sexta-feira, dezembro 13, 2013

O Apoio ao Tea Party

O Tea Party, ao mesmo tempo que propaga a idéia de que é um movimento em direção aos verdadeiros valores do partido republicano, é uma das principais ameaças ao sucesso eleitoral do GOP. Muitos defendem que o grupo, na verdade, não propaga um resgate de valores, mas um simples movimento extremamente conservador que deseja tomar o controle do partido.

Dentro do partido, o movimento tem força, mas não é algo avassalador. Há uma clara divisão interna. Hoje 58% dos republicanos são a favor do Tea Party, enquanto que 28% são contra. Os números explicam, entretanto, porque aos poucos o grupo vai passando a controlar a agenda partidária. Apesar de não haver um controle total, a parte contrária pouco a pouco está sendo expelida.

Se internamente o Tea Party tem conseguido manter o partido sob controle, externamente os resultados não são bons. Entre os eleitores independentes, aqueles que em geral decidem eleições por aqui, o apoio ao movimento é de 28%, enquanto a percepção negativa é alta: 48%. Portanto, se as políticas do grupo conservador tomarem completamente o controle do partido, os eleitores independentes tendem a se afastar e mais eleições serão perdidas.

De um modo geral, entre todos os eleitores, apenas 30% enxergam com bons olhos este movimento conservador, enquanto 51% dizem não aprovar o grupo. A guinada do partido, portanto, afasta os republicanos de vitórias reais. Os líderes do Tea Party, como já escrevi aqui, dizem que preferem perder eleições com candidatos conservadores do que vencer com moderados. No longo prazo, dizem, acabarão por reorganizar a política do país.

Esta guinada será fundamental para as próximas eleições presidenciais, onde haverá um choque entre moderados e conservadores e realmente surgirá a grande batalha pela alma do partido republicano. Um partido renovado surgirá e quem liderar este processo, pode também vencer a eleição presidencial.

quarta-feira, dezembro 11, 2013

Antropofagia Republicana

O partido republicano atualmente possui uma confortável vantagem no Senado. Mas isto pode mudar. A ameaça, entretanto, não vem dos democratas, mas das próprias hostes republicanas. O Tea Party, que controla uma fatia do partido, está travando uma guerra particular contra alguns senadores mais moderados. O objetivo é substituí-los por parlamentares mais conservadores. A estratégia é arriscada.

Os alvos já foram definidos: são oito senadores republicanos moderados que irão buscar a reeleição em 2014. Entre eles estão o líder Mitch McConnell do Kentucky, além de veteranos como Thad Cochran do Mississippi e Pat Roberts do Kansas. Os que possuem maior trânsito entre os democratas, como Lindsey Graham, da Carolina do Sul, também serão desafiados. No Texas o senador John Cornyn também entrou na linha de tiro.

A estratégia do Tea Party é derrubar estes senadores ainda na partida, ou seja, nas primárias. Eles enfrentarão um período pré-eleitoral muito difícil, em uma pré-campanha duríssima contra candidatos conservadores que não desejam se entender com os democratas. A estratégia é acabar de vez com o bipartidarismo, já tão em falta em Washington, atacando aqueles que ainda conseguem atravessar o plenário e dialogar com os adversários.

Caso vençam as primárias, os senadores republicanos não possuem certeza de sucesso. Enfrentarão depois disso uma eleição majoritária contra os democratas. Cientes disso, os moderados sabem que, se substituídos por candidatos mais conservadores, seus gabinetes podem parar na mãos dos democratas na próxima legislatura. Mas o Tea Party não se importa. Defendem que é melhor perder com conservadores do que vencer com moderados.

Os conservadores dizem que assim estão defendendo os princípios do partido. Do outro lado, senadores  moderados e de larga experiência, como Lindsey Graham, dizem que estas serão eleições pelo coração e a alma do GOP. Pessoalmente acredito que o radicalismo conservador está destruindo os republicanos. O movimento político acertado, para o bem do partido e da América, é mover-se para o lado dos moderados e provocar o mesmo deslocamento no lado democrata. Apenas uma agenda comum pode resolver os problemas deste país.

A antropofagia republicana causada pelos mais conservadores faz muito mal ao partido e aos Estados Unidos. A história mostra que o verdadeiro GOP, o partido de Lincoln, foi construído longe dos radicalismos.

sexta-feira, dezembro 06, 2013

Obama e Mandela

Muito será escrito sobre Nelson Mandela ainda, mas neste comentário de hoje gostaria de escrever sobre seu impacto nos Estados Unidos, em especial na vida do atual Presidente, Barack Obama.

Obama fez uma campanha muito inteligente. Apresentou-se como candidato sem inserir qualquer denotação racial. O Senador por Illinois era negro, mas antes disso era um bom homem, com boas intenções e projetos para os Estados Unidos. O, agora Presidente, foi na contra-mão da assertividade da raça como um diferencial em sua campanha.

Ao contrário de muitos movimentos ou líderes que fizeram de sua condição social, sexual ou racial o principal tema de sua agenda, Obama candidatou-se além disso. Projetou sua imagem como um conciliador, representante de um novo momento, um período de mudança, sem revanchismos ou vinganças. Nada de olhar para trás, mas para frente.

Certamente sua postura foi uma das heranças deixadas por Nelson Mandela. É o seu legado. Será também o de Obama. A questão racial nos Estados Unidos é algo ainda muito latente. As marcas deixadas pelo passado escravista são fortes e dolorosas. Para quem ainda tem dúvida disso, sugiro o novo filme de brilhante diretor Steve McQueen "12 Years a Slave". Assim, a eleição de Obama é, por si só, um fato simbólico e a certeza de que a América está curando suas feridas.

Somos de uma geração influenciada por essas idéias. Obama nos mostrou em sua campanha que a cor de sua pele é apenas mais uma característica do grande homem que ele se tornou. Devemos avaliar governantes por suas idéias e ações e assim tem sido feito com o Presidente americano. Mandela ensinou Obama e a todos nós a olhar adiante. O passado nos aprisiona. O futuro nos liberta. Obama e Mandela olharam adiante, sem revanchismos e mostraram ao mundo que acima de tudo o que importa são as suas idéias. Se erramos no passado, somente temos a lamentar. Devemos aprender e fazer do futuro algo diferente, longe do caminho que já nos aprisionou.

Ontem passei caminhando pela Casa Branca e enxerguei a bandeira do mais poderoso país do planeta a meio-mastro. Fiquei observando a grandeza do gesto. Posso discordar politicamente de Obama, mas ele é um grande homem, alguém que sabe olhar para o futuro, e por isso merece meu respeito e admiração, assim como o bravo Nelson Mandela que partiu.

quinta-feira, dezembro 05, 2013

A Credibilidade de Obama

Os números de Obama vem despencando por várias razões. Mas é preciso entender a sociedade americana para analisar bem as origens dos problemas enfrentados pelo Presidente. A grande questão neste momento é a falta de credibilidade, ou seja, existe uma desconfiança dos americanos quanto ao que ele diz. Faltar com a verdade, torcer acontecimentos, para os americanos, é um pecado cruel. De certa forma ele cruzou esta linha em dois assuntos importantes.

O menos grave dos dois temas é a Síria, já que é um assunto que não afeta diretamente os americanos. Quando Obama mencionou que existia um limite para Assad, que seria o uso de armamentos químicos, todos acreditavam que ali estava realmente um limite. Certamente a política internacional é muito mais complexa do que isso, mas a sociedade americana interpreta as coisas da sua maneira. O fato de Obama ter prometido agir no caso de uso de armas químicas e não ter cumprido a promessa, leva muitos americanos a questionar se a palavra do Presidente tem algum valor.

O segundo tema é o Obamacare. Este é um assunto mais delicado. O Presidente veio a público tempos atrás e disse aos americanos que eles poderiam manter seus planos de saúde caso assim desejassem. Quando veio a implementação do Obamacare não foi bem isso que aconteceu. Como o sistema de seguro vendido pelo governo tem uma cobertura mínima, ele agiu no mercado, forçando que os outros planos tivessem a mesma cobertura básica do Obamacare, logo, milhares de americanos estão sendo notificados a reajustar seus planos pois a cobertura está sendo expandida.

Aqui não funciona o raciocínio brasileiro. Muitos diriam que o plano mudou para melhor, que agora existe mais cobertura. Não funciona assim na mente dos americanos. Eles são uma sociedade contratual onde o valor da palavra é a base das relações. Malandragem não engata nos Estados Unidos. Jogo de palavras não funciona por aqui. A decepção com Obama neste quesito é enorme e isto explica porque tantos deixaram de confiar no Presidente.

terça-feira, dezembro 03, 2013

Tensão na Ucrânia

O embaixador americano mandou um recado para o Presidente da Ucrânia, Viktor Yanukovych: não usar força contra os manifestantes. Não adiantou. Assim que caiu a noite e os jornalistas se recolheram, a polícia não se intimidou e foi dura com os que ainda permaneciam em protesto contra o governo.

As manifestações fazem parte de mais um capítulo da história entre duas Ucrânias que ainda não se entendem desde que o país se tornou independente por volta de duas décadas atrás. Parte do território, situado ao lado leste do rio Dniper possui uma tendência em favor da Rússia. Do outro lado, pró-Ocidente. Este choque entre duas formas de ver o mundo tem gerado convulsões políticas.

Yanukovych tentou chegar ao poder em 2004, por meio de uma fraude nas eleições nacionais, na sucessão de Leonid Kuchma. Somente a Rússia reconheceu o resultado que levaria seu aliado ao poder. Depois de uma série de manifestações, o eleito Viktor Yushchenko, pró-Ocidente, chegou ao poder. Mas Yanukovych não desistiu e tentou de novo. Desta vez conseguiu. Chegou lá em 2010. Seus opositores, Viktor Yushchenko e Yulia Tymoshenko foram varridos dos salões. Esta última, inclusive está presa.

Yanukovych chegou ao poder com a missão de aproximar a Ucrânia da Rússia. Parte do país, entretanto, deseja uma aproximação com a União Européia e a Otan, coisa que Putin enxerga como uma ameaça. As negociações com Bruxelas prosseguiram. Depois dos acordos realizados, dias antes da formalização, Yanukovych vacilou. Disse, nos bastidores, que sentiu-se abandonado pela UE e sofre uma pressão enorme da Rússia. O povo, que deseja os padrões europeus, revoltou-se e ocupou a capital Kiev em protesto.

