento certo, podem embaralhar todo o pleito. A conferir.

segunda-feira, julho 09, 2018

Lições da Copa

A desclassificação do Brasil na Copa do Mundo está envolvida em aspectos culturais que fornecem sinais claros sobre o nosso País. Fomos superados pela quarta vez seguida por nações europeias: França (2006), Holanda (2010), Alemanha (2014) e finalmente a Bélgica (2018). Mas o que isto quer dizer?

Na mesma linha, com a exceção do Brasil (1994, 2002), o último campeão de fora da Europa foi a Argentina (1986). O evidente domínio do futebol europeu é o resultado de ligas fortes, clubes bem estruturados, disciplina e estudos táticos e acompanhamento da evolução do futebol, vetores que estão muito longe da realidade de nosso continente e de nosso país. A Copa Libertadores da América há tempos deixou de incorporar um futebol competitivo que encarava o campeão da Europa. Isto está expresso nos vencedores dos últimos 10 Mundiais de Clubes: Real Madrid (2017/2016), Barcelona (2015), Real Madrid (2014), Bayern de Munique (2013), Barcelona (2011), Internazionale (2010), Barcelona (2009), Manchester United (2008) e Milan (2007). O único intruso entre os europeus foi o Corinthians (2012).

O futebol não é o mesmo esporte do passado. Hoje a disciplina estratégica, força física e estabilidade emocional são partes essenciais do jogo. Craques com lances de genialidade não são a regra em times competitivos. Estas qualidades desequilibram em situações específicas e excepcionais, mas estão longe de ser definidoras de uma boa equipe. Enquanto isso, no Brasil ainda vivemos a cultura do craque, daquele que define, resolve, “vai pra cima” e em lances geniais define uma partida. Em uma liga como a brasileira, esta cultura encontra eco, mas quando bate de frente com a seriedade e disciplina dos clubes europeus, raramente vence.

Na política, como no esporte, o Brasil segue sua busca incansável por salvadores da pátria. Uma característica presente em nosso continente, algo que vai muito além das quatro linhas. Os resultados políticos, como sabemos são desastrosos. Celeiro de líderes populistas, países do México até a Patagônia, tornaram-se reféns de um modelo que trouxe um legado de subdesenvolvimento e derrotas.

Portanto, dentro e fora do futebol, já é hora de nos inspirarmos nos vencedores, em políticas reais, racionais e que funcionam em outras nações. Nosso futebol precisa beber na fonte das melhores práticas e deixar de tratar nossos jogadores como meninos iluminados deslumbrados com uma vida de sonhos. Precisamos deixar de justificar nossos fracassos, infantilizar nossos craques e nos tornarmos adultos, em todas as frentes, inclusive na política, evitando que o estado exerça a mesma função e infantilize o cidadão.

Uma solução para nosso futebol? Engolirmos nosso orgulho ferido e importarmos um técnico europeu de primeira linha, que traga para nossa seleção políticas de gestão, conceitos modernos que possa gerir reflexos em nossas ligas e clubes. Na política, assim como no futebol, também chegou o momento de deixarmos de ser reféns do atraso. Acabou a Copa. Ali na frente temos eleições.

sexta-feira, julho 06, 2018

Antropofagia Política

Enquanto os tucanos flertam com Aldo Rebelo, que até pouco tempo dava expediente no PC do B, para vice de Alckmin, o Democratas está inclinado a apoiar Ciro Gomes na disputa presidencial. O antigo PFL chegou a cogitar mudar seu nome para "Centro" poucos meses atrás, para deixar claro a guinada ideológica de um partido que sempre foi identificado com a direita.

Do ponto de vista da ciência política é curioso observar estes movimentos. Alguns partidos brasileiros carecem de uma análise mais apurada de timing. O PFL, convertido a Democratas, passou os governos Lula e Dilma protegendo bandeiras da centro-direita, defendendo o legado de FHC muito mais do que qualquer tucano. Pagou um preço alto. Viu sua bancada definhar no momento de maior força do petismo. Agora que o pêndulo toma o rumo da centro-direita conservadora, o partido, que possui em seus quadros nomes como Ronaldo Caiado, que se encaixaria muito bem nesta corrida presidencial, se afasta de sua história, distancia-se do que sempre defendeu e articula apoio a Ciro Gomes, hoje hospedado no partido fundado por Brizola e comandado por Carlos Lupi. Se ainda fosse vivo, Antônio Carlos Magalhães certamente impediria tal movimento.

Os tucanos, que apanharam do petismo nas urnas e no parlamento e viram sua bancada definhar, hoje cogitam trazer Aldo Rebelo, articulador político do Governo Lula, para ocupar a vice de Geraldo Alckmin. Seria curioso, se não fosse trágico. Isto praticamente inviabiliza a candidatura do ex-Governador de São Paulo em setores conservadores, entregando estes eleitores em uma bandeja de prata para Bolsonaro.

O Brasil passa por um processo de guinada conservadora. Infelizmente, alguns partidos que poderiam se beneficiar desse movimento natural do eleitor, tornaram-se clubes de interesses difusos incapazes de defender uma ideologia, apenas os interesses pessoais de seus líderes. Isto explica porque partidos de cunho conservador não conseguem se viabilizar diante de seu eleitorado tradicional. Perde a boa política. Perde o Brasil.

quinta-feira, julho 05, 2018

Alckmin em Risco

Circula em Brasília a informação de que Geraldo Alckmin poderia estar sendo rifado diante da falta de tração de sua campanha, estacionada ao redor dos 7%. Os principais arquitetos do projeto seriam Michel Temer e Fernando Henrique Cardoso, que andaram conversando nos últimos dias.

Alckmin nunca foi considerado um tucano de primeira linha pelos seus colegas, que acham seu jeito muito provinciano, algo que passa longe do charme intelectual de FHC. O ex-Governador de São Paulo inclusive gosta de nutrir este semblante de homem do interior, que cativa o eleitor paulista, mas passa ao largo dos cardeais de seu partido.

A conversa é sempre a mesma, substituir Alckmin por Doria na corrida ao Planalto. O nome do ex-Prefeito de São Paulo se encaixaria perfeitamente no quadro sucessório deste ano, entretanto, os tucanos perderam o timing. Presos a decisão de Geraldo Alckmin de concorrer, Doria perdeu a oportunidade de vender ao eleitor uma espécie de "chamamento das forças de centro" para largar a Prefeitura e concorrer ao Planalto. Feito da maneira correta, poderia funcionar. Quando deixou a Prefeitura para concorrer ao Palácio dos Bandeirantes por vontade própria, desgastou sua imagem.

A operação imaginada por Temer e FHC esbarra em um ponto essencial. O Presidente do PSDB é Geraldo Alckmin e depende dele a opção de lançar-se candidato ou não. Se forçar a barra, pode ser abandonado pelos cardeais. Um dilema.

Se os tucanos partirem para a corrida presidencial como coadjuvantes, restará ao PSDB assumir a estratégia do MDB e tentar fazer um bancada numerosa para influenciar no próximo governo. Por enquanto, entretanto, os caciques de ambos os partidos ainda consideram marchar unidos, somando fundos eleitorais milionários e um tempo de TV considerável. Mas nesta equação não cabe Geraldo Alckmin. A conferir.

terça-feira, julho 03, 2018

Rejeição Política

O fenômeno da rejeição aos políticos vista no Tocantins pode se repetir em nível nacional na eleição presidencial. Por lá, mais de 50% foram para o chamado "não voto", somados brancos, nulos e abstenções. Isto mostra o grau de desencanto com a política e a rejeição aos políticos, algo que deve levar a uma profunda reflexão neste ciclo eleitoral.

As pesquisas nacionais mostram que 64,5% dos eleitores não se sentem representados por qualquer um dos 28 pré-candidatos a presidente. Vemos que não faltam candidatos, mas o eleitor ainda não se convenceu de que qualquer um deles pode fazer diferença no atual cenário. O brasileiro vive uma situação de total desesperança e desalento com o futuro, resultado de um processo de deterioração econômica iniciado por Dilma Rousseff, que atravessou um impeachment se alojou em um governo Temer que ainda não conseguiu apresentar soluções aos problemas reais da população. O poder de compra deteriora, a economia patina e os níveis de emprego não reagem.

Com a Lava Jato expondo as vísceras de um sistema viciado e a corrupção transbordando nos porões de Brasília, o cidadão hoje sente-se refém de políticos que perderam a credibilidade. Isto leva o eleitor a rejeitar a política em si, tornando a solução do problema uma equação de difícil solução. Foi o que vimos no Tocantins, quando 35% da população sequer foi votar no dia da eleição e 26% optaram por anular ou votar em branco, mesmo percentual observado nas pesquisas nacionais.

Estamos diante de um pleito extremamente incerto pela rejeição aos políticos, algo que levou a rejeição da polítca e afeta a credibilidade da democracia em si, um grande perigo que pode apontar o surgimento de líderes populistas. O vencedor da eleição será decidido pela abstenção e o desencanto com a política.

segunda-feira, julho 02, 2018

Centro em Alerta

A profusão de candidatos de centro nessa disputa presidencial mostra o total descolamento de parcela da classe política diante da realidade do país e dos desejos do eleitor. Vivemos um momento polarizado, o ápice de um ciclo de 30 anos que iniciou-se com a Nova República e que agora chega ao seu final. Nesses momentos, o eleitorado mostra uma tendência de voto em candidatos que prometem uma mudança profunda de rumo nos destinos do país.

Assim, não deixa de ser curiosa a opção de tantos candidatos pelo chamado centro, que possui estratégia diametralmente oposta ao movimento do eleitor. O que não surpreende é que os centristas, até o momento, ainda não decolaram. Este bloco tenta seguir unido na disputa presidencial. Contudo, dificilmente embalam durante a disputa. Mesmo entre seus representantes já existem aqueles que, cientes da inviabilidade eleitoral, aderem aos candidatos que pontuam de forma relevante nas pesquisas.

Essa mudança de fundo cíclica operada pela sociedade brasileira tende a mudar as bases do tecido que constitui os alicerces políticos da República, trazendo elementos diferentes que, aos poucos, formarão uma nova correlação de forças. A entrada de membros da magistratura e do Ministério Público na política é um primeiro sinal dessa mudança de representação, que deve ser acompanhada pela eleição cada vez maior de líderes evangélicos de cunho neopentecostal, além de âncoras e apresentadores populares dos meios de comunicação. Essa mudança está em curso e será sentida durante a nova formação dos quadros parlamentares no Congresso Nacional. Os políticos tradicionais já estão perdendo preciosos votos para esses movimentos.

Para além disso, esses grupos possuem uma agenda própria, sufocada pelos últimos governos e que, finalmente, desejam reagir e ter voz. A pauta ainda é difusa, mas toca em temas centrais, como o duro combate aos corruptos, resgate dos valores conservadores, briga sem tréguas contra a criminalidade, entre muitos outros. Essa vertente do eleitorado, órfã durante muitas eleições, parece ter encontrado rumo neste ano.

Se do lado conservador parece haver cada vez mais unidade, a esquerda ainda busca seu representante. Com a prisão daquele que forneceria voz para sua agenda, outros buscam viabilizar-se em cima de seu eleitorado. A reação dos grupos ligados ao petismo e seus satélites tendem a constituir-se como a força oposta nas eleições, polarizando a disputa e o debate, um enfrentamento entre a agenda em curso diante de um crescente movimento conservador.

Existe um vácuo no centro, entretanto, este lugar não permanece vago pela falta de alternativas, mas pela falta de interesse do eleitor em sua agenda. Aqueles que insistirem em transitar por este caminho, tendem a sucumbir, como estamos vendo neste processo eleitoral. A política brasileira está passando uma mudança profunda e aqueles que não entenderem este movimento, ficarão de fora do próximo capítulo.