segunda-feira, agosto 13, 2018

Duelo (Im)previsível

A política brasileira recente, marcada por um duelo previsível, pode estar dando sinais de fadiga. Novos atores tem alterado de forma significativa o jogo de poder, algo que tem preocupado os mais experientes. Se o ímpeto renovador for mais forte que as manobras da classe política, podemos estar diante de um embate inédito de segundo turno, que confrontará duas visões realmente diferentes de país.

Na história recente do Brasil, a esquerda soube manobrar as táticas e o discurso melhor do que seus adversários. Se posicionou na frente ideológica, dominando a narrativa. Aos poucos atingiu a hegemonia durante a Nova República, dando as cartas desde a redemocratização.

Desde 1985 vivemos sob a hegemonia de MDB, PSDB e PT, com um hiato de pouco mais de dois anos durante o governo Collor, predominantemente de corte liberal – que sucumbiu ao sistema tentando reinventá-lo. O establishment político brasileiro se alternou entre a esquerda moderada, representada pela social democracia tucana e uma esquerda de viés sindical e patrimonialista, validada pelo petismo. Entre os dois, o MDB, que após a cisão que deu origem ao PSDB, posicionou-se como partido de centro que manobra nos bastidores do presidencialismo de coalizão servindo tanto a tucanos, quanto a petistas.

Diante da consolidação da Nova República, o país se viu diante de sucessivas eleições onde a escolha se dava somente com candidatos de vetor ideológico esquerdista, reeditando por várias vezes um pseudo confronto entre moderados e sindicalistas, ou melhor traduzindo, entre tucanos e petistas. O resultado foi a hegemonia da esquerda variando entre seus dois polos.

Nas eleições deste ano, pela primeira vez em quase três décadas, chega ao páreo com chance de vitória um nome que pode representar uma ruptura no sistema hegemônico em curso desde a redemocratização. A perspectiva de rompimento do mecanismo clássico de poder fez com que a classe política se aglutinasse em torno de um candidato com viés moderado, enquanto o lado sindical se articula nos bastidores. A esperança de ambos é a reedição dos últimos duelos presidenciais como forma de realizar a manutenção destes atores e seus apoiadores no palco político.

Mas falta combinar com o eleitor. A certeza de que a reação contra o establishment será contida perde força a cada pesquisa. Enquanto isso, a certeza de voto na perspectiva de renovação representada por Bolsonaro, que promete ruptura com a estruturas tradicionais de poder, se consolida. Do outro lado vemos tucanos e petistas buscando reeditar mais duelo. Neste briga, apesar do esforço do PSDB, o PT saiu na frente e mostra muito mais fôlego para se classificar para o segundo turno.

Pela primeira vez em quase 30 anos, é possível que o eleitor brasileiro seja confrontado na rodada final com duas propostas realmente antagônicas de poder, mudando a configuração morna e previsível dos embates presidenciais mais recentes.

sexta-feira, agosto 10, 2018

Lições do Debate

Para aqueles que esperavam um embate duro e os candidatos se expondo, o ringue montado pela Band decepcionou. O movimento foi de sentir o terreno, sem arriscar, sob pena de queimar a largada e se inviabilizar no quadro sucessório. Entretanto, todos deixaram impressões importantes que precisam ser avaliadas.

Álvaro Dias, um parlamentar experiente, que fala muito bem de improviso da tribuna do Senado, falhou ao tentar se comunicar com o eleitor. Sua principal tarefa seria se colocar como uma alternativa a Geraldo Alckmin. Perdeu uma grande oportunidade. Álvaro precisa discorrer mais sobre propostas, sem carga midiática, para atrair os votos do tucano. A estratégia adotada neste debate não ajuda sua chapa.

Mas o troféu decepção ficou com Henrique Meirelles. Sem experiência densa em campanhas, tentou seguir as orientações da cartilha de oratória e media training, mas faltam ainda muitas horas de prática para conseguir engrenar. Certamente será abandonado ao longo da campanha pelos que ainda apoiam sua candidatura e hoje serve apenas de escudo para o verdadeiro candidato do governo, Geraldo Alckmin. Meirelles segue na disputa apenas para absorver a impopularidade de Temer.

Nenhum candidato tirou Bolsonaro da sua zona de conforto mais uma vez. Falou para o seu eleitorado e ainda ganhou pontos com os mais moderados, pois Cabo Daciolo atraiu para si uma postura radical. Não foi brilhante, mas também não comprometeu.

A estratégia geral de isolar o PT funcionou, o que ajuda Boulos e Ciro na disputa. Dois candidatos bem articulados, que sabem emitir sinais para a esquerda. Em um debate sem Lula ou Haddad, o PT foi sumariamente ignorado. Marina Silva mostrou que chegou para ser apenas coadjuvante e Alckmin insiste em ser Alckmin, um tecnocrata experiente. Aposta na falta de alternativas para emplacar.

Ao fim, o debate serviu para os candidatos sentirem o terreno onde estão pisando e serve para os que erraram ainda corrigirem seu rumo, sob pena de a corrida presidencial se estreitar entre dois ou três candidatos no primeiro turno.

quinta-feira, agosto 09, 2018

Primeiro Debate

Logo mais estaremos diante do primeiro debate entre os presenciáveis na televisão aberta. A expectativa é grande, uma vez que pequenos candidatos ganharão mais exposição, aqueles no pelotão intermediário tentarão ganhar tração e os líderes tentarão manter sua posição.

Tudo indica que Lula não participará, tampouco seu avatar Fernando Haddad. Perde o PT, uma vez que o ex-Prefeito de São Paulo poderia começar a ficar mais conhecido como o nome de Lula na corrida presidencial, mesmo representando, por hora, o papel de vice. Quanto mais Haddad colar sua imagem na de Lula, maiores serão as chances de herdar parte dos seus votos.

Será interessante também observar a postura de Álvaro Dias. Alckmin pensa que seu maior adversário é Bolsonaro. Engana-se, pois seu mais importante competidor é o Senador pelo Paraná, que também ocupa a posição de centro, mas é detentor do discurso ético que falta a Geraldo Alckmin. Para subir nas pesquisas, Álvaro deve centrar fogo nas fraquezas do peesedebista, explorando a principal diferença entre ambos: as companhias pouco recomendáveis do tucano e a aliança silenciosa do PSDB com Michel Temer.

Bolsonaro, por ocupar a liderança, será certamente alvo de ataques, entretanto, os adversários precisam observar se neste ponto é melhor brigar entre si com vistas a chegar ao segundo ou bater no candidato do PSL, que possui uma enorme certeza de voto consolidada entre seus eleitores. Atingir Bolsonaro hoje pode ser pouco efetivo e o precioso tempo do debate pode ser usado de forma mais estratégica. Política não se faz com o fígado, mas com a cabeça.

Este será o primeiro passo de uma campanha imprevisível e que já começa quente. Enxergar como se portarão os candidatos já apontará a estratégia que cada um desenhou para sua campanha. O jogo começou.

quarta-feira, agosto 08, 2018

Opção por Mourão

Dentre todos os vices possíveis no rol de Bolsonaro, o General Mourão, do ponto de vista eleitoral, era a opção menos recomendável. Mas esta tem sido a postura de Bolsonaro desde o começo de sua vida parlamentar e especialmente durante sua campanha. Possui enorme independência. A troca de partidos em sua carreira deixa isto muito claro. A chegada no PSL também é um exemplo desta tentativa de descolamento da tutela partidária, algo que procura imprimir em sua chapa.

Se de um lado isto joga sua candidatura ainda mais para o terreno dos outsiders, do outro, o exagero na dose pode vir a causar danos em seu potencial eleitoral. A chance de candidaturas como a de Bolsonaro não serem afetadas por decisões equivocadas, ocorre quando a chapa está embalada em uma onda, como foi com Collor em 1989 e com Jânio em 1960. O cenário para que uma candidatura deste molde embale desta forma está posta. Resta saber se o candidato do PSL conseguirá seguir neste caminho.

Será importante analisar se a certeza do voto em Bolsonaro foi afetada. Se continuar nos patamares altos que se encontrava, as chances de dano serão minimizadas. Entretanto, se este nível cair, pode surgir um alerta para a campanha avaliar novos caminhos.

O problema eleitoral de Mourão como vice na chapa é claro. Não amplia a base eleitoral. Pelo contrário, torna-a mais circunscrita, acentuando uma característica em detrimento de outras. Luiz Philippe de Orléans e Bragança ampliava a candidatura, assim como Janaína Paschoal ou até mesmo Marcos Pontes. De uma forma ou de outra, todos agregariam votos para além de Bolsonaro. A opção por Mourão fechou este vetor, tornando a chapa mais restrita.

As condições para vitória de Bolsonaro estão dadas pelo cenário e conjuntura política nacional, mas nem sempre o principal beneficiário de um movimento sabe lidar com a onda a favor, assim como foi com Marina Silva em 2014. Pequenos erros podem fazer uma campanha virtualmente vitoriosa se perder.

terça-feira, agosto 07, 2018

Estratégia Petista

O PT começou a concretizar sua estratégia de poder. O anúncio de que Fernando Haddad ocupará o posto de vice de Lula é mais um passo nesta direção. Como a impugnação da candidatura é considerada como certa nos meios políticos, Haddad pularia para a cabeça de chapa e Manuela D'Ávila, do PC do B, ocuparia o posto de vice.

Os movimentos do partido foram além do esperado na semana que passou. Em uma aliança silenciosa  com o PSB, acertou que os socialistas não apresentariam candidato e que se apoiariam mutuamente em um par de estados. As direções regionais reclamaram, mas certamente irão se enquadrar ao comando central dos partidos. Na chapa petista foi incorporado o PC do B e também era esperada a chegada do Pros.

A estratégia é manter Lula na cabeça de chapa, embaralhando o quadro sucessório e fazendo com que seus votos não se percam em outras candidaturas. Quando chegar o momento da impugnação e o fim dos recursos, Haddad assume formalmente o posto e tenta uma vaga no segundo turno. Jaques Wagner, também cotado para o posto, concorrerá em uma eleição segura para o Senado pela Bahia.

Apesar de muitos alegarem que o petismo está morto depois do impeachment, acredito no contrário. O partido está vivo e possui chances reais de vitória nesta eleição presidencial. Considerando que 20% do eleitorado brasileiro se considera petista, depois que Haddad receber a benção de Lula, alcança condições reais de chegar ao segundo turno. Sua candidatura desidrata os números de Ciro e deve jogar o petista, que já pontua por volta dos 6%, para cerca de 15%.

O jogo apenas começou. O PT começou colocar suas cartas na mesa.

segunda-feira, agosto 06, 2018

Guinada Conservadora

Bolsonaro segue sendo o principal personagem desta eleição. Isto ocorre não somente por liderar as pesquisas, mas porque tornou-se o centro das atenções dos seus opositores. Entretanto, sua estratégia vai além. Falando de forma simples, diretamente ao brasileiro médio, alcança uma conexão que poucos políticos conseguiram estabelecer com o eleitorado.

Vivemos tempos de sentimento de renovação e de uma revoada conservadora pelo mundo. É natural, como em outros momentos, que o Brasil seja influenciado por essas ondas. Bolsonaro se aproveita disso e apesar de ser classificado como raso e superficial, até o momento foi o único que conseguiu posicionar seu discurso nesse sentido.

A opção de Geraldo Alckmin foi a oposta. Usa modelos antigos, como alianças amplas, privilegiando o tempo de televisão, apoios de políticos tradicionais e divisão dos cargos entre a velha política para vencer as eleições e governar. Contudo, vivemos em um período de entressafra política, que ocorre a cada 30 anos, que tende pela rejeição ao sistema, algo que geralmente resulta em renovação, levando aqueles que se posicionam como outsiders ao poder.

Assim como Bolsonaro, Álvaro Dias entendeu este movimento, mas não conseguiu até o momento criar esta conexão direta com o eleitor. Hoje posiciona-se como uma opção racional entre Bolsonaro e Alckmin. O candidato do Podemos, que fala sobre a refundação da República, busca representar um centrismo renovador, sem alianças com as velhas estruturas de poder e tenta dialogar diretamente com as ruas. Corre o risco que não agradar ambos os lados, sendo jogado em um limbo eleitoral estacionado nos 6%, porém, se sua estratégia vingar, pode drenar eleitores de Alckmin e Bolsonaro e decolar.

Percebemos que todos estes candidatos buscam transitar na mesma faixa do eleitorado, mas por caminhos opostos. Alckmin segue a trilha mais segura, as vias mais conhecidas, dentro da política tradicional onde foi forjado. Álvaro é mais ousado que o tucano, entende mais claramente o movimento do eleitor e busca uma fórmula alternativa, porém com prudência. Bolsonaro resolveu atacar as estruturas tradicionais e posiciona-se como outsider. A hostilidade da mídia tradicional e os ataques viscerais de seus opositores, apenas consolidam esta imagem.


O ponto central do debate é até que ponto o sentimento de renovação será a tônica desta eleição presidencial. Quanto mais reforçado estiver este movimento, maiores as chances de Bolsonaro. Se este sentimento refluir, Alckmin tem mais chances de se viabilizar, com Álvaro correndo por fora nestes dois cenários. O fato central é que o eleitorado mostra uma guinada conservadora e aquele que souber explorar melhor este fenômeno, na calibragem correta, tem grandes de chegar ao segundo turno e inclusive vencer as eleições. Até o momento, que soube explorar melhor este caminho foi Bolsonaro.

sexta-feira, agosto 03, 2018

Escolha Prudente

A escolha de Ana Amélia Lemos como candidata a vice de Geraldo Alckmin gera desdobramentos na política nacional e regional, especialmente no Rio Grande do Sul, terra da Senadora. Os ganhos para a chapa do tucano são inegáveis, pois ela é vista como um dos melhores quadros do Congresso Nacional e pode ajudar a finalmente alavancar os números do peessedebista na disputa.

O primeiro desdobramento ocorre dentro da sucessão gaúcha, aquele que irá escolher o novo inquilino do Piratini, e o nome que deve ocupar a cadeira de Ana Amélia pelo Rio Grande do Sul no Senado. O provável deslocamento de Luiz Carlos Heinze da disputa do Governo para o Senado tem várias consequências. A principal delas é o fortalecimento do nome do ex-prefeito de Pelotas, o tucano Eduardo Leite, que assume maior protagonismo na disputa e passa a contar com chances reais de vitória.

Com Heinze chegando para disputar a vaga de Ana Amélia no Senado, o jogo presidencial no Rio Grande do Sul também fica embaralhado, uma vez que o deputado do PP era o principal palanque de Bolsonaro no estado. A ideia era impulsionar a votação do capitão usando a enorme penetração do Progressistas nas cidades do interior. Nesta nova configuração, Heinze tem grandes chances de conquistar o Senado, herdando os votos de Ana Amélia, e Alckmin desmonta a principal base de apoio de Bolsonaro no Rio Grande. Uma manobra inteligente.

A eleição para o Senado, entretanto, não está decidida. Heinze precisará trabalhar para não correr o risco de ser surpreendido. Além do mais, os bastidores informam que os números de Ana Amélia não eram tão robustos como pareciam. Havia desconforto com alguns prefeitos e um racha na sua base de apoio no interior. Sua reeleição não era considerada garantida. Assim, explica-se em certa medida o aceite para ocupar a vice de Alckmin.

O impacto para o eleitorado da Senadora também não foi dos melhores. Como defensora da Lava Jato, muitos estranharam o acordo com Alckmin, que hoje carrega o centrão e possui ligações fortes com Michel Temer. A escolha de Ana Amélia distancia um pouco mais a chapa do governo, mas gera, especialmente para os apoiadores da Senadora gaúcha, uma sensação grande de desconforto.  Em caso de derrota, ela precisará reconstruir sua imagem.

O movimento de Alckmin é correto se considerarmos a velha política – sua aliança com o centrão. Desde o princípio vem trilhando este caminho. A aposta pode alçar seu nome ao segundo turno, entretanto, diante dos novos ventos na política e do ímpeto de renovação, surge na contramão da tendência do eleitorado. No papel, Alckmin está fazendo tudo certo, mas falta acertar com o eleitor, que vem rejeitando esta postura. Ana Amélia talvez seja a opção que mais aproxima Alckmin deste movimento, uma opção prudente. Se irá funcionar, somente as urnas irão responder.