Com uma taxa de popularidade de 20%, Yanukovych não pode dar-se ao luxo de muitas aventuras políticas. Se conseguir manter-se no poder, certamente deixará o comando do país em 2015 e diante de uma classe política altamente corrupta, sabe-se lá o que pode acontecer. O Presidente preferiu confiar em Putin e Moscou. Jogou da maneira que se esperava, afinal somente os ingênuos poderiam crer em algo diferente.

Yanukovych fez aquilo para o qual foi eleito: aproximar seu país da Rússia. Não contava que este ato, aliado ao de desistir da União Européia, jogasse a Ucrânia em profunda revolta. Os próximos dias serão crucias - para ele e a Ucrânia.

segunda-feira, dezembro 02, 2013

O Fator Walker

O Governador do Wisconsin, Scott Walker é uma estrela em seu partido. Os republicanos gostam de Walker pelo seu carisma, mas essencialmente por ser um político que se manteve ligado aos princípios conservadores do partido em suas ações, em especial na área econômica, com um trabalho voltado diretamente para diminuir o tamanho do Estado e a intervenção na economia.

Wisconsin é um terreno difícil na batalha política. Mesmo com Paul Ryan, deputado pelo estado, sendo o vice de Romney, os republicanos não ganharam a eleição presidencial por lá. Aliás, com a exceção das duas eleições de Reagan, os democratas vencem eleições presidenciais no Wisconsin com facilidade. Não perdem por lá desde 1988. No governo, existe uma tendência de alternância entre os dois partidos, mas isto não quer dizer que seja fácil.

Scott Walker, depois de eleito e passar reformas que mexiam profundamente na economia, sofreu um processo de recall. Os protestos foram fortes e um lobby poderoso se formou para retirar Walker do poder. Ele reagiu e venceu o recall com uma margem inclusive superior aos números de sua eleição anterior. Aqueles que tentaram derrubá-lo, acabaram por dar-lhe uma musculatura política nacional. Recebeu doações de fora do Wisconsin e apoios variados de estrelas do partido. Coisas da política.

Já conhecia o Governador e seu trabalho. Estive em Milwaukee no início deste ano, inclusive. Agora em Washington tive mais uma vez a oportunidade de encontrá-lo. Conversei mais uma vez com ele.  Tudo indica uma permanência firme no propósito de reeleger Governador em 2014. Mas o futuro depois disso é uma incógnita.

Isto porque o partido gosta de Walker e ele tem tudo para ser um pré-candidato a Presidente. As eleições são em 2016 e se ele vencer por uma boa margem em seu estado em 2014, isto o credenciará para a corrida interna nacional. Vencer em Wisconsin é um sonho para os republicanos, o que começa a mudar o quadro eleitoral de 2016. Conservador, com origens em Iowa, filho de um pastor, um self made man que não terminou a faculdade, é um candidato com credenciais. Além de tudo é um bom amigo do Governador de New Jersey, Chris Christie. Se não for candidato, Walker pode ser o vice dos sonhos, caso Christie vença as primárias. A conferir.

sexta-feira, novembro 29, 2013

Biden, o Articulador

A chapa Barack Obama-Joe Biden parece ter sido inspirada em uma dupla democrata do passado: Kennedy-Johnson. Obama, assim como Kennedy, era um Senador sem experiência no executivo. Biden um Senador de longa tradição no Congresso, assim como o poderoso Lyndon Johnson, que conduziu de forma hábil e implacável a Câmara Alta dos Estados Unidos.

Biden, apesar da habilidade política, possui uma liderança bem menos visceral do que Lyndon Johnson. Soube até aqui exercer o cargo de vice com muita naturalidade. A relação entre ele e Obama é boa e Biden é consultado em muitos assuntos pelo Presidente. Muito diferente da relação tensa entre Kennedy e Johnson. O vice texano foi claramente deixado em um segundo plano pelo Presidente. Sem poderes, LBJ sentia falta do comando do Senado. Robert Kennedy nunca se referiu a Johnson como Presidente, mesmo depois do assassinato de seu irmão.

O vice atual, entretanto, possui uma qualidade que falta em Obama: o diálogo. Se o Presidente fosse Joe Biden não veríamos tamanhos desacertos entre a Casa Branca e o Capitólio e a governabilidade, mantida hoje pela força das instituições, seria garantida pelo exercício do saudável jogo político. Sobra no vice uma qualidade essencial: ele conhece os corredores do Capitólio.

Biden conhece tão bem o jogo político que está disposto a almejar a cadeira de Obama. Ele tem feito as primeiras ligações, colhendo os primeiros apoios nos estados das primeiras primárias: Iowa, Carolina do Sul, New Hampshire e mais alguns. Sem Hillary no páreo, Biden é o preferido dos democratas com 43%. Quando ela entra no jogo, colhe 63% contra 12% do atual vice.

Clinton escolheu pessoalmente Biden para ser o vice de Obama. É seu homem de confiança. Biden pode estar na disputa para vencer, mas também para dissuadir os eventuais oponentes de Hillary ou mesmo para continuar sendo vice. Com mais espaço, ele pode ser sempre um articulador político hábil e talvez um político que a América valorizaria como Presidente dos dias de hoje.

quinta-feira, novembro 28, 2013

Os Números de Ohio

Os números de Ohio são importantes para a política americana porque servem como um termômetro do país. Nenhum Presidente na história recente venceu sem Ohio. Isto não quer dizer que o estado é decisivo, mas que sua tendência indica uma orientação nacional, já que suas características locais englobam de um modo geral um cenário similar ao nacional.

Hoje, enquanto Obama comemora o Dia de Ação de Graças por aqui, certamente estará pensando nos números que acabam de chegar de Ohio. Sua populaidade despencou mais do que a média nacional, o que indica que a próxima rodada de pesquisas no país mostrará uma queda ainda mais acentuada em seus números.

Sua aprovação flerta com o perigo, chegando a apenas 34%. Nas últimas sondagens estava em 40%. A desaprovação, que era 57%, ultrapassou a barreira dos 60%, alcançando 61%. Pelos outros números vemos que existe uma falta de confiança na liderança  no Presidente, mas não há dúvida que aquilo que mais afeta sua popularidade é o Obamacare. 59% de Ohio se opõe a Lei e apenas 16% acreditam que o sistema melhorará a qualidade da saúde nos Estados Unidos.

Estes números, como escrevi ontem, gerarão problemas para o partido democrata nas eleições parlamentares do próximo ano. Obama pode ainda passar para a história com a implantação deste sistema. É sua grande aposta. Mas se o Obamacare se tornar um sucesso, até tudo estar sedimentado e gerando efeitos, haverá muita desaprovação e resistência. Obama se enxerga como um estadista. Veremos como a história o julgará. Até o momento, Ohio antecipa o que acontecerá nos Estados Unidos nas próximas eleições e, no curto prazo, as notícias não são boas.


quarta-feira, novembro 27, 2013

Dianteira Republicana

Os republicanos certamente não constituem o grupo mais amado na política americana. Tampouco os democratas, mas as pesquisas liberadas ontem mostram uma tendência do eleitorado. Enquanto no passado o partido de Obama mantinha uma sólida dianteira de oito pontos e o Presidente brigava com o Congresso para implementar o Obamacare, tudo parecia bem. Entretanto, o cenário se modificou.

Os rumos são outros precisamente pelo desgaste de Obama, que vem se alastrando pelos candidatos do partido democrata ao Congresso no próximo ano de forma consistente. Na política existe uma demora natural para sedimentação de alguns acontecimentos, ou seja, o público, em diversas camadas sociais, demora um tempo até assimilar um acontecimento. No caso dos democratas, o efeito Obama está batendo em suas portas neste momento.

O desgaste do Presidente vem embalado pelos problemas de implementação do sistema de saúde, o Obamacare. A falta de funcionalidade do site e a acusação de que o Presidente mentiu ao dizer que aqueles que desejassem poderiam manter seus planos, tem feito mal não só a imagem dele, como aos seus candidatos ao parlamento.

Hoje, os republicanos, que possuem maioria de 17 cadeiras na Câmara, passaram a frente dos democratas para as sondagens em relação a eleição congressual do próximo ano. O GOP passou para 49%, contra 47% dos democratas. Esta pesquisa é interessante porque é realizada dentro dos distritos, buscando a opção partidária para a eleição parlamentar de 2014.

Existe um movimento. Apesar de os republicanos estarem errando bastante, Obama erra mais e melhor. As pesquisas mostram isso. Se esta tendência se consolidar, Obama seguirá refém de uma Câmara republicana pelos dois últimos anos de seu mandato. Será o fim real de seu governo.

terça-feira, novembro 26, 2013

O Acordo com Teerã

Obama comemorou o acordo interino com o Irã como mais um importante passo de sua diplomacia. Na verdade, algo que ele mesmo avalia somente como um bom começo. No front interno, as críticas do lado republicano já começaram a aparecer. No externo, do lado de Israel, também surgem críticas, no sentido de que o Irã deveria negociar mais enfraquecido.

Ambos os lados tem razão, mas desta vez Obama tem realmente o que comemorar nesta equação. Seria muito difícil, como quer Israel, enfraquecer ainda mais o Irã. É possível abalar mais ainda a economia do país com as sanções, ampliando e aprofundando estas medidas, como sugeriu o senador republicano Marco Rubio. Contudo, não podemos deixar de avaliar que existe uma janela negociadora importante que está aberta neste momento. Os primeiros meses de Rouhani na direção do país estão criando esta possibilidade.

Obama parece ter entendido que a estabilização da região passa pelo Irã e um acordo com o regime dos aiatolás. Há tempos os americanos insistem equivocadamente na questão Israel/Palestina como o ponto central da política externa no Oriente Médio. Apesar de importante, a agenda precisa ir além disto. Se de um lado este acordo é o primeiro passo neste sentido, do outro, a aproximação, mesmo que inicial entre EUA e Irã, irrita os sauditas e israelenses, parceiros preferenciais dos americanos na região. Existe receio que os EUA venham a reconhecer Teerã como um interlocutor, deixando os antigos aliados com menor influência. Tel-Aviv e Riad não permanecerão isolados e podem se movimentar politicamente nas região. É preciso que os americanos acalmem os dois países, como já fizeram com os sauditas.

Foi uma vitória da diplomacia, apesar do ranger de dentes de Israel. O mais importante é ter aberto um canal confiável de comunicação, aliviar a situação de hostilidade e tensão e criar uma linha de entendimento, mesmo que primária, entre Washington e Teerã. Este é o ponto central em relação a acomodação de forças na região.

sexta-feira, novembro 22, 2013

Radicalismo Democrata

O partido democrata tomou uma decisão muito perigosa. Ao alterar as regras do Senado para garantir a aprovação das indicações de Obama, cruzou um perigoso limite institucional. Os democratas possuem maioria, entretanto, não maioria suficiente para aprovar determinadas matérias ou indicações presidenciais. Refém da minoria, que obstruiu e derrotou, de forma legal, dentro dos procedimentos regimentais, as iniciativas de Obama, os democratas resolveram inovar. Com maioria suficiente para mudar as regras, assim o fizeram, e agora podem aprovar as matérias que desejam.

Os democratas possuem 53 senadores. Com a regra antiga, o chamado "filibuster", precisariam de 60 votos. Para mudar as regras, precisariam de 51. Preferiram mudar as regras do que convencer os adversários a votar de acordo com suas convicções. Agora, nas matérias que precisavam de 60 votos, somente precisarão de 51. A medida teve a chancela da Casa Branca, ou seja, Barack Obama estava de acordo. Esta perigosa manobra procedimental deixou os republicanos furiosos.

Obama era um ardoroso defensor do filibuster quando era Senador e seu partido podia obstruir as votações no governo Bush. Obama, também enquanto Senador, acusou o ex-Presidente de "falta de liderança política" quando este solicitou o aumento do teto da dívida. Pois bem, instalado na Casa Branca, Obama passou a acreditar que solicitação para aumentar o teto da dívida não é mais falta de liderança política e que o filibuster, quando ele está do outro lado, não serve. Se as regras não o beneficiam, que tratem de ser modificadas. Uma clara expressão de falta de liderança política.

Obama, desta forma, amplia cada vez mais a distância entre democratas e republicanos. Segue com sua política de confrontação com os adversários, o que acirra os ânimos e paralisa seu governo ainda mais. O Presidente, ao invés de partir para o diálogo, mais uma vez decidiu usar a mão pesada para impor suas vontades. Nesta semana, o Financial Times, Foreign Policy e The Economist alertaram para a imobilidade do seu governo, refém de sua política confrontacionista no plano interno e isolacionista no plano externo.

Na medida que cava um fosso maior entre republicanos e democratas, Obama está enterrando sua Presidência. Depois deste atitude, muito dificilmente qualquer nova lei importante, que dependa dos votos dos republicanos, passará em seu governo.

terça-feira, novembro 19, 2013

Chile: Maturidade Institucional

Tudo indica que Michelle Bachelet deve retornar ao comando do Chile. As eleições transcorreram com normalidade e apesar da baixa participação, o país mais uma vez deu uma lição de democracia. Bachelet obteve 46,68% dos votos e disputará o segundo turno com Evelyn Matthei, que alcançou 25%.

O Congresso também passará por renovação. Foi eleita uma nova Câmara dos Deputados e metade de um novo Senado. O grupo de Bachelet obteve maioria, sem entretanto, um número qualificado para mudar a Constituição. Se vencer o segundo turno, como tudo indica, governará com tranquilidade e sem sobressaltos.

O Chile é o resultado de uma transição para a democracia muito bem conduzida, dentro de parâmetros econômicos muito bem definidos.  O grupo de Pinochet, ainda sob sua tutela, arrumou a economia e depois da abertura, os democrata-cristãos terminaram por sedimentar as bases da democracia. Esta é a fórmula de sucesso do país. 

No primeiros anos da democracia, a política chilena foi dominada pelo grupo concertación, que engloba diferentes vertentes da centro-esquerda, social-democratas, socialistas e democratas-cristãos. Venceu eleições com Patricio Aylwin, Eduardo Frei, Ricardo Lagos e Michelle Bachelet. O grupo perdeu a hegemonia somente em 2010, com a eleição de Piñera, que foi o primeiro presidente de centro-direita eleito no Chile em 52 anos. 

O Chile vive um equilíbrio de forças políticas e alternância no poder dentro de um modelo econômico sólido e estável. Concertación, UDI e Renovação Nacional são hoje os pilares partidários de um sistema político invejável. Criado cuidadosamente na transição democrática e realizada pelos governos democrata-cristãos de Patricio Aylwin e Eduardo Frei, levou o Chile a maturidade institucional vivida nos dias de hoje. Sem dúvida um exemplo para uma região assombrada pelo populismo.

quinta-feira, novembro 14, 2013

O Jogo Francês

A estabilidade do Oriente Médio passa pelo Irã. Enquanto por várias presidências se buscou, nos Estados Unidos, um acordo entre árabes e judeus, muito pouco se fez em relação ao regime dos aiatolás. Entretanto, a eleição de Rohani abriu uma grande e boa oportunidade de negociação com Teerã. Obama, em um dos seus maiores lances de política externa, se aproximou dos iranianos e iniciou as tratativas para um acordo, juntamente com Alemanha, China, Rússia, Reino Unido e França.

Mas o acordo pode não sair. A culpa não é dos americanos, que se esforçaram para criar as condições para tal. Desta vez, os franceses estão dificultando o jogo, colocando seus interesses comerciais acima da necessidade de estabilidade da região. Claramente em Genebra, onde foram desenvolvidas as rodadas de negociação, o ministro de relações exteriores francês, Laurent Fabius, chegou com a missão de dificultar a conclusão de um pacto entre os envolvidos.

As razões da França tem cifras. Em outubro, o ministro da defesa fechou um acordo de 1,5 bilhões para a venda de cinco navios para a Arábia Saudita. Os aliados dos saudistas, os Emirados Árabes Unidos, também foram as compras em Paris e levaram dois satélites de alta resolução por 913 milhões. Além de Riad despejar dinheiro na produção de alimentos e agricultura francesa, está tudo alinhado para um acordo para compra de armas. Não preciso dizer que os sauditas são céticos a um acordo com o Irã.

Em Genebra havia uma França pouco interessada em um acordo. Do lado dos americanos e britânicos, por mais interesse e esforço, as notícias dos bastidores informam que John Kerry, Secretário de Estado dos Estados Unidos, vacilou em um último momento, parecendo mais um Senador do Comitê de Relações Exteriores em Washington do que o chefe da diplomacia do país mais interessado em fechar o acordo. Dizem que Kerry deixou muito a desejar em Genebra.

Enquanto isso, os senadores republicanos John McCain e Lindsey Graham, saudavam a França por ter impedido o acordo do sexteto com os aiatolás, talvez pelo acordo tratar mais do enriquecimento de urânio do que a questão do plutônio ou talvez porque Israel enxerga tudo isso com muitas reservas. Mesmo assim, uma boa oportunidade de se avançar mais um passo foi perdida. Por enquanto a estratégia entre sauditas e israelenses, defendida pela França, atingiu resultados. Entretanto é preciso entender que este obstáculo pode levar a um conflito armado onde os americanos assumiriam o protagonismo e o ônus. Ainda há tempo da diplomacia agir.

quarta-feira, novembro 13, 2013

As Adversárias de Hillary

Apesar de 65% do Partido Democrata enxergar com naturalidade a candidatura de Hillary Clinton, especula-se por aqui que existem adversárias. Sim, adversárias, ou seja, outras mulheres que desejariam também a indicação do partido para concorrer. Isto não deixa de ser um problema para Hillary, que perderia a condição de única candidata mulher e levaria a divisão de votos de sua base.

O nome mais badalado do momento é Elizabeth Warren, Senadora por Massachusetts. Apesar da especulação, Warren deve ficar pelo caminho por dois motivos simples: o primeiro deles é que no caso de Hillary sair candidata, a senadora desistiria. O segundo é sua viabilidade eleitoral nacional. Warren vai muito bem em Massachusetts, um estado de tradição democrata e onde ela consegue realmente levantar boas doações de campanha. Fora de lá, Warren é vista como uma política radical que ataca bancos e carrega uma agressividade brutal contra Wall Street. O partido democrata busca manter o poder e sabe que não venceria com a senadora no páreo. Ela aproveita o momento para asfaltar seu futuro político em Boston.

Fala-se também de Kirsten Gillibrand de Nova York, que assumiu a cadeira de Hillary no Senado. Ela possui uma base de apoio entre a comunidade gay e as mulheres, mas depende dos doadores de campanha do arco de apoios de Hillary. Bill Clinton não deixaria esta base se inclinar para outro lado a não ser o de sua esposa. Com a ex-Secretária de Estado no páreo, a senadora Gillibrand está fora da corrida.

O terceiro nome de peso seria Kathleen Sebelius. Duas vezes Governadora do Kansas e filha de um ex-governador tem linhagem política e experiência, além de uma incógnita em seu futuro. Sebelius é Secretária de Saúde de Obama e está no meio do fogo cruzado com a implantação do Obamacare. Interpelada pelo Congresso, tem sido o alvo de todas as críticas mais ásperas. Se o Obamacare decolar, a Secretária sobe com ele, entretanto, se continuar a enfrentar dificuldades, sua pré-candidatura naufraga também. É o nome preferido por Barack Obama.

Existem outras mulheres que correm por fora, como Janet Napolitano, que possui no currículo o governo do Arizona e o Departamento de Segurança Doméstica, além da senadora Amy Klobucar, do Minnesota, um estado tradicionalmente democrata que votou com os republicanos pela última vez em 1972 e foi o único estado democrata na campanha de 1984, quando Reagan arrasou com Mondale (nascido em Minnesota). Enfim, os 10 votos do "Estado dos 10.000 lagos" serão democratas na próxima eleição, com ou sem Amy Klobucar.

Percebemos que por mais que existam candidatas que desejam disputar a indicação do partido com Hillary, nenhuma tem qualquer chance, a não ser que Kathleen Sebelius herde uma possível popularidade com o Obamacare, o que será difícil. Pelo menos entre as mulheres, é possível afirmar, ninguém fará frente ao poder de Hillary Clinton no partido democrata.

terça-feira, novembro 12, 2013

A Primeira Pesquisa

Certamente estamos longe da corrida eleitoral de 2016. Ainda existem as eleições de meio de mandato, as midterms, no próximo ano, e além de tudo Obama ainda não completou seu primeiro ano do segundo termo. Mas os bastidores fervem. Os motivos são muitos. O Presidente não pode concorrer a mais uma reeleição e está vivendo um segundo mandato conturbado. Tudo isso adianta o cenário político de forma definitiva. Nos dois partidos existe uma movimentação acima do normal.

Dentro desta dinâmica, saiu a primeira pesquisa. Os dois candidatos escolhidos foram Hillary Clinton e Chris Christie. A democrata aparece com 44 pontos e Christie com 34. Esta é uma ótima notícia para o Governador de New Jersey. Clinton foi primeira-dama, disputou primárias acirradas com Barack Obama e foi Secretária de Estado. É uma figura conhecida nacional e internacionalmente. Possui um claro recall de outras campanhas e carrega o Partido Democrata. Christie é apenas o Governador reeleito do estado de New Jersey.

Dentro dos partidos os dois possuem momentos distintos. Hillary é lembrada como a candidata natural por 66% dos democratas. No lado republicano, Christie é o preferido por 32%. Mas aqui vale o mesmo raciocínio. Hillary participou de uma primária, possui estrutura partidária espalhada pelo país e uma máquina intensa. Christie não possui esta estrutura ou peso partidário, muito pelo contrário, sofre resistência de setores conservadores.

Os republicanos ainda estão divididos. Antes do impulso da reeleição, o Governador de New Jersey dividia com outras estrelas do partido a mesma preferência, todos na faixa dos 15%. Hoje, Christie subiu a um outro patamar. Provavelmente disputará a indicação do partido com o senador libertário Rand Paul, o candidato a vice de Romney, Paul Ryan, o ex-governador Jeb Bush, o senador conservador texano Ted Cruz e o senador pela Flórida Marco Rubio. Estes são os nomes mais cotados.

A pesquisa mostra aquilo que era esperado. Christie tem muito potencial para crescer. Larga muito bem e surpreendentemente dentro do partido republicano já consegue distanciar-se dos outros candidatos. Enquanto Hillary possui um claro teto, Christie mostra que larga bem e pode ultrapassá-la. Será difícil para os conservadores republicanos evitarem sua candidatura, que aos poucos começa a surgir como um caminho natural.

segunda-feira, novembro 11, 2013

Christie, o Conservador

Em conversas privadas, o senador texano Ted Cruz, presidenciável pela ala conservadora dos republicanos, diz não temer Chris Christie nas primárias. Diz que o governador de New Jersey é muito moderado e não conseguirá mobilizar a base do partido. Aposta que Christie será uma espécie de Rudolph Giuliani, o antigo prefeito de Nova York que naufragou nas primárias por falta de conservadorismo - ele é favor do aborto, um pecado mortal para um republicano que almeja a Casa Branca.

Mas se engana Ted Cruz. Chris Christie tem mais apelo conservador do que ele imagina. Apesar de não levantar bandeiras contra o aborto ou casamento gay, Christie é um católico que não aprova nem uma nem outra medida. Tem histórico como Governador para provar isto, o que é importante na política americana. Christie é casado, pai de quatro filhos. Isto também é um fator de peso para as primárias.

Portanto, ao contrário do que muito pensam, não vejo Christie como uma ameaça moderada aos conservadores. Ao contrário, vejo pontos de convergência em temas centrais, e uma qualidade que os conservadores não possuem: negociação. O Governador de New Jersey sabe negociar e abrir canais de comunicação. Sua maior qualidade é vista com ceticismo entre os conservadores, pois levou Christie a conseguir bons acordos com os adversários democratas.

Na minha opinião existe apenas um ponto de divergência entre a agenda republicana e as posições de Christie: ele defende alguma restrição em relação a venda de armas. Acontece que este é um tema sensível para a base republicana. O futuro candidato deverá estar preparado para estas questões.

Diante de uma visão geral, dentro dos temas da agenda republicana, vemos que Christie é contrário ao aborto e ao casamento gay, é fiscalmente um conservador, se alinha aos falcões na política externa e defende restrições, ainda que brandas, no controle de vendas de armas. Dentro do arcabouço republicano, ele possui quase todas as características. Além disso, é popular, bom de campanha, carismático e rouba votos dos democratas. Talvez seja exatamente aquilo que os republicanos precisam.

Christie possui dois assessores que trabalharam na fracassada tentativa de Giuliani disputar a Presidência - e as coincidências param por aí. Quando trabalhei na campanha de 2008, conheci ambos, Mike DuHaime e Maria Comella.  Sei que ambos aprenderam muito com os erros de Rudy e também vale lembrar que foram os estrategistas responsáveis pelas duas vitórias históricas de Christie em New Jersey. É preciso levar seu candidato agora para o vôo nacional.

Acredito que os detratores de Christie acusam-no de não ser conservador o suficiente mais por medo de sua candidatura tornar-se inevitável do que realmente por não acreditar em suas credenciais. A conferir.

sexta-feira, novembro 08, 2013

O Caminho do Meio

Enquanto o partido republicano parece estar cada vez mais capturado pela agenda conservadora, o eleitorado manda seu recado. Nesta semana foram dois. A escolha de Chris Christie e a derrota de Cuccinelli. Os moderados foram recompensados com votos enquanto os mais conservadores foram mandados de volta para casa. Isto abriu um debate dentro do partido que tem como foco as eleições presidenciais.

O GOP, Grand Old Party, como são reconhecidos os republicanos por aqui, encontram-se em uma profunda crise. Existem pelo menos três grupos dentro do partido: moderados, libertários e conservadores. Os últimos são que tem mais voz hoje dentro da estrutura, especialmente por um motivo: são dos grupos mais conservadores que vem os maiores recursos para o partido. Deste grupo emergiu Cuccinelli, o candidato derrotado na Virgínia. Dento deste grupo também não há harmonia. Sua mais nova estrela, o senador Ted Cruz, do Texas, está longe de ser uma unanimidade entre seus pares.

Os moderados, entretanto, tem votos, mas não tem voz dentro do partido. Chris Christie é o maior exemplo. Eleito dentro de um dos estados mais democratas da federação, avançou com uma agenda de entendimento com os adversários e conseguiu uma vitória maiúscula. Falta-lhe, entretanto, penetração na estrutura partidária e trânsito entre os conservadores, que se arrepiam apenas em ouvir o nome de Christie.

Existem também os libertários, hoje representados pelo senador Rand Paul. Estes possuem menos densidade, mas entram com mais facilidade no território democrata. Estão mais próximos de Christie em termos de entendimento, mas também conversam com os conservadores, apesar do enorme abismo que divide suas agendas.

O GOP precisa de união e especialmente de liderança. Não chegará a lugar algum fragmentado. No início dos anos 90, Clinton conseguiu unir um partido em cacos, longe do poder por mais de uma década, e tornou-se Presidente. Os republicanos buscam seu Clinton. Fala-se em Christie, que hoje seria o único republicano com possibilidades de chegar a Casa Branca. Mas os conservadores parecem preferir perder do que vencer com um moderado. Pior para o partido, que até o momento se tornou refém de suas divisões internas.

Christie tem os votos que os conservadores desejam. Como diz a Time, o elefante está na sala. Agora é preciso lidar com ele.

quinta-feira, novembro 07, 2013

Virgínia Democrata: A Vitória de McAuliffe

A Virgínia foi o campo de batalha entre republicanos e democratas por meses. A eleição para Governador mobilizou diversas frentes e mesmo com a possibilidade de atingir a vitória, os republicanos entregaram de bandeja o triunfo aos democratas. McAuliffe venceu por uma estreita margem, o que deixou ainda mais claro que Cuccinelli poderia ter vencido.

Os três grandes cargos políticos do Estado da Virgínia são: Governador, Vice-Governor e Advogado-Geral. Os três são eleitos em pleitos separados no mesmo dia. Existe uma tendência de escolha de nomes sempre na oposição ao governo federal. Quando Reagan e Bush estavam na Casa Branca, a Virgínia elegeu democratas. Com Clinton, um republicano. Nos tempos de W. Bush, um democrata e nos primeiros anos de Obama, os republicanos voltaram. Esperava-se a manutenção disto. Não foi o que vimos.

Os democratas ganharam a eleição para governador e também para vice. Podem ganhar também a vaga de Advogado-Geral, ainda indefinida. Seria uma vitória histórica durante uma administração democrata em Washington, além do que, os três níveis hoje são dominados pelo Partido Republicano.

Mas a eleição de McAuliffe era uma crônica anunciada. Ele levantou um maior número de recursos financeiros que Cuccinelli e também teve um apoio mais incisivo do próprio partido do que o candidato republicano. De qualquer forma, a margem que as pesquisas davam a favor de McAuliffe era muito maior, cerca de nove pontos. A diferença final ficou em pouco mais de dois pontos.

Cuccinelli não fez feio. Teve uma votação expressiva, mas o que a campanha de McAuliffe conseguiu fazer foi mobilizar a base e levar os democratas a votar. Isto fez toda diferença. 37% dos que votaram eram democratas e apenas 32% republicanos. Cuccinelli usou de forma eficaz a resistência na Virgínia ao Obamacare. Dentre os 53% da população contrários a lei, 81% votaram em Cuccinelli. Por isso ele transformou, nos últimos dias, a eleição em um referendo contra o Obamacare. Não foi suficiente frente a mobilização dos democratas.

Com McAuliffe, os Clinton sobem nas bolsas de apostas políticas. Sua vitória é muito mais creditada ao apoio do ex-Presidente e Hillary do que ao tímido apoio de Obama, que cruzou o Potomac somente nos últimos dias. McAuliffe tem a missão de entregar os votos democratas da Virgínia para Hillary nas primárias. E os republicanos mais uma vez foram derrotados pelos próprios erros e pela falta de mobilização. Os Clinton mais uma vez ensinam como se faz política de forma eficaz.

quarta-feira, novembro 06, 2013

Christie avassalador

Muitas coisas podem ser ditas sobre as eleições de ontem nos Estados Unidos. Duas disputas foram importantes: Virgínia e New Jersey. Vamos tratar hoje da segunda. Foi uma vitória maiúscula de um republicano em um território claramente democrata. Chris Christie foi reeleito de forma incontestável, vencendo com mais de 60% dos votos, contra 38% de sua oponente. Foi uma vitória histórica.

Christie é um político diferente. Foge da polarização que tem travado a política norte-americana nos últimos anos. Trabalha de forma bipartidária e possui uma característica agregadora. É popular. Venceu entre as mulheres e os eleitores hispânicos. Fez uma incursão eleitoral jamais vista por um republicano naquele estado entre jovens e negros. New Jersey possui 700.000 eleitores registrados como democratas. Christie fez mais de 1.252.000 votos. Mostrou que com uma política que alcança um espectro mais amplo é possível vencer inclusive recebendo votos dos democratas.

Christie é um tipo popular, bonachão, o novo peso-pesado da política nacional. Sua maior qualidade é saber ser informal e falar a mesma língua do seu eleitorado. Pelo menos em New Jersey funcionou. Resta saber se a mesma característica rende votos em um país vasto e diversificado como os Estados Unidos. Tudo leva a indicar que ele pode atingir os votos do partido democrata em muitos estados, alterando a geografia da eleição. Resta saber se os republicanos estarão ao seu lado.

Sim, a maior resistência a Christie vem de dentro do partido. Muitos republicanos acham Christie populista, informal e bipartidário demais. Acusam-no  de ser democrata nas roupas de republicano, um RINO - Republican In Name Only. Mas o fato é que os republicanos desde a reeleição de Bush em 2004 ainda buscam uma forma de vencer. Abatidos desde então, no próximo ano fecha-se uma janela de 10 anos sem vitórias maiúsculas, coisa na qual Christie é um mestre.

Reeleito governador de New Jersey, Christie vai assumir o comando da Associação de Governadores Republicanos - RGA. Viajará os Estados Unidos neste papel, o que sem dúvida já é o primeiro passo de sua pré-campanha presidencial em 2016. Terá a possibilidade de ser visto e conhecido em estados que até então somente escutam falar de seu nome. Vai ganhar estrutura e porte nacional.

Christie vem aí. Anotem este nome. Talvez seja o caminho bipartidário do qual todos os político falam, mas tem vergonha de empreender. Christie não tem e assim vai ganhando eleitorado. Afinal, ganhar com mais de 60% em um estado democrata, não é para qualquer republicano.

segunda-feira, novembro 04, 2013

Os Efeitos de Boston

A maratona de Nova York voltou ao circuito mundial depois de dois anos - o furacão Sandy impediu sua realização no ano passado. Desde 1970 o evento faz parte do calendário da cidade. Ao lado de Boston e Chicago é considerada uma das corridas mais populares dos Estados Unidos. A prova, que teve 48 mil inscritos, ocorreu sem incidentes e sob um forte esquema de segurança.

Sem dúvida o efeito Boston foi responsável pelo forte contingente de medidas e cautela em torno do evento em Nova York. Depois de observar toda a ação para garantir a segurança neste domingo, devemos nos perguntar, afinal, se os terroristas de Boston atingiram seus objetivos. 

O objetivo do terrorismo não é simplesmente matar, mas por meio dos atentados, criar uma sensação geral de medo que mude os hábitos das sociedades que foram atacadas. Este é o ponto central. Qualquer passagem por aeroportos hoje, mostra que depois dos atentados de 11 de setembro, viajar se tornou um pesadelo. Enormes filas, burocracia e intermináveis aparatos de segurança. 

Na verdade, sabemos que as medidas nos aeroportos, além de tentar evitar outras ações, servem na realidade como intimidação para as ações terroristas. Sabedores da enorme dificuldade que encontrarão, os terroristas, em tese, desistiriam da ação. Em Nova York, o aparato de segurança da maratona foi montado com o mesmo objetivo: intimidar os terroristas.

Entretanto, é preciso se perguntar se as ações terroristas atingiram seus objetivos. Houve uma mudança brutal no comportamento das autoridades nos locais que já foram foco de ações, ou seja, existe medo e há uma mudança nos padrões de comportamento em função dos atentados. No 11 de setembro e em outras ações dos terroristas islâmicos, o objetivo era afetar modo de vida da sociedade ocidental. Isto foi atingido. 

Certamente as autoridades precisam agir no sentido de coibir ações terroristas e proteger o cidadão, mas a linha entre defesa e supressão das liberdade é muito tênue. É preciso avaliar se a política de segurança não está fazendo, em certa medida, o perigoso jogo do terrorismo. A melhor forma de reagir ao terror é mostrar que ele não nos impõe medo. Nesta questão o mundo tem falhado. 

sexta-feira, novembro 01, 2013

Hillary vem aí

A equipe de Obama considerou a troca do vice, Joe Biden, por Hillary Clinton durante a campanha do ano passado. A revelação chegou a Washington nesta semana, juntamente com outros bastidores das eleições presidenciais de 2012. Os assessores de Obama acreditavam na mudança como uma força de dar um gás novo para a campanha no momento em que os números do Presidente caíam nas pesquisas. 

Certamente tal decisão ainda dependeria de Hillary. Não acredito que ela aceitasse. Seu principal objetivo ainda é chegar a Casa Branca, portanto, se juntar a um governo em segundo mandato, em vias de declínio, poderia mais prejudicar suas futuras pretensões do que realmente ajudá-la a chegar ao Salão Oval. Hillary hoje trabalha freneticamente para ser eleita em 2016. Sua pré-candidatura não é confirmada, mas os movimentos são evidentes. Hillary tentará mais uma vez. 

Neste semana, uma figuras mais emblemáticas do partido Democrata, o prefeito de Chicago, Rahm Emanuel, declarou apoio a Hillary, caso sua decisão seja concorrer. Emanuel foi o primeiro Chefe de Gabinete de Obama e um dos mais influentes e combativos (um equilíbrio difícil) parlamentares democratas durante o período que esteve no Congresso.

Hillary mostra sua musculatura em um momento em que o governo Obama não encontra-se no melhor momento. Ela aproveita-se também desta situação, pois os comentários em diversos círculos democratas aqui da capital são no sentido de que ela poderia ter sido uma melhor opção do que Obama na condução do governo.

O fato é que ela possui uma máquina estruturada e pronta para entrar em campo. Angaria apoios relevantes e o mais importante: tem a habilidade de levantar fundos e doações mais do que qualquer outro candidato e já trabalha nisso. Em 2016 já existe uma certeza na campanha presidencial: Hillary vem aí.

quinta-feira, outubro 31, 2013

A Habilidade de Mariano

A notícia mais importante da semana foi a confirmação por alguns institutos dos dados fornecidos pelo Banco de España: o país realmente está conseguindo sair da recessão. A situação ainda não é boa, mas pela primeira vez vemos um movimento real de condução dos números para patamares mais animadores. Esta é uma ótima notícia para o Presidente de Governo, Mariano Rajoy, que enfrenta a mais grave crise desde a redemocratização.

Mariano formou uma grande equipe e possui ao seu lado a experiência de ter participado do grupo de José María Aznar, que conduziu a Espanha pelo caminho da recuperação econômica entre 1996 e 2004. Quando Aznar chegou ao poder, o desemprego rondava os 25% e os números da economia eram desanimadores. Em pouco tempo foi possível reverter este cenário tornando a Espanha uma das jóias da economia da zona do Euro. Mas depois de Aznar colocar a casa em ordem veio um atentando e Zapatero assumiu o poder. A economia saiu dos trilhos, como era esperado.

Rajoy é o quadro mais preparado do Partido Popular. Durante os anos em que trabalhei dentro da estrutura partidária do PP espanhol em Madri, sempre reconheci uma competência particular na condução dos dados e pesquisas por Mariano. Ele não é um político típico. Não é dado a arroubos populistas. É discreto. Assemelha-se mais um técnico com larga experiência em contas públicos e no funcionamento da máquina estatal. Conhece cada detalhe de seus gargalos, necessidades e imposições. Sua eleição era exatamente aquilo que a Espanha precisava.

Portanto, os números não surpreendem. Sabemos que a situação deixada por Zapatero, agravada pela crise, é muito mais severa do que aquela encontrada por Aznar em 1996, mas se existe um nome capaz de reverter este estado de coisas, este nome é o de Mariano.

Pela primeira vez em muito tempo vemos a quarta maior economia da zona do Euro sair da contração. O desemprego, que andava na casa dos 7% com Aznar e subiu para assustadores 26% com os socialistas dá sinais de mudança. Pela primeira vez, vemos uma contração para a casa dos 25%. As exportações voltaram a crescer. O trabalho adiante ainda é longo, mas sabemos que a Espanha trilha o caminho correto.

quarta-feira, outubro 30, 2013

Liderança e Poder

A sensação de que Obama cada vez mais segue para um melancólico segundo mandato vem também da revista Forbes. Em seu tradicional ranking dos líderes mais poderosos do mundo, o Presidente aparece em segundo lugar, logo atrás de Putin. Nos seus calcanhares está o chinês Xi Jinping, que acaba de chegar ao poder. No próximo ano, entretanto, a situação pode piorar.

Putin é considerado hoje mais poderoso que Obama, segundo a Forbes, por vários aspectos analisados, como o número de pessoas sobre o qual o poder é exercido, sua influência em diversas esferas, os recursos financeiros sob seu controle, além é claro, da forma como exerce o poder. Obama perdeu certamente neste último quesito.

Já dizia Sir Halford John Mackinder que aquele que controla o porção territorial do Leste da Europa e parte da Ásia, onde está localizada a Rússia, controla também o mundo. Se formos considerar os aspectos geográficos, naturais e geopolíticos, certamente Mackinder também colocaria o Presidente russo na capa da Forbes, mas sabemos que a abrangência do poder de Putin vai muito além disso.

Não há dúvida sobre a potência econômica e militar americana. É surpreendentemente forte e capaz, entretanto, é preciso vislumbrar dois aspectos. O primeiro deles de caráter militar. Os Estados Unidos se orientam por ditames democráticos e sem a característica de dominação militar. São tradicionalmente mais isolacionistas do que conquistadores. Foram levados a condição de superpotência como consequência, sem nunca ter almejado esta posição. Esta confusão entre ter e exercer o poder ainda é algo em amadurecimento na sociedade americana. O segundo ponto é a economia, que sustenta-se em um modelo democrático e funciona. Deve se recuperar dos abalos com relativa tranquilidade.

Os russos, entretanto, possuem uma característica clara de dominação. Exercem o poder forte e sua economia se baseia neste sistema. Os chineses atualmente, da mesma forma, sem a característica da personificação como os russos. Antes de Xi Jinping veio Hu Jintao. Você se lembra dele?

Logo as economias e a formas de exercer o poder são diferentes nestas três nações. Existe hoje no mundo uma prevalência do sistema ocidental democrático, inclusive em países asiáticos, mas isto ainda é resultado do mundo que vivíamos. Talvez no futuro algumas nações tomem ou retomem seus rumos e tradições de poder culturais.

Mas o que tudo isso tem a ver com Putin e Obama? Tudo, neste momento. Dentro da liderança exercida pela porção democrática, existe um vácuo, pois o exercício do poder por Obama tem aberto flancos para os avanços de Putin e da China. Não surpreenderá se no próximo ano o Presidente americano aparecer em terceiro lugar, atrás de Putin e Xi Jinping. No momento, sobra carisma e um Presidente muito bem intencionado, mas falta liderança aos Estados Unidos.

sexta-feira, outubro 25, 2013

A Reação de Palin

As eleições do próximo ano serão fundamentais nos Estados Unidos. Cada voto decidirá o rumo e a forma de um Congresso que será responsável pelos dois últimos anos de Obama na Casa Branca e os líderes que darão as cartas na escolha dos candidatos a Presidente em 2016. Enquanto alguns enxergam a corrida presidencial longe no horizonte, uma dica: tudo já começou.

Os primeiros movimentos dentro do GOP, Grand Old Party, como são chamados os republicanos por aqui, foram dados por Sarah Palin. Sim, ela está de volta ao ringue. Não disputará qualquer cargo novamente, mas estará por trás da estratégia de seu grupo em moldar um partido mais conservador e que oriente a escolha de um candidato alinhado com estas idéias para 2016.

Muitos acreditam que Sarah Palin é uma piada. Não é. Como analiso do ponto de vista estritamente político, deixem as paixões de lado e vamos tentar colocar o assunto em perspectiva. Ela possui realmente um potencial enorme de desequilibrar disputas em redutos mais conservadores. Neste caso, sua estratégia não é vencer democratas, mas reordenar a estrutura dos republicanos, levando o partido como um todo a um viés mais conservador.

Ela tem cruzado o país. Iowa, Tennessee, Carolina do Sul, Kentucky, Mississippi. Onde houver um republicano moderado nas cordas, ela irá ajudar a derrubá-lo elegendo nas prévias pré-candidatos mais conservadores. Sua cruzada é longa, mas não falta energia. O deputado Lamar Alexander está na sua mira, assim como os senadores Mitch McConnell e Lindsay Graham. Estes são os primeiros, mas sua lista é longa. Palin pode desequilibrar o Partido Republicano para a direita.

Sua participação em primárias é comemorada pelos conservadores, inclusive porque além de desequilibrar disputas, sua simples presença leva campanhas a arrecadar muito mais fundos e leva estímulo de voto para eleitores que não participariam da escolha. Ela é uma estrela nestes redutos.

Quem pensa que Palin está na estrada para 2014 se engana. Ela quer organizar o partido cada vez mais perto de suas idéias para que em 2016 o GOP venha com um nome realmente ligado ao lado mais conservador. O trabalho de fundo que Palin está fazendo tem por objetivo reorientar o partido, mas também pode rachá-lo de forma muito preocupante. A polarização é o hoje o principal problema da política americana. Neste caso ela tenta apagar o fogo com gasolina. A conferir.

quinta-feira, outubro 24, 2013

Sharif em Washington

Ontem, Dilma Rousseff poderia estar na Casa Branca. O jantar de sua visita de Estado estava marcado na agenda para ontem. Obama jantou com a família, mas um pouco mais cedo recebeu uma visita importante, o Primeiro-Ministro do Paquistão, Nawaz Sharif.

As relações com o Paquistão são importantes para os americanos. O país islâmico é estratégico para as ações de combate ao terrorismo, já que por ali circulam muitas forças hostis aos Estados Unidos. Não foi por outro motivo que o Islamabad entrou com honras na agenda americana depois das ações de Bin Laden.

Mas as relações entre as duas nações andaram estremecidas depois do caos político pelo qual passou o país asiático e com as constantes entradas das tropas americanas e ataques de drones no país islâmico. Existe uma sintonia muito fina que precisa ser traçada entre a manutenção da aliança com os americanos e o xadrez político interno. O Paquistão possui uma política complexa que pode levar a perigosos períodos de instabilidade. A divisão tribal do país e os grupos extremistas fazem parte deste delicado quebra-cabeça.

Foi em um Paquistão, já aliado dos Estados Unidos, que os terroristas da rede Al Qaeda, inclusive Osama Bin Laden, e os membros do Talibã encontraram abrigo depois que as tropas americanas chegaram no Afeganistão. O país governado por Sharif possui muitas complexidades e dificilmente um governante consegue manter o território inteiramente sob controle. A divisão do poder precisa ser negociada com as lideranças locais e assim abrem-se flancos onde grupos hostis ao Ocidente conseguem se impor.

Assim, a visita de Sharif possui nuances importantes. O Primeiro-Ministro reclamou sobre o uso de drones em suas palestras e comunicados para a imprensa aqui em Washington. Mas sabemos que os paquistaneses são gratos aos americanos pelo uso dos robôs. Logo, suas declarações servem para acalmar os ânimos em casa. Nawaz Sharif também está levando US$ 1,6 bilhão em ajuda militar e econômica de volta para Islamabad. Portanto, sabe que a aliança com os americanos rende também em outras frentes.

Sharif esteve por aqui. Fez o jogo político. Falou para os grupos mais duros em casa, reuniu-se os lideranças empresariais, jantou com John Kerry, tomou café da manhã com Joe Biden e encontrou-se com Obama. Levou um cheque de ajuda militar e econômica. Nada além do que se espera de um Presidente do Paquistão que, como todos os outros, tenta manter-se no poder. Ponto para ele.

quarta-feira, outubro 23, 2013

O Celular de Merkel

Depois da França, foi a vez a da Alemanha. A Chanceler Angela Merkel ligou para Obama quando recebeu a informação de que suas ligações de celular haviam sido monitoradas pelos Estados Unidos. Tudo indica que a informação vazou pela revista Der Spiegel, apesar de ainda não ter sido confirmado. O fato é que em menos de um dia o governo Obama teve sua credibilidade colocada em risco, desta vez com outro aliado importante, a Alemanha.

Já escrevi aqui sobre o vazamento das ações de espionagem norte-americanas. É fato que governos espionam. Não é bonito, mas o serviço existe. O problema, neste caso, foi a falta de cuidado - que respinga diretamente na agenda diplomática. Vazamentos evidenciam um sistema com falhas. Informações que foram coletadas pelo Estado vazaram para as mãos de terceiros.

Além disso, quem detém e vaza estas informações no momento desejado possui uma arma muito poderosa. É um instrumento que, usado de forma eficaz, pode influenciar a agenda externa norte-americana. O vazamento das informações de espionagem no Brasil, por exemplo, foram publicadas no mesmo período em que ambos os países preparavam uma visita de Estado da Presidente brasileira em Washington. Chega a ser ingênuo falar de coincidência. 

Enquanto as denúncias de espionagem respingam na Casa Branca e a imagem do país segue arranhada mundo afora, na imprensa americana o assunto não é tratado com relevância. A questão do momento, depois da batalha entre Obama e o Congresso sobre o orçamento e o aumento dívida, paira sobre a funcionalidade do sistema de saúde. Quando o assunto é espionagem, a preocupação é com o monitoramento interno dos americanos. As denúncias sobre espionagem na França, Alemanha e México, veiculadas nesta semana, estão fora dos temas relevantes da semana. 

É preciso mais atenção com este assunto. A preocupação com a espionagem interna deve ser tão debatida como a espionagem externa. A imagem dos Estados Unidos está sendo afetada de forma muito negativa com esta sucessão de denúncias. É preciso que a imprensa noticie o assunto de forma clara de modo a trazer o assunto ao debate nacional. Enquanto a população não entender o que seu governo vem promovendo, não conseguirá pressioná-lo em sentido contrário. Manter alianças externas e uma boa imagem no mundo faz parte de uma estratégia política e de comunicação que tem se mostrado falha. É preciso tomar providências sérias antes que valiosas alianças sejam ainda mais comprometidas.

segunda-feira, outubro 21, 2013

Espionagem na França

Edward Snowden continua fazendo estragos. Agora o alvo foi a França. O Le Monde publicou, baseado mais uma vez nos documentos vazados pelo americano, que a NSA espionou também a França. Logo depois de enfrentar mais uma crise interna, Obama terá que lidar com sua agenda externa.

A França, que hoje é uma aliada dos Estados Unidos, reagiu, como era esperado. O Primeiro-Ministro, em visita na Dinamarca, declarou-se perplexo. Obama, por sua vez, ligou para Hollande com o objetivo de contornar a situação. O Embaixador foi convocado, como era de se esperar.

Certamente este embaraço será contornado, entretanto, o problema que Snowden causa aos Estados Unidos é enorme, por um simples, motivo: suas informações são publicadas a conta gotas, trazendo desespero para a chancelaria americana. Não é possível saber o que será publicado amanhã, uma vez que Snowden vazou, ou continua vazando, uma série de documentos.

Como é possível manejar uma política externa desta forma? Esta é uma questão que atormenta o Departamento de Estado, uma vez que as alianças e os acordos são colocados em xeque cada vez que a imprensa divulga mais uma ação de espionagem dos americanos, em especial, contra seus aliados. Na verdade é difícil construir uma agenda externa e mantê-la de pé desta forma.

Um governo, que já possui dificuldades no front interno, agora enfrenta sérios problemas no front externo. Quem detém e vaza sistematicamente estes detalhes em relação a espionagem pode moldar ou direcionar a política externa de Obama. Não é possível saber quando e de onde virá a próxima  denúncia. Mesmo que o governo tivesse um hábil manejo diplomático, o que não é o caso, já seria difícil. Com um governo sem uma agenda externa definida torna-se ainda mais preocupante. Para quem detém as informações, um valioso trunfo.

sexta-feira, outubro 18, 2013

Bipartidarismo Necessário

A vitória foi de Obama, sem dúvida, mas o que resta no espectro político depois disso é preocupante. As análises são todas direcionadas ao péssimo momento vivido pelos republicanos e como o assunto rachou o partido mais uma vez. Entretanto, mais interessante do que isso é entender em um aspecto amplo a situação geral do que se tornou a política do país mais poderoso do mundo.

A Casa Branca obteve uma vitória, entretanto, não nos iludamos. Obama vive um momento difícil e tem pela frente três anos dramáticos. Em Washington somente especula-se sobre a sucessão do Presidente que tomou posse para seu segundo termo apenas 10 meses atrás. O início do segundo mandato é o período natural de avanço e implementação da agenda vitoriosa, uma vez que não há o compromisso de concorrer a uma reeleição. Entretanto, o que vemos é uma Presidência enfraquecida e sem iniciativa. Isto é preocupante.

Barack Obama chegou a Washington com o discurso da união e construção de pontes de entendimento entre republicanos e democratas. Quatro anos depois de assumir a Presidência enxergamos que nunca a distância entre os dois partidos foi tão grande. A responsabilidade não pode ser jogada completamente em Obama, mas seu estilo e inabilidade para lidar com determinadas situações certamente ajudaram a jogar o mundo político em uma situação de preocupante polarização, pois é uma divisão que paralisa o país.

Não há dúvida de que a situação precisa melhorar, mas para isso precisam ser criados canais de comunicação. O país está paralisado. Hoje estas pontes não existem e por conseguinte as negociações estão travadas. Esta iniciativa precisa vir da Casa Branca. Obama precisa colocar em prática uma agenda mínima, chamar os republicanos moderados e construir um entendimento. Não é uma tarefa fácil, mas enquanto nada for feito, a agenda permanecerá retida nas mãos dos grupos mais radicais de ambos os partidos e os episódios como os mais recentes continuarão a se repetir.

Repito, a iniciativa precisa partir de Obama. Caso contrário, a próxima campanha presidencial será uma batalha nada amistosa entre grupos rivais e distantes que não se toleram. A radicalização da política americana não interessa a ninguém. Caso persista no erro, Barack Obama se tornará, como chamamos na política, um pato manco, um homem sem capacidade de liderança. Conduzirá uma Presidência vazia, sem reformas, maior alcance ou impacto, carregando o perigoso legado da radicalização política, o que seria terrível para a sociedade americana.

quinta-feira, outubro 17, 2013

Vitória de Obama

O Presidente americano jogou com o brio dos republicanos e venceu. Alguns adversários classificaram o triunfo de Obama como vitória de pirro. Não foi. Foi mais. A expressão do Presidente, que se dirigiu aos jornalistas antes mesmo do acordo ser aprovado na Câmara, mostrava a confiança que emanava da Casa Branca. O Presidente, em tom vitorioso, anunciou duas conquistas: o aumento do teto da dívida e a reabertura do governo.

Os republicanos mostraram que não sabem ainda usar a sua maioria. Portando, o derrotado maior é o Presidente da Câmara, republicano John Bohener. Sua expressão de contrariedade após o acordo mostrava que realmente algo havia saído errado para seu partido. A oposição não conseguiu impor qualquer limite ou restrição aos gastos do governo. Ficou a promessa de que a Casa Branca revisará os custos com o intuito de baixar impostos no futuro. Nada mais vago.

Obama disse que não negociaria. Não negociou. Jogou duro com os republicanos e saiu vitorioso. O Presidente não recebe a pressão dos distritos como os deputados, que voltam toda semana para casa e são bombardeados pelos eleitores com reclamações e demandas. Os deputados enfrentam eleição no ano que vem. Obama está garantido até 2016 e já venceu sua reeleição. Será um Presidente de dois mandatos. No segundo termo, em tese, ele tem mais liberdade de ação. A reclamação dos eleitores que não recebem seus cheques, benefícios ou são prejudicados pelo governo geralmente batem nas costas dos deputados.

O final de semana aqui em Washington foi intenso. Meus amigos que trabalham no Congresso cancelaram compromissos e ficaram inteiramente dedicados ao processo de costura do acordo. Sabíamos que algo viraria até ontem. A maior preocupação era realmente com o limite de endividamento. Se os americanos não passassem o aumento do endividamento do país até ontem, o país começaria a não honrar seus papéis. Agências de classificação de risco não sediadas nos Estados Unidos já realizaram um pequeno rebaixamento do país, pelo simples fato de ter sido tão penoso chegar a um acordo. É um sinal. Alguns disseram que os chineses estão vibrando com isso. Calma. Nada mais interessante aos chineses que uma América rica e compradora de seus produtos, além do mais, os chineses também carregam estes títulos que os americanos deixariam de honrar.

No final das contas, o governo será reaberto, os republicanos ficaram desmoralizados por ter cedido e o Presidente da Câmara com sua liderança contestada. Obama não ofereceu qualquer coisa em troca e levou tudo que pediu. Em janeiro o drama se repete. Obama vai ceder? Agora você já sabe a resposta.

quarta-feira, outubro 16, 2013

Flanco Aberto

Enquanto Obama segue em Washington para discutir os problemas internos de seu governo, o front externo fica desguarnecido. Apesar de possuir um Secretário de Estado atuante, como John Kerry, muitas vezes a presença do Presidente, ou seja, o exercício do que é chamado de Diplomacia Presidencial, é extremamente importante. O último Presidente que exerceu com força este mecanismo no Brasil, diante das nações ricas, foi Fernando Henrique Cardoso.

Voltando a Obama. Como relatei aqui no post anterior, o Presidente americano tinha duas reuniões muito importantes na Ásia na última semana: os encontros da Asean e da Apec. Depois ele partiria para Indonésia. Ou seja, seria um giro entre Brunei, Malásia e Indonésia que ficou para trás. Como expliquei aqui, os chineses e russos agradeceram a ausência do americano, negociaram, fizeram giros movimentos políticos e posaram de líderes mundiais.

O Presidente americano ficou preso aqui em Washington para discutir dois assuntos: o shutdown, ou seja, o fechamento do governo pela falta de aprovação do seu orçamento e o risco de o país não honrar suas contas, ou seja, atingir seu nível de endividamento máximo, sem aumentá-lo - o que apenas prorroga o problema do déficit. O próprio Obama foi contra medidas assim no passado, quando o Presidente era Bush e ele era senador pelo Illinois. Ele votou contra as medidas que agora precisa tomar como Presidente.

Enfim, o Salão Oval vive dias de tensão e o Presidente está com todas atenções voltadas para a política doméstica, enquanto o flanco internacional fica em aberto. A China ocupa espaços geopolíticos na Ásia Central, a Rússia se posiciona como interlocutora na questão síria e Washington permanece imobilizada  em suas discussões internas.

Os americanos vem perdendo espaço no mundo internacional. Não falo da questão de dominação militar, mas dos meandros diplomáticos e econômicos. A capacidade bélica e humana quanto ao front militar é indiscutível, mas lembremos que este mesmo povo venceu a Guerra Fria por meio da economia sem disparar sequer um tiro. Enquanto isso a China movimenta-se em silêncio - economicamente. Os Estados Unidos precisam colocar a casa em ordem.

segunda-feira, outubro 14, 2013

Diplomacia Chinesa

As mudanças na política externa chinesa são visíveis. Cada vez mais Pequim tem feito uso do soft power. O exercício de poder exterior chinês, no momento, tem se transformado na habilidade em construir pontes políticas, econômicas e de cooperação com diversas nações pelo mundo, mas em especial com os seus vizinhos.

A política de cooperação internacional é intensa. As recentes mudanças políticas na China, com a transição de Hu Jintao para Xi Jinping somente acentuaram um modelo que já vinha sendo implementado por seu antecessor. A ajuda externa chinesa cresceu de US$ 1,7 bilhão em 2001 para US$ 189,3 bilhões em 2011, cerca de 3% do PIB do país.  Os números mostram que existe uma política externa clara em curso.

Os chineses tem interesse em manter fronteiras estáveis. Isto ajuda ao país e alimenta o comércio também com os vizinhos. Para isso, Pequim faz uso da diplomacia de cúpula, em fóruns como a Asean e Apec, além das relações bilaterais e fóruns regionais, ou seja, a diplomacia chinesa tem agido em todas as frentes.

Somente última semana Xi Jinping prometeu triplicar o comércio com a Malásia nos próximos anos, realizar investimentos na Indonésia e ampliar os negócios e cooperação em tecnologia e energia com a Austrália. Enquanto isso, o premiê Li Keqiang compareceu ao fórum de líderes da Asean no Brunei e depois seguiu para a Tailândia.

Nos últimos meses Xi Jinping também esteve em ação durante viagens intensas pela Ásia Central fazendo visitas no Turcomenistão, Cazaquistão, Uzbequistão e Quiguistão, onde os chineses se encontraram com os iranianos. Na reunião da Organização para Cooperação Xangai (SCO), ainda houve um encontro com o líder do Tajiquistão.

Como vemos, os chineses não estão brincando. A balança de poder na Ásia está movendo-se mais rápido que se esperava. Enquanto Pequim se movimenta, Washington parece paralisada. Obama cancelou suas viagens para Brunei, Malásia e Indonésia. Xi Jinping agradece.

sexta-feira, outubro 11, 2013

Bom para Aécio

A entrada de Marina Silva modifica o jogo eleitoral, entretanto, pode ser de forma diferente da qual ouvimos por aí. Uma análise do mapa eleitoral do Brasil, aliado aos resultados da última eleição nos mostra claramente onde são os bolsões de votos do petismo, tucanos e Marina e vemos que Aécio tem mais a comemorar do que a lastimar com entrada da ambientalista no jogo ao lado de Eduardo Campos.

Candidato derrotado em 2010, Serra diz ser detentor de 33 milhões de votos no Brasil, ou seja sua votação no primeiro turno. Aí está o primeiro erro. Serra não é detentor destes votos. Eles são votos da oposição. O que vale dizer que qualquer outro candidato escolhido pelo PSDB chegaria a este patamar de votos, ou seja, cerca de 32%.  No segundo turno pulou para quase 44%. Em 2006, Geraldo Alckmin obteve no primeiro turno cerca de 42%, praticamente 40 milhões de votos. Aécio deve partir deste patamar de 30% pelo geografia do voto no Brasil. A região Sul, somada a parte do Sudeste e Centro-Oeste, especialmente no cinturão do agronegócio, tem uma tendência forte em votar com um nome de centro tucano.

Marina Silva, apesar de tomar alguns votos dos tucanos, não ataca diretamente seu eleitorado. Marina venceu apenas no Distrito Federal e teve boa penetração nos estados do Norte e Rio de Janeiro, onde tomou o segundo lugar de José Serra. Vemos que em nenhum destes lugares o PSDB conta com uma expressiva votação. Marina tirou mais votos de bolsões petistas e empurrou Serra, com uma robusta votação no Centro-Sul para o segundo turno.

Eduardo Campos, ao lado de Marina, terá uma penetração mais difícil no Centro-Sul. Nenhum deles possui estrutura partidária e qualquer identificação cultural nestas regiões. Será um trabalho muito difícil. A chapa Eduardo-Marina, entretanto, tem condições de realizar uma boa votação no Nordeste, bolsão petista, no Rio de Janeiro, onde os tucanos nunca emplacam e na região Norte, reduto de Lula e Marina.

Aécio tem todas as condições de chegar ao segundo turno. Precisa escolher um vice que dê sustentação ao seu projeto e robustez eleitoral onde já é forte. Um vice do Nordeste só faz sentido se for alguém de enorme expressão e que estivesse aliado ao governo, como Eduardo Campos. Juntos, fariam uma coligação imbatível, mas o casamento político do PSB com Marina inviabilizou este projeto. Aécio precisa de um vice do Centro-Oeste, ligado ao agronegócio e que carregue com robustez uma vitória avassaladora pelo interior de São Paulo, Mato Grosso, Goiás e Minas Gerais. Aliás, o estado de origem de Aécio, a jóia da coroa que faltou aos tucanos para vencer os últimos pleitos, agora nas mãos do PSDB. Caberá aos tucanos fazer bom uso dela.

A vitória nunca esteva tão ao alcance dos tucanos. Depende, entretanto, como decidirão se movimentar em um jogo que virou, ao contrário do que muitos acham, favoravelmente para o seu lado.

quinta-feira, outubro 10, 2013

Um Novo Momento

A política do Ocidente para as questões envolvendo o Oriente Médio e o Mundo Árabe tem tomado contornos cada vez mais problemáticos. Os capítulos envolvendo a chamada "Primavera Árabe", com Síria e Líbia, além do Iraque, apenas comprovam a falta de uma política coerente para a região. Apesar de existir a possibilidade de rever ações e reorientar políticas, falta uma diretriz clara para a região.

O Iraque foi o primeiro problema. Não há dúvida que Saddam Hussein representava um perigo em termos de segurança. Entretanto, ao custo de milhares de vidas de soldados norte-americanos e outros aliados, o país hoje está nas mãos de um grupo xiita que possui laços estreitos com o Irã. Certamente existiu um erro de cálculo político. A retirada de Saddam traria outro grupo para o poder. Diante do fato de que o ditador deixaria o comando em razão da guerra, faltou estabelecer o próximo passo, ou a construção de uma situação de estabilidade política no país que se traduzisse em tranquilidade na esfera internacional.

A Síria tinha potencial para tornar-se um Iraque piorado. A saída de Assad traria uma instabilidade enorme para a região. O país é comandado por um ditador, mas diante de seus opositores, talvez ele seja a opção mais segura para o Ocidente, afinal nenhum país deseja que a Síria seja comandada por um grupo rebelde ligada aos terroristas da Al Qaeda com acesso ao armamento químico de Assad. Portanto, pelo menos neste momento, a opção de atacar a Síria é um risco que precisa ser muito bem calculado.

O mesmo problema ocorreu na Líbia. Kadafi foi destituído e o país submergiu em uma situação complicada com tribos na disputa pelo poder, milícias com ligações a grupos terroristas que comandam parte do país e um governante que não consegue controlar a situação. A escalada da violência é cada vez maior, a produção de petróleo despencou e o Embaixador americano foi brutalmente assassinado. É preciso perguntar se para o Ocidente valeu a pena. Kadafi era um ditador, mas mantinha os grupos internos sob controle e a comunidade internacional mais tranquila.

A região é permeada por ditaduras. Algumas delas simpáticas ao Ocidente, como foi Mubarak no Egito, entretanto, as intervenções externas na região acabaram por fortalecer grupos hostis aos Estados Unidos e ao Ocidente de um modo geral. É preciso parar de agir somente na demanda das situações, mapear os grupos e criar uma política consistente em relação a região. É preciso encarar o quebra-cabeças do Mundo Árabe e do Oriente Médio como parte de um todo, onde forças que não representam os preceitos morais do Ocidente estão em constante disputa pelo poder.

A sucessão de intervenções realizadas até aqui somente trouxeram mais instabilidade para a região e para o mundo. Vivemos um novo momento. É preciso parar e repensar a política. Talvez esta seja a medida que crie maiores condições de segurança para todos.

quarta-feira, outubro 09, 2013

O Dilema de Obama

Enquanto o governo permanece em shutdown, Obama tem pela frente uma nova prova de fogo. Em mais alguns dias o Congresso deve autorizar o aumento do teto da dívida americana. Os republicanos mandaram um recado: estão dispostos a usar esta votação como mais uma arma política para que o Presidente negocie. Até o momento a Casa Branca está irredutível.

Enquanto a falta de autorização para o governo gastar acarreta um prejuízo mais de impacto político, a decisão de não elevar o teto da dívida pode levar os americanos a não honrarem seus papéis, considerados os mais seguros do mundo. Tal ato levaria incerteza aos mercados, derrubaria as bolsas e poderia gerar uma situação de tensão econômica séria.

Obama conta com o bom senso dos republicanos, ou seja, acredita que não prejudicariam o país misturando as duas questões. Entretanto, a intransigência da Casa Branca em buscar uma saída ao shutdown pode levar os republicanos a uma decisão mais radical. O Presidente deve se preparar para o pior, até porque a oposição jogará no seu colo o ônus de não honrar com os próprios papéis e jogar os Estados Unidos em uma situação de vexame econômica mundial. Dirão que a intransigência do Presidente está levando o país a uma situação preocupante.

O fato é que estes acontecimentos mostram um governo errático e sem rumo. Obama aposta todas suas fichas no seu projeto de saúde, mas não possui maioria na Câmara para fazer sua iniciativa ser incluída no orçamento. Está esticando a corda e não mostra-se disposto a ceder. Do outro lado, os republicanos negociam somente se o Obamacare foi retirado ou prorrogado. Há um impasse. Se de um lado existe um legado a defender, do outro existe uma agenda muito clara de combate ao projeto de saúde. No meio de toda esta guerra, que já paralisou o governo, pode acabar sobrando para a economia. Quando Obama estava no Senado, votou pela rejeição do aumento do teto, como mostra a foto. Disse que faltava liderança ao Presidente Bush. Talvez a mesma que ande em falta no Salão Oval nos dias de hoje.

segunda-feira, outubro 07, 2013

O Movimento de Marina

O fato político está posto. Marina Silva resolveu embarcar no projeto do PSB. Seu movimento gerou inúmeros desdobramentos. Uma jogada política bem pensada ou um erro estratégico de proporções monumentais. Somente o futuro responderá se ela está certa, mas desde já os cenários desenhados são passíveis de análises.

Assim que Marina sacramentou sua ida para o PSB, Eduardo Campos ligou para Lula. Fazia um movimento político. Enquanto isso, Roberto Freire avisava a nova socialista que se o objetivo era criar uma alternativa ao petismo, o caminho estava errado. Ela deveria entrar para o PPS, sedimentar seu nome, e somente depois tratar de uma aliança em nível nacional. Freire alertou para o fato de que Campos, no caso de Lula sair candidato, pode ceder.

As duas questões levantadas pelo presidente do PPS são pertinentes. A primeira estratégia faz mais sentido eleitoral. Antecipar uma decisão desta importância reduz o arco de possibilidades de alianças e pode trazer Lula de volta para a disputa, o que sepultaria as intenções de Campos de candidatar-se ao Planalto e as de Marina criar uma terceira-via. Faria realmente mais sentido Marina trilhar um caminho dentro do PPS e somente depois aliar-se ao PSB, inclusive porque os dois partidos poderiam somar tempo de propaganda eleitoral na televisão.

Os parlamentares da Rede de Marina não desembarcarão na sua totalidade no PSB. Houve uma pulverização de seus aliados para diversos outros partidos, o que pode dificultar a solidez dos apoios que ela poderá contar nos estados e deixa Marina nas mãos de Campos, que controla o PSB como um czar. Com este movimento sua Rede perde consistência e ela embarca definitivamente dentro do projeto de Eduardo Campos.

Ficou ruim para o PSDB. Se os tucanos sonhavam com a dobradinha Aécio/Eduardo, agora ela foi definitivamente sepultada e a candidatura Eduardo/Marina ganhará musculatura. Os tucanos irão amargar o terceiro lugar nas pesquisas e deverão lutar por uma vaga no segundo turno contra a chapa sensação do momento.

O que ficou claro com este movimento é que a opção viável ao petismo virá de dentro de sua base de apoio e fileiras, com a fadiga natural do material político depois de mais de uma década de poder. A oposição verdadeira e real está enfraquecida e sem capacidade de reação. O derretimento do PFL/DEM e o surgimento de partidos como o PSD e o crescimento do PSB são a maior prova disso. O nome de Marina, ministra de Lula, como nome viável contra o petismo é a prova contundente de que o PT conseguiu movimentar o equilíbrio da balança política brasileira de forma definitiva.

sexta-feira, outubro 04, 2013

O Fator Marina

A política brasileira vai encontrando seus caminhos e fazendo seus arranjos na medida que se aproximam as eleições. Marina Silva perdeu a primeira batalha. Não conseguiu emplacar seu feudo particular, a Rede Sustentabilidade. Poderá conseguir o registro, mas não em tempo hábil de concorrer no próximo ano. O que fará Marina, dona de fatia importante do eleitorado, é discutido no momento nas bolsas de apostas da política nacional.

Marina chegou a 23% de intenções de voto durante as manifestações. Recuou agora para cerca de 16%. Não é uma fatia desprezível. Aliás são os votos que podem definir se haverá ou não segundo turno nas eleições presidenciais que se avizinham. Sem Marina, Dilma pode faturar a reeleição no primeiro combate. Aécio Neves e Eduardo Campos ainda precisam mostrar musculatura para desalojar o petismo do Planalto.

Marina é teimosa. Todos sabem disso. Em 2010 preferiu não se comprometer e assumir a neutralidade no segundo turno. Mirava lá na frente. O futuro chegou e ela não se preparou. A sua idéia da Rede demorou demais e extrapolou os prazos da legislação eleitoral. Marina está fora do jogo. Somente volta se topar entrar em uma legenda de aluguel para disputar o poder, o que, em tese, vai contra seus princípios.

Ela encontra-se em uma situação delicada. A dúvida é se ela ficará ao lado dos seus princípios ou os largará para disputar o poder. Política é timing. Se ela perder a onda que criou-se a seu favor, talvez perca sua única chance de chegar ao Planalto. Marina preferiu arriscar a anti-política, subvertendo as regras do jogo. Os jogadores profissionais mostraram que se ela quiser chegar lá, é preciso submeter-se ao mesmo processo e regras que todos.

Minha aposta é que Marina ficará com seus princípios e teimosia. Posso estar enganado, mas ela acredita que ainda pode acontecer algo que faça com que sua Rede ganhe vida, talvez no Supremo. Marina tentou subverter o sistema, que devolveu-he a audácia na mesma moeda. Para tentar o poder, terá que se submeter ao jogo, caso contrário está fora